
No 406 do Links mora um senhor muito quieto: o seu Antônio Carlos. Foi um dos maiores craques da história do futebol. Não um craque qualquer, mas um craque diferente. Uma criança melancólica, solitária. Ele não gostava da escola, não falava com ninguém e, perdido naquela cidadezinha do interior, distraía-se apenas com o futebol. Adorava futebol. Ía todos os dias no campinho ver os garotos maiores jogarem. Assistia aos jogos na TV e seu radinho de pilha estava sempre sintonizado na programação esportiva. Ele admirava os locutores. Era freqüente vê-lo sentado num canto, narrando uma partida de futebol fictícia. Ele incluía à narração as reportagens após a partida, os jogadores tristes com a derrota, os dirigentes admitindo a crise do clube, o técnico pedindo demissão.
Seu pai, sempre muito preocupado, numa tentativa de tornar seu filho pelo menos um pouco sociável, inscreveu-o na escolinha de futebol da cidade.
Algumas semanas depois, o técnico veio falar com o seu Nestor, o pai do Antônio Carlos:
- Olha seu Nestor, vou lhe confidenciar. O Antônio é o maior craque que eu já vi jogar ! Tem um talento inacreditável ! Mas... ele é muito esquisito. Ele tem algum problema ?E o seu Nestor dizia que o garoto era normal, tinha uma vida tranqüila, e só era um pouco quieto. Timidez, talvez. E foram diversas conversas do técnico com o pai do garoto promissor. Pudera, Antônio Carlos não falava com ninguém, só o essencial, só "ois" e "tchaus". Estava sempre cabisbaixo e triste. Ninguém entendia. Na decisão do torneio juvenil, o pequeno craque fez todos os gols do seu time, foi o herói da competição. Mas não vibrava nos gols e, por mais que seus entusiasmados companheiros pulassem sobre ele na vibração de cada gol, ele apenas se afastava dizendo:
- Por favor, parem ! Nada disto faz o menor sentido !Um dia o técnico o levou à capital para apresentá-lo a um clube grande. No dia dos testes, Antônio Carlos impressionou a todos e o clube resolveu contratá-lo. Seu Nestor, entusiasmado, telefonou para o clube e conversou com um dos diretores:
- Eu sabia que o meu Antônio ia conseguir ! Ele deve estar pulando de alegria ! - Olha, seu Nestor, eu pensei que o garoto ia ficar mais contente...
- Como assim ? - Ele começou a dizer uma coisas estranhas. Falava que a existência não tem lógica. E depois escreveu uma frase logo abaixo de sua assinatura no contrato.- E o que é que o garoto inventou de escrever ? - perguntou o pai, já aflito. - Bom... ele assinou e escreveu embaixo: "neste intervalo absurdo entre minha vontade e o meu mundo, inscrevo-me em meus abismos a cada queda do meu destino". Dá pra entender ? O pessoal aqui ficou assustado e pensaram até em cancelar o contrato. - Ele está aí por perto ? - Já te passo o garoto. - Alô pai... - murmurou Antonio Carlos com voz desanimada. - Filho, filhão ! estou orgulhoso de ti ! vai jogar num grande clube ! Estamos todos contentes, você conseguiu ! - o seu Nestor falava propositadamente com exagerado entusiasmo, tentando animar o filho. - Não sei pai, não sei se este é meu lugar, meu tempo. Não sei em que dimensão estou. Acho que isto tudo não passa de uma vã tentativa de não ver a degradação inevitável da vida, a decadência das coisas. E eu não tenho chances...tudo que posso sentir é a morte. - Que é isso filho ? Você vai se dar muito bem aí, não te preocupa ! Vai dar tudo certo ! - Pai... hoje eu estava jogando, fazendo os testes, e aqueles homens me observando. Mas... eu me pergunto: pra que ? Fiz um gol de bicicleta e não senti nada. Nada ! Me diga, pai, pra quê ? - Filho... eu... eu não sei o que dizer... eu nem entendo o que você está falando... tira estas coisas da cabeça, menino ! Você vai ganhar muito dinheiro ! Vai conhecer garotas, e... - Tudo bem pai. Tchau. - concluiu Antonio Carlos, seco e sem emoção.
Antônio Carlos foi a grande revelação dos juvenis do clube e rapidamente foi promovido à equipe profissional, com a camisa 10, no time titular. Sabia que teria que enfrentar o pânico de ser abordado pela imprensa e pela torcida. Seria conhecido, famoso. E isso o deprimia.
