Roy Phipps Dexterpacking



O cavalinho Roy Phipps Dexterpacking, de Gloucestershire, Inglaterra, desde menino, é muito apegado à mamãe égua Clara Phipps. É inteligente, educado e cabisbaixo. Não se sente parecido com os outros cavalos, com exceção de alguns que também gostam de rock progressivo. Roy não compreende quando um dia percebe que as egüinhas entraram no cio e começaram a se interessar por cavalos bagaceiros. Nessa época ele monta numa jovem e inexperiente égua chamada Janish Louise Mapplethorpe. Mas acha a experiência "vazia".

Décadas depois, o cavalinho Roy tem crinas grisalhas. Está com quase 40 anos. Durante um longo período ele ficou cego, devido a uma verminose, e teve um caso de amor com uma égua muito intensa chamada Herbenia Lancellot. Mas ela o traiu com um cavalo reprodutor, o Urco. Um veterinário visitou a fazenda e medicou o cavalinho Roy, que aos poucos recobrou a visão, ficando surpreso consigo mesmo ao perceber que Herbenia era, na verdade, uma vaca.

Os anos se passam e Roy torna-se um cavalo velho, cansado, mas intelectualmente produtivo e insistentemente caseiro. Mesmo sofrendo de grave depressão, apesar das doses cavalares de paroxetina, ele produz textos para as peças de teatro que semanalmente são encenadas na igreja do padre Bittencourt, um sujeito alcoólatra e risonho. Roy era um dramaturgo honesto, sensível e provocativo. Em uma de suas peças, onde um cavalo anglicano comete suicídio dentro de uma sorveteria, Roy não contou com a compreensão dos conservadores e foi banido da comunidade.

Roy adoece e vai para um asilo muito pobre. Durante anos ficou sob o cuidado abnegado de éguas enfermeiras. Percebeu que estava apaixonado por uma delas, a égua alemã Helga Güttenmitter, com quem conversava todas as tardes. Helga era ríspida, mas afetiva. Ela gostava dele, apesar de ficar muito braba quando Roy não queria comer a sopinha, ou quando ele aparecia com o pijama todo mijado.

Roy pediu Helga em casamento. Eram cavalos que atravessaram quase um século de paixões e frustrações. Mas ainda estavam inteiros. Roy insistia em ser otimista. A enfermeira Helga era mais prática e acreditava em frases do tipo "a vida é uma doença letal". Aceitou casar com Roy porque gostava das historinhas que ele contava. A cerimônia foi simples e anônima, celebrada pelo padre Bittencourt numa tarde nublada e fria no outono das vidas eqüinas e corajosas de Roy e Helga. Foram viver os últimos dias de suas vidas num estábulo humilde e confortável na propriedade do Sr. Blackmore.

Foi o período mais feliz da vida de Roy. Ele se sentiu amado e compreendido. Até fechar os olhos pela última vez, deitado no feno macio e jovem de seu derradeiro lar. Seu último olhar foi para a querida Helga, que não deixou que se concretizasse seu maior medo: morrer sozinho.

Green Valley



As travessuras de Gecco Boy em Green Valley, onde vive com seu tio Berne, guarda florestal. A relação com Barbedo River, em cujas margens faz reflexões tranqüilas sobre a existência. A amizade com o cavalo Speed Jumbo. Os conselhos que ouve da vaca Clarividence. As brincadeiras com o cachorrinho Forky. Os diálogos com o gato Sabbath. Os ensinamentos admiráveis da formiguinha Seesaw. Sua ligação espiritual com a árvore Life.

Ninguém é mais feliz do que Gecco Boy em Green Valley, às margens de Barbedo River !

* * *

Mas um temporal perturba este mundo encantado. O casal Hershey, de Nova York, visita o local. Com eles a pequena e graciosa filha única: Rita Hershey. Ela tem malícia e sex appeal. Dotada de uma inocência provocante e fala lasciva, é a alma feminina que marcará para sempre a vida de Gecco Boy:

Foi surpreendente aquela mudança abrupta de clima. Os dias estavam tão lindos e calmos. Agora eu via relâmpagos no céu, e nuvens de violência. Uma tempestade inexplicável se aproximava com ares de ameaça. Forky estava assustado. Sabbath sumiu. Seesaw levou mantimentos para o seu formigueiro. Clarividence estava inquieta. Speed Jumbo corria para todos os lados. Barbedo River estava agitado. Apenas a árvore Life permanecia impassível. Quando voltei para a cabana, tio Berne conversava com um casal de turistas que procuravam um local para passar uma temporada em Green Valley. E uma garota estava com eles. Ela me olhou demoradamente e disse com um sorriso desafiador:

"Oi, sou Rita Hershey, qual é o seu nome ?"

Fiquei sem reação. Meu tio sacudiu meu braço com impaciência:

"Gecco ? Responde a menina ! Seja educado !"

Meu Deus, tantas coisas lindas eu vi na minha vida. As paisagens vigorosas do bosque verde. O sol surgindo com esplendor e arte atrás do Monte Querry e mais tarde desaparecendo no horizonte com suas cores poéticas refletidas nas águas límpidas de Barbedo River. A lua imensa das noites estreladas e silenciosas. Os animais que crescem e falam comigo. A mata cheia de vida e ensinamentos com suas árvores imensas, suas flores graciosas, sua vegetação intensa e seu odor tranqüilo. A música da natureza. Sim, eu passei a vida cercado de beleza. Mas nunca havia visto algo tão perfeito quanto o rosto de Rita Hershey. E quando um sutil vento irrompeu a cabana, agitando sua delicada franja e expondo ainda mais seus olhos que me observavam com doçura e curiosidade, concluí que jamais minha vida teria sentido se Rita Hershey não estivesse perto de mim...

"Ãhn... eu... oi... oi, senhorita Rita Hershey... eu... meu nome é Roger Waltton McAllister... mas... pode me chamar de Gecco..."

"Hi hi hi hi... você fala engraçado !"

Rita Hershey e Gecco Boy iniciam um romance juvenil, cheio de alegria e descobertas, abençoados pela florida primavera de Green Valley. Mas a temporada de turismo termina e Rita vai embora com os pais, de volta à cidade. Gecco fica profundamente perturbado, e seu comportamento sofre drásticas modificações...

* * *

"Oh, meu velho amigo Barbedo River. Eu a amo ! Ela é meio sem vergonha, sei. Até roubou dinheiro da carteira da mãe dela pra gente tomar sorvete lá no Ted's. Mas eu a amo. Você tinha que ver ela tomando aquele sorvete de morango... Eu a amo, eu a amo ! Eu quero ir pra cidade grande procurá-la."

* * *

"Gecco, não perca tempo com essa menina, já lhe disse que você tem que casar com a filha dos Merrick, ela sim será uma boa esposa pra você. Nova York é uma cidade neurótica, cheia de pessoas que jamais se importarão com você !"

"Qualé, tio Berne ? Como pode pretender me dar conselhos sobre o amor ? Não namora ninguém faz uns 40 anos ! Não tem a mínima idéia do que eu estou sentindo ! A mínima idéia ! E quer saber ? Eu não pretendo ser um jeca a vida inteira como o senhor !"


* * *

"Gecco, você está sendo apressado, não devia dar tanta confiança à paixão."

"Ah, sem essa, Speed Jumbo ! Fala isso porque a égua Lorylove deu o maior fora em você e ficou com aquele cavalo de corrida que é tri rico !"


* * *

"Gecco, Gecco. Isso não vai dar certo ! Essa menina não é correta ! Você é um menino tão bonzinho, e essa menina é uma malandra !"

"Que moralismo insuportável, Clarividence. Você é realmente uma vaca conservadora ! o Boi Hugo nunca deu a mínima pra você, pensa que eu não sei ? Agora que eu encontrei o amor da minha vida você tenta me reprimir. Quer que eu seja infeliz como você ?"

* * *

"Au, au, au !"

"Sai fora, Forky ! Eu não quero brincar, não me enche ! Porque não arranja uma cadelinha, hein ? Vai ficar pra sempre com essa cara de idiota ?"


* * *

"Miur..."

"É, gato Sabbath, eu tô sofrendo... Não consigo tirar Rita Hershey da minha cabeça ! É a gatinha da minha vida. Eu... eu vou embora daqui ! Eu vou procurá-la, eu a amo !"


* * *

"Gecco, você precisa construir a sua vida com trabalho e esforço, só então o amor virá com naturalidade e solidez."

"Seesaw, você nasceu pra ser formiga, mesmo ! Detesta o prazer. Sabe a cigarra Samantah ? Aquela que você disse que ia morrer de fome no inverno ? Pois é, ela foi para as praias do sul e fez um contrato milionário com uma grande gravadora e tem uma vida de pop star enquanto você tem uma existência insignificante ! Eu vou embora daqui, Seesaw ! eu vou procurar Rita ! eu a amo !"


* * *

"Gecco, garoto Gecco. Cuidado com os precipícios do destino..."

"Não enche minha paciência, árvore Life ! Você vive aí, parada. Não faz nada ! Eu não ! Eu quero amar, nem que pra isso eu tenha que me esborrachar no chão ! Antes cair num precipício do que ficar nesta contemplação inútil como você ! Você só dá valor à vida. Eu quero morrer por Rita !"


* * *

Inconformado e decidido, Gecco rompe com seu paraíso e vai procurar sua amada.

A ação passa para um futuro impreciso. Gecco Boy é um mendigo na periferia de Nova York. Ele e Rita viveram juntos por um tempo. Mas Rita teve um caso com um gigolô latino e expulsou Gecco do apartamento que ela tinha em Greenwich Village.

Agora, perdido nas frias ruas da metrópole insensível, ignorado por todos, nada neste homem lembra a felicidade do garoto que um dia viveu às margens de Barbedo River.

Barbudo, faminto e miserável, Gecco Boy volta para Green Valley...

Procura pelo tio Berne, mas ele já havia morrido...
Procura pelo cavalo Speed Jumbo, mas ele já havia morrido...
Procura pela vaca Clarividence, mas ela já havia morrido...
Também já haviam morrido o cachorrinho Forky, o gato Sabbath e a formiguinha Seesaw...
Barbedo River foi contido por uma impiedosa represa e agora não tem mais voz nem vontade...
Somente a árvore Life ainda estava lá.

Gecco Boy, doente e fraco, encosta-se nela. E ela o acolhe com carinho, firmeza e silêncio. O pobre homem, com seu coração triste e exausto, permanece alí sem nada dizer, sem nada pensar. Descansa e dorme aos pés da árvore da vida.

Até encontrar a morte no solo gentil de Green Valley.

A vida é um diálogo entre o desânimo e a expectativa

O desânimo argumenta melhor, mas a expectativa é mais incisiva. Eles brigam o tempo todo mas no fim se casam. E têm uma filha pequeninha e inteligente, chamada Alice Marie Tolhurst Blackburn. Ela terá uma vida interessante, até. De esperança desnutrida. Porém, com ironia suficiente para suportar as impossibilidades. E ceticismo conveniente para se divertir apesar das circunstâncias, saca ? Que bonitinha a Alice Marie.

O livro de amor das flores



Na propriedade da Sra. Torrence Gilmore, no distrito de Dibton, condado de Hampshire, vive um girassol chamado Henrik Gottard Cagney. Sensível e deprimido, ele é um girassol desorientado e cabisbaixo. Porque nunca há sol em Dibton, Hampshire.

Mas a Sra, Torrence gosta de Cagney. Cuida-o com dedicação e ternura. Nos momentos de maior intimidade e confiança, recita seus poemas secretos para ele e até lhe faz confissões do fundo do coração. Cagney ficou muito impressionado quando ela, logo após separar-se do marido, com profunda desesperança nos olhos, lhe disse que "o amor é o Papai Noel dos sentimentos".

Então a Sra. Torrence ganha, de um pretendente, uma pequena tulipa vermelha de aspecto elegante e lascivo. O nome dela é Lindsay Padova Capacci. Comovida com a situação de seu girassol desocupado, a Sra. Torrence coloca a tulipa Lindsay ao lado de Cagney. As duas flores, rapidamente, se entendem. Lindsay gosta dos poemas de Cagney. Ele adora o intelecto inquieto dela. E no início do outono, Cagney confidencia à Sra. Torrence:

- Ela é o sol que nunca tive. Agora tenho para quem olhar. Será impossível eu esquecer do dia em que vi Lindsay pela primeira vez. Ela me cumprimentou, tímida e linda. Olhou-me como ninguém. Nunca estive tão assustado e iluminado. E quando um rápido vento irrompeu o quintal, balançando suas pétalas delicadas e expondo sua doce fragilidade, pude perceber que a minha vida jamais teria sentido se Lindsay Padova Capacci não estivesse, para sempre, do meu lado.

Durante o mês de outubro, Cagney e Lindsay vivem o romance mais intenso de suas vidas. Confiante e apaixonado, Cagney começa a escrever um livro. E sente que seu texto, antes tão frouxo e melodramático, agora é mais veraz e vigoroso. Lindsay tem temperamento instável e sentimentos confusos. Mas crê estar amando. E olhando para eles, a Sra. Torrence Gilmore chega a pensar que não existem flores mais felizes em toda a Inglaterra.

Mas ao chegar novembro, Lindsay conhece Doug Gottlieb, um gerânio vulgar e sedutor. Impulsiva e deslumbrada, Lindsay apaixona-se por Doug. Cagney desespera-se:

- Lindsay, eu não acredito! O gerânio Doug é um tremendo bagaceiro! Pode perguntar para as dálias, para as orquídeas, para as hortências, para todas as flores deste quintal! Ele já paquerou todas elas! É um conquistador cafona. Nem os lírios têm fama tão ruim! Como pode cair na conversa dele? Por que vocês, tulipas, gostam tanto desse tipo de sujeito?

- Cagney... eu... eu gosto dele, ok? Não me peça pra explicar isso. Ele me estimula. Ele é envolvente. E... ele beija muito bem. Você teria que ser uma tulipa para me entender. Eu adoro você Cagney, e confio no seu potencial. Mas você é tão contemplativo e auto-indulgente. Não tome isso como uma crítica pessoal, ok? Mas o seu narcisismo me cansa. Doug gosta mais da vida do que você. Ele é o tipo do gerânio que iria até minha casa, enfrentaria o meu pai e me levaria embora na garupa de sua moto. E ele me incentiva a ser atriz. Você sabe que este sempre foi o meu maior sonho. Eu não quero ser coadjuvante do seu ego, Cagney. Quero ser a protagonista da minha vida.

- Então... boa sorte na sua carreira, Lindsay.


Cagney suplica à Sra. Torrence que o coloque no outro lado do jardim, longe de todas as flores e, especialmente, de Lindsay. A Sra. Torrence obedece, pois reconhece a dor e a necessidade de isolamento do seu girassol. Inacessível e inerte, Cagney enfrenta o duro inverno de Dibton em estado, dramaticamente, vegetativo. Nem parece que faz parte de um alegre jardim do sul do Reino Unido e sim de uma melancólica floresta petrificada.

Quando chega a primavera, a Sra. Torrence coloca o vaso de Lindsay do lado de Cagney. E pede ao girassol que a ouça. A tulipa está abatida e sua beleza é mais madura. O reencontro dos dois é um buquê de mágoas e arrependimentos:

- Você tinha razão, Cagney. O gerânio Doug é um canalha. Como fui ingênua! Eu daria todas as minhas pétalas para esquecer o papel idiota que fiz.

- De nada adianta esquecer, Lindsay. No passado sempre somos idiotas. E no presente também somos idiotas, mas ainda não sabemos.

- Sei que não fui muito correta com você, Cagney. Mas não vim em busca de seu perdão. Eu não tenho direito de ser perdoada. Pedi à Sra. Torrence que me trouxesse aqui porque quero me despedir. A floricultura Garden Trust me contratou. Vou embora hoje mesmo. Sinceramente, eu gostaria muito de viver de novo aquele outubro que tivemos. Acho que nunca estive tão feliz. Mas, você sabe, a Garden Trust é a principal floricultura de Hampshire. Será a grande oportunidade da minha carreira.

- A estufa da Garden Trust é um lugar frio, competitivo e brega, Lindsay. Não vá!

- Como você mesmo disse, Cagney, no presente somos idiotas mas ainda não sabemos.

- Lindsay... fique comigo... eu... eu amo você...

- E eu sempre amarei você, Cagney. Mas preciso ir.


O caule de Cagney curva-se. E suas pétalas cansadas miram um chão sem fundo. Nem Van Gogh conseguiria expor tanta tristeza num girassol.

- Ó, Lindsay. O livro que escrevi durante o inverno. É sobre nós. Chama-se "O livro de amor das flores". É para você. Leve-o.

- Eu... eu não posso aceitar... não me odeie, Cagney.

- De que me adianta odiar? De que me adianta amar? De que me adianta o nada, se a distância amarga vencerá a esperança mas não a lembrança? De que me adianta desejar sua vida se a vida aos poucos se dissipa em mágoas? De que me adianta despejar palavras se não há palavras que não foram ditas? Tudo está escrito. O livro de amor das flores viu nossos futuros todos. Os que deram certo, os que deram errado. Só ficaram restos de um passado belo e memórias póstumas de um amor vencido nas páginas gastas de um capítulo antigo. Somos e sempre seremos apenas um futuro. Eu queria poder reler e entender este livro. Mas está escuro.

- Não, Cagney. Está tudo muito claro. Mas seu céu está nublado. Sempre esteve.

- Lindsay, você é o prefácio de tudo que tem significado pra mim. E agora? Livro-me de mim ou de você? No princípio ou no destino, o livro de amor das flores será sempre seu.

- Não, Cagney. O livro de amor das flores é seu. Eu preciso ir. Adeus.

A cova é o útero do nosso destino



- Tatu Roger, eu vim aqui pra dizer que... sinto muito, mas não vamos nos separar.

- como assim, Cameron ? já estava tudo combinado ! até a partilha ! eu ficaria com minhas memórias lamuriosas pra render literatura barata... e você ficaria com as queixas, todas elas.

- pois é, Tatu Roger, mas... não vai rolar, ok ? eu decidi que aceito os seus fracassos e virtudes... e aceito a tragédia estética que foi você ter uma infância ouvindo rock progressivo, uma adolescência post punk e uma velhice grunge... eu até achava legal essa dúvida chique, apesar de manjada, sobre a tua personalidade: "será um idiota ou um gênio ?"... não tenho mais dúvida de que você é um idiota... mas não fique alarmado, idiota eu também sou, tanto que estou aqui... o fato de você entender as mulheres me deixa empolgada e horrorizada... na verdade eu gostaria que entendesse a mim, e não a "todas as mulheres".

- eu não as entendo, Cameron, sou apenas compreensivo.

- sem essa, Tatu Roger, você é um sedutor de ego frágil... quer ser mimado, protegido e glorificado... é um menino deus de 7 anos de idade e sabe tirar proveito disso.

- peraí, eu estou no banco dos réus do seu tribunal ? todo mundo se preserva, se protege, se adapta como pode, por que não eu ? nós dois somos idênticos nisso: pra nós a proximidade gera o caos, a distância gera a tristeza e o meio termo gera o tédio.

- ahahahahahah.

- olha, Cameron... eu achei bonito em nossa relação descobrirmos que não há solução e que toda saída é uma fraude... não só em relação às relações, mas a tudo.

- Tatu Roger, cansei desse seu niilismo... o seu amigo Kurt lhe fez mal... você é muito influenciável... mas pelo menos nisso você é um adolescente e não uma criança... aliás, acho que você é sempre inconveniente, saborosamente inconveniente... uma criança com as mulheres, um adolescente com os amigos e um adulto com as crianças... você nunca tem a mesma idade de quem está contigo.

- como diria o Astronauta, "a diferença é minha última instância de identidade".

- pára de citar o Astronauta como se ele tivesse autoridade, ok, Tatu Roger ? ele é apenas a expressão da natureza manipuladora da sua doença.

- eu gostei dessa tua frase !

- Tatu Roger, eu admito que apesar de todas as suas fragilidades sou eu a pessoa que tem mais medo aqui... eu tenho medo de ser tragada, em toda minha essência feminina, por um homem e por um destino... e um homem e destino não confiável... e... calma... isso se refere a você e a qualquer homem... eu até respeito a liberdade que você me dá... mas não respeito a liberdade que não me dou quando amo, saca ?

- quando "ama" ?

- eu não quis dizer isso.

- mas disse... disse "quando amo".

- foi pra dar ênfase.

- você não quer terminar comigo só porque me ama ? vai atirar nossa relação no oceano de mediocridade do amor ? pra que isso, Cameron ? o amor é uma camisa de força que...

- por favor, aforismo pessimista agora não, Tatu Roger !

- eu adoro aforismos pessimistas.

- eu sei... também gosto... mas isso me entristece, pelo menos nesse momento.

- você é romântica, Cameron... vive negando, mas é romântica... tenta passar a idéia de que a vida endureceu seu coração, que os homens a fizeram esquecer de sentir, que as tragédias a fizeram desistir de confiar na felicidade... mas você continua desejando que a vida seja um filme de mulher com final feliz.

- eu não quero apostar em nós... "nós" não existe... eu não quero apostar em nada... eu quero apenas... eu não sei... eu quero apenas ser o que eu sou, sentir o que eu sinto... e só quero desistir quando isso não for manipulador comigo mesma, sacou ? eu quero a verdade... como a Trinity, em Matrix.

- acho Matrix brega... e acho o Neo e a Trinity um casal chatíssimo.

- tá, Tatu Roger, você entendeu o que quis dizer.

- e acho o Keanus Reeves um canastrão: tem uma só expressão, sempre.

- ok, Tatu Roger.

- não acha ?

- Roger, o que a solidão tem que eu não tenho ?

- nada... e não é melhor pra mim... você tem idéia de o quanto eu sofro quando vou deitar, de madrugada ? e fico ali na cama, pensando na morte, em pânico, com medo... a solidão está me amassando ! como a atmosfera de Vênus amassava as naves das primeiras missões da NASA.

- sério ?

- sim, Cameron, as naves não eram adequadas à pressão atmosférica venusiana, 100 vezes maior que a da Terra, e duravam apenas segundos ao entrar...

- porra, Tatu Roger, não tô falando de astronáutica... e sim desse seu medo noturno.

- ah tá, então... tenho, sim... é terrível... faz minha esperança se curvar ao fracasso... faz minha confiança ceder espaço ao desânimo... faz o medo tornar-se o senhor do meu destino... ahahahah, que saco essas perspectivas poeticas do ser.

- e fora esses clichês aí, isso não mobiliza as suas forças, ao menos, no sentido de tentar mudar as coisas em sua vida ?

- sim, Cameron, faz... por isso eu resolvi amar você... eu resolvi amar pra poder me amar... descobri que ninguém se ama se não amar alguma coisa.

- que bonito isso, Tatu Roger !

- nah, eu tô brincando.

- Tatu Roger, morrer é sério... eu não quero deixar a gente morrer, na dinâmica de nossa relação a minha função é cuidar, a sua é de ser cuidado.

- morrer não é, necessariamente, sério.

- você não quer levar a desgraça a sério pra não enfrentá-la, Tatu Roger !

- é.

- não vou deixar.

- ok, não deixe.

- pára de facilitar pra mim... eu quero que a gente não se separe... mas isso é pra infernizar a sua vida ! e a minha também...

- ok, aceito... Satã será o nosso padrinho.

- você aceitou a separação e agora aceita a não separação... como se não fizesse diferença.

- e não faz... o que eu aceito é... é você... eu a aceito, Cameron.

- por quê ?

- não tem porquê... tudo que tem porque está submetido e distorcido... tudo que eu disser dos sentimentos, estará nos desviando... toda emoção é um engodo.


- concordo, Tatu Roger... e bem profundo e bonito isso aí... mas eu não quero me casar com o Dr. Spock.

- e quem você quer ?

- eu quero "o Tatu Roger"... aquele, como dizia a Catherine Pin Campden, "que se esconde atrás das máscaras me olhando com ternura".

- pare de citar a Cathy como se ela tivesse autoridade !

- mas ela tem, Tatu Roger... ela é o seu melhor aspecto, sabia ?

- não mesmo, Cameron.

- então é isso, continuamos... achei que você ía resistir à proposta, e tal... e até preferiria que resistisse mais, acho... queria um pouco de drama, de vida... mas de certa forma você me surpreendeu e foi legal... acho que você é desses que decepciona os amigos e surpreende os inimigos... nesse sentido é mais interessante ter você como inimigo do que como amigo.

- mas não se aplica ao nosso caso... somos amantes... que tal eu sou como amante, Cameron ?

- irritante... e por favor, quer parar de me chamar de Cameron ? eu não sou a Cameron, ok ?

O muro é sempre maior do que o desejo



Já estava terminando o verão ártico e o urso Grumpf Monshenlachnit, de Karmine Phop, norte da Groenlândia, percebeu que todos os ursos do seu clã arrumaram namoradas, fizeram grandes pescas e caçadas, brincaram e se sentiam felizes, prontos para hibernar no inverno. Por sua vez, Grumpf, notívago desde criança, passou a maior parte do verão dormindo ou não fazendo absolutamente nada. Sua tendência ao isolamento e à melancolia irritava a todos, e antes do fim da estação ninguém mais suportava ele. Afinal, quem pode simpatizar com um urso que não gosta de namorar, de pascar, de caçar e de brincar ? A fama dele era a de um pequeno arrogante egoísta que se achava genial demais para ter hábitos banais, ainda que, contraditoriamente, apresentasse sintomas de sensibilidade na inteligência e bom caráter nos sentimentos. Quando a ursa Monika Labritsk, que sempre se esforçou para compreendê-lo, veio despedir-se dele antes do anoitecer polar, Grumpf relatou a ela:

- Sabe, Monika, o que eu invejei foi a capacidade deles de se divertirem. Capacidade que eu, praticamente, não tenho mais. Minhas emoções estão numa cadeira de rodas, insensibilizadas do pescoço para baixo. Só olhos e ouvidos absorvendo a distância amarga do mundo.

- Tolice sua, Roger. Melhor seria não ter os sentidos do pescoço pra cima, e utilizar o resto do seu corpo, sem pensar, para escalar o gigantesco e imbecil muro de gelo que construiu ao seu redor. E saltar dele, para a vida ou para a morte. Porque pior do que viver e morrer é não viver nem morrer. E não viver nem morrer é a essência drástica daquilo que nós, ursos, chamamos de "solidão".

- Hum... mas... Monika... e além de viver e morrer ? Não há uma terceira opção ? Sei lá, algo menos existencialista e mais orgânico.

- Há, Roger: dormir. Boa noite.

- Mas eu já dormi.

- Roger, eu tô com sono... e todos nós vamos dormir.

- E eu vou ficar aqui acordado, sozinho, no escuro e no frio ? E sem internete ?

- Se quiser mais de mim, Roger, é preciso que o desejo te inspire.

O cansado homem das montanhas



Após passar três anos nas montanhas, esgotado física e emocionalmente, Roger olha melodramaticamente para os olhos azuis da sua fiel gata siamesa e decide:

- Vamos voltar para casa, Morgana.

***

Roger Harold Barrel, um poeta londrino perseguido pelos críticos, que o chamam de “o Pelé do dramalhão”, ao se deparar com o fracasso de seu último livro, "Meu coração despedaçado e outras catástrofes", decidiu, sem muito pensar, sair de casa e tornar-se um andarilho solitário na região montanhosa de Strugglestroll Valley, levando consigo suas memórias e sua gata Morgana. E no primeiro dia de andanças escreveu em seu diário:

"Que dizer, minha querida Morgana,
Desta dor desumana que subiu a montanha?
Não... o que eu escrevo não tem importância
Nem mais minha infância tem um coração vivo
Só você, gata Morgana, sabe que o motivo
Do isolamento a mim imposto como um castigo
É o tormento antigo que eu levo comigo:
O amor que sinto por Karina Polyanna..."


Karina Polyanna é a vizinha de Roger. Atriz, temperamental e frágil. Ele sempre a amou com sinceridade e persistência. Uma afinidade carinhosa os unia. Mas Karina era melancólica e instável. Ora o amava, ora desinteressava-se. Tiveram enfim um breve namoro quando visitaram Southampton e ficaram no apartamento de um amigo de Karina, o bonitão ator Terry McGuire, por quem, enfim, Karina se apaixonou de verdade.

Karina e Terry casaram-se e foram morar no apartamento de Karina, em frente ao apartamento de Roger. Mesmo não sendo convidado para o casamento, Roger aceitou a sugestão de Karina de que fossem bons amigos e bons vizinhos, Mas na verdade ele tornou-se distante, apático e desanimado. Rancoroso, na opinião de Karina. Mas ela continuava simpática com ele. Às vezes, de suas janelas, trocavam olhares tristes.

Terry foi filmar no exterior e ficou fora durante semanas. Karina sentia-se carente, confusa e fumava muito. Voltou a ter uma convivência com Roger, mas sempre cuidando para que tal aproximação não ultrapassasse os limites de uma amizade saudável. E quando pela última vez Roger falou com Karina, ambos estavam tristes e perdidos:

- Eu te amo, Karina. Você sabe disso. E não te peço nada... mas... mas eu te amo.

- Roger... nós não podemos viver como bons amigos? Sei lá. Ver filmes, conversar sobre livros, teatro. Sair um pouco, ir dançar. Ah, você não gosta de dançar, né? Aliás, você não gosta de nada! Que chatinho você é, eh eh eh...

- Eu gosto de você...

- Roger... quando você fala assim eu me sinto pressionada...

- Tá bom Karina. Eu não vou mais falar com você sobre os meus sentimentos.

- Eu não falei isso para você ficar se fazendo de vítima. Que saco esse seu narcisismo! Só quero que a gente se divirta um pouco, poxa. Estou tão confusa na minha vida e você só pensa em você! Eu gosto das nossas conversas. O Terry às vezes é tão distante e tão... tão "normal". E... e você é tão querido e íntimo. Quando me sinto sozinha penso muito em você, sabe? Eu quero voltar a rir das coisas que você fala. Eu gosto do seu humor inteligente e neurótico.

- Sei... quer que eu seja o seu "personal Woody Allen"...

- Ah ah ah... ah, Roger, você não chega aos pés do Woody Allen, mas eu gosto de você mesmo assim. E pare de ficar se depreciando, ok?

- Eu não acredito que você ame o Terry. Ele é um... um idiota, Karina! Poxa, não percebe? E o cara usa tiara no cabelo! É ridículo!

- Roger... eu não quero e não posso falar sobre isso... e o Terry... ele não é nenhum idiota, ok? Ele é um ator extraordinário. Será um sucesso... e... e não sei se terei espaço na vida dele, sinceramente... mas... eu não quero falar sobre o Terry... você tem mania de ficar se comparando a ele... e, sinceramente, não há comparação possível entre vocês...

- O que quer dizer com isso? Que ele é melhor do que eu só porque é mais alto, mais forte, tem mais dinheiro e é melhor artista?

- Roger...

- Ah sei, ah sei... e é um grande amante, não é?

- Roger... vamos mudar de assunto?

- Ah, tudo bem... eu... eu só vim aqui pra lhe dizer que... que eu vou para as montanhas... eu e a gata Morgana... adeus, Karina...

- Ah ah ah... que história é essa, Roger? Para as montanhas?


***

E agora, depois de anos de andanças, o solitário das montanhas regressa ao seu apartamento e vê que tudo está exatamente como no dia em que saiu. Nem poeira há. A calma silenciosa do ambiente determina que só ele e Morgana vivem. "O resto é cenário", pensa Roger. Sente um medo no peito e olha para a janela do apartamento de Karina. Está fechada e inerte.

Karina e Terry não moram mais ali. Separaram-se e voltaram um para o outro exatamente vinte vezes. A vigésima volta foi comemorada num jantar em grande estilo, cheio de convidados famosos e bem sucedidos em suas carreiras.

E Karina não lembrou de convidar Roger.


(o desenho é da minha amiga Vê)

O café que o tempo não esfria



Donaldson Faithless Pickhunter, um funcionário público de Bristol, Avon, Inglaterra, julgava morar sozinho há oito anos, quando divorciou-se de Glaucia Megerah Greensburroughs. Mas, num surto de lucidez, horrorizado, descobre que a ex-esposa está em sua casa e que jamais saiu dela desde a separação.

Os dois discutem, se ofendem, brigam. Até que Donaldson, com uma capacidade de iniciativa invulgar para um niilista crônico, consegue convencê-la a ir embora para sempre de sua casa e de sua vida.

Donaldson, interiormente, chora por se sentir um idota desprezado. E conclui pra si mesmo que a vida não passa de um vale de lágrimas. Ele está sozinho na cozinha olhando para o relógio de parede. O tempo, pensa ele, é a única coisa que não podemos controlar.

Pela porta, ainda escancarada pela saída de Glaucia, entra, silenciosamente, Amanda Porsche, a veterinária de Vanessa, a gata siamesa de Donaldson. Ele ama Amanda. Mas Amanda sempre lhe disse que assim como ela esperaria por ele, ele devia esperar por ela, para que o tempo, no momento certo, os unisse. Donald respeitava isso por achar uma idéia muito bonitinha. Mas ficava puto da cara.

Com o olhar ao mesmo tempo compreensivo e severo, Amanda cumprimentou timidamente o consternado Donaldson. Numa seqüencia muda de atos mecânicos e tristes, ele prepara um café para ela. Os dois sentam à mesa. Donaldson não quer olhar para Amanda pois tem vergonha de demonstrar os olhos úmidos e o semblante sofrido. No fundo, ele se sente um otário. E ficam ali os dois, sem nada dizer, ouvindo apenas o tic-tac do relógio da cozinha.

Amanda Porsche quebra o silêncio e lhe diz com franqueza:

"como tu é demorado, Roger... levou oito anos pra tirar a tua esposa de casa... e três anos pra arrumar a luz do banheiro... como conseguia viver assim ? um abajur pendurado no teto, com o fio ligado na tomada... era bonito e exótico até... mas por demais preguiçoso, não acha ? eu sei... eu sei que arrumar a fiação interna é um saco... mas enfim, você mesmo disse que o que molda o nosso destino não são os nossos atos: é a nossa preguiça... eu até usei esta frase no meu nick do msn."

"tu, Amanda ? dizendo que eu sou demorado ? tu tá há dois anos tomando café comigo... e esse café deve estar frio."

"não, Roger... ele ainda está quente, eu te prometo."

O Escudo de Clibes



Edwin Coldcharm Clibes, um camponês culto e irônico do País de Gales, depois de experiências afetivamente traumáticas, passa a usar trajes de mergulhador. Sua terapeuta, a Sra. Margareth Portburn Wake, com a rispidez de costume, chama sua atenção:

- Tira isso, Roger ! Que ridículo ! Seu medo é brega, ok ? O fato de ter levado coice de três vacas em sua vida não significa que todas as mulheres farão o mesmo.

- Sinceramente, Sra. Wake, está propondo uma solução assaz previsível para essa trama, eu diria. Meu problema deve ser muito mais grave do que "apenas medo". Afinal, apesar de ser um camponês teoricamente ingênuo e vilipendiado pelas vacas, eu sou profundo, artístico e...

- Ai, que saco ! Esse tipo de discurso me faz ter vontade de largar a minha profissão, sabia ? E eu nem tchum, Roger... quer ficar assim, fica ! Ninguém vai se importar. Se quer ser o ator principal do, como você disse, mesmo ? Ah, sim, do "pântano romântico" que se tornou sua vida, faça bom espetáculo ! Tem platéia pra tudo nesse mundo. Até pra papel ridículo. E acabou nossa sessão de hoje. Agora vou atender uma paciente intelectualmente inquieta e sexualmente vulnerável. Essa, sim, vale a pena !

- Hum... aquela que eu vi na sala de espera ? Uau... baita gata... apresenta ela pra mim ?

- Nem pensar, Roger ! Acha que vou apresentar para uma das minhas pacientes preferidas uma cara fantasiado de homem do fundo do mar ?

- Ok, por ela eu tiro essa roupa pesada e triste. Reabilito minha confiança e alegria de viver. Que tal ? E até fico nu. E danço charleston