Na sua estréia foi o melhor em campo. Fez um golaço (não vibrou, ficou parado) e foi festejado pela crônica esportiva. No fim da partida foi cercado de repórteres. Ele respondia entediado, em monossílabos, não sendo antipático, mas triste. Muito triste.
Causou estranheza a todos aquele garoto melancólico. O comentarista famoso, das cabines de rádio, resolveu conduzir pessoalmente a entrevista que, pelo inusitado, já contava com alta e apreensiva audiência:
- Antônio, tua atuação hoje foi das mais exuberantes que assistimos nos últimos tempos e eu, particularmente, estou realmente impressionado e contente de ver um novo craque surgir. Mas nos espanta a tua apatia em campo. Você nem sequer festejou seu gol, e que gol ! E até em sua entrevista você pareceu muito melancólico. Será impressão nossa ou você tem problemas emocionais graves ?- Treblinka. - Como ? - O campo de concentração de Treblinka. As execuções, a fome, a peste, o tifo, os suicídios, a crueldade, a falta de esperança. É nisso que tenho pensado dentro de campo. - Você está dizendo que pensava nos campos de concentração durante jogo?- Olha... tudo bem... desculpe. Esqueçam o que eu disse. Eu acho que eu quero ir embora. Acho que não vou mais jogar futebol. Não sei... não sei o que quero. Eu... eu... eu quero ter amigos, quero que gostem de mim mas... o que temos para o futuro ? Diga-me ? O quê ? Nada a não ser extinção, nada a não ser o próprio nada.A repercussão na imprensa no dia seguinte foi bombástica. A combinação de uma atuação estupenda e de uma entrevista surpreendente foi um prato cheio para todos os programas esportivos. Um jornal mais sensacionalista colocava em sua manchete:
"NOVO ÍDOLO DA TORCIDA TEM PROBLEMAS MENTAIS"Um programa de debates esportivos da televisão convidou Antônio Carlos anunciando também a presença de um psiquiatra. Mas o craque não foi e, para não parecer pedante, mandou um bilhete para a produção do programa. Bilhete este que foi lido no ar:
"Agradeço sinceramente o convite para participar do programa desta noite. Apenas não achei necessária minha presença. Assim como não acho necessária a minha existência e nem existência de vocês. Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda, reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém, ninguém ! Absolutamente ninguém ! Não significo absolutamente nada ! Nada !"
Na véspera do jogo seguinte era grande a expectativa em torno do novo craque. Durante toda semana ele foi o assunto central nas conversas de bar e nos debates esportivos da imprensa. Mas não cedera nenhuma entrevista. Antes de entrar em campo, no entanto, um repórter conseguiu capturar de Antônio Carlos uma breve declaração:
- O que você espera deste jogo, Antônio Carlos ? A torcida inteira quer te ouvir ! - Nada espero... diante de nós vejo a morte, a solidão e o desespero... quem sabe se eu fizer um gol eu prolongue um pouco a ilusão inútil desta torcida inútil... - Você não acha que está desanimado demais ? É um jogo decisivo ! O estádio está lotado ! - Desculpe... eu... bem... adeus - e foi pro campo.Logo aos cinco minutos de jogo espantou a todos saindo correndo de campo em direção ao vestiário. Os jogadores do time, o técnico, os dirigentes, a torcida, a imprensa, todos se perguntavam o que houve. Mas em seguida Antônio Carlos voltou a campo, convencido pelo psicólogo que o clube havia contratado exclusivamente para atender o jogador.
Fez três gols. Uma partida exuberante. Curiosamente, após o terceiro gol, aliás, um golaço de sem-pulo, ele se dirigiu lentamente à goleira cujas redes acabara de estufar, sentando-se apoiado à trave, e começou a chorar. Em seguida o técnico o substituiu. O narrador do jogo dava gritos emocionados ao microfone:
- Não é possível o que está acontecendo ! Alguém precisa ajudar este rapaz ! É o maior craque da história deste clube mas é um completo perturbado !Após o fim do jogo, nos vestiários, Antônio Carlos, ainda chorando, pedia desculpas a todos. Pelo rádio, o narrador da partida, ainda emocionado, perguntou ao jogador:
- Antônio, estamos todos maravilhados e também preocupados contigo, enfim, toda esta torcida maravilhosa que hoje te aplaudiu de pé, quer saber qual o problema que lhe aflige.E o repórter, postado à frente do craque completou a pergunta do narrador:
- O que nós podemos fazer por ti ? Como podemos torná-lo um pouco mais feliz ?Antônio Carlos sentia-se pressionado. Esperou um pouco e murmurou timidamente uma resposta:
- Eu... não sei... desculpem... não quero agredir ninguém... eu... eu acho que é melhor abandonar o futebol.No dia seguinte ao grande jogo, os jornais abusavam de manchetes surpreendentes:
"CRAQUE NIILISTA ESMAGA ADVERSÁRIO"
"ANTÔNIO CARLOS NEGA POSSIBILIDADE DE SUICÍDIO"
"TORCIDA ALEGRE, CRAQUE DEPRIMIDO".E manteve-se esta rotina pelos jogos seguintes. Iniciou-se forte pressão para que o jovem craque fosse convocado para a seleção. No entanto o técnico desta declarou que não convocaria o jogador enquanto este não mudasse seu temperamento:
- Ele vai baixar o astral do grupo, não há condições !A imprensa tentou induzir Antônio Carlos a dar uma resposta, para que incendiasse a polêmica. Mas ele pouco se importava com o assunto:
- Seleção ? Pra quê ?Antônio Carlos, enfim, ficou famoso e sua personalidade era a discussão da moda. Era convidado a participar de programas de entrevista, mas nunca comparecia. Não gostava.
Muitos o criticavam, achavam que era uma influência negativa, principalmente sobre os jovens, sobretudo quando a torcida começou a freqüentar o estádio vestida de preto, em homenagem ao ídolo. Os próprios jogadores passaram a contestá-lo, e os dirigentes também.
Na realidade, era nítida a diferença intelectual entre Antônio Carlos e o meio futebolístico. Certa feita, numa folga da tabela, não foi a um churrasco dos jogadores, que festejavam a boa campanha, preferindo participar de um seminário sobre Schoppenhauer.
Numa crise depressiva aguda Antônio Carlos fugiu da concentração e foi para o Himalaia, decidido a abandonar o futebol e a fama. Mas foi convencido por seu pai, meses depois, a voltar aos gramados.
Quando voltou, o aeroporto estava lotado de torcedores e repórteres. Haveria um grande jogo marcando o regresso do craque. A direção teve que contornar uma greve dos jogadores, que se recusavam a jogar com Antônio Carlos. Sentiam-se injustiçados diante dos privilégios do craque. A imprensa. abertamente. o acusava de "mascarado".
Chegou o dia do grande jogo, o clima era tenso. Durante a partida os companheiros de Antônio Carlos não passavam a bola pra ele. Alguns torcedores mais antigos, moralistas e ortodoxos, exigiam que ele saísse do jogo.
Mesmo assim, o time ganhou o jogo (um grande clássico local) por 5X0 ! Cinco gols de Antônio Carlos, sempre em jogadas individuais. O jogo entrou para a história, mas os companheiros de Antônio Carlos recusaram-se a dar entrevistas após a partida.
No dia seguinte, com apenas 21 anos de idade, anuncia o fim de sua carreira:
- Não vejo mais nenhum motivo para continuar. - limitou-se a dizer...
Mesmo os pedidos vindos de várias partes do mundo, incluindo propostas milionárias para jogar na Europa, não sensibilizaram o craque.
Isolado, apesar de rico, foi viver em uma pensão miserável e imunda, vivendo tristemente o que achava ser o momento final de sua vida. Os repórteres descobriram onde ele estava, mas Antônio Carlos não abria a porta. Gritava zangado:
- Vão embora... deixem-me morrer sossegado.Antônio Carlos isolou-se e permaneceu incomunicável durante anos, tornando-se um mito. Os diversos boatos de que ele voltaria a jogar nunca se confirmavam.
Ele então juntou alguns garotos em sua pequena cidade natal, e fundou o "Buraco Negro Futebol Clube", de uniforme todo preto e com rígidas regras de comportamento como "não vibrar nos gols", "não dar importância às vitórias" e, ao invés da tradicional palestra antes dos jogos, ele lia poesias tristes do Astronauta Roger para seus pequenos atletas.
E dizem que o time vem se destacando nos torneios em que participa. Sobretudo um garotinho esquisito, o Toninho, muito tímido, acabrunhado e triste, que tem mania de falar sozinho e narrar partidas fictícias de futebol que sempre acabam em crise do clube e demissão do técnico...
E o garoto faz cinco gols por partida !!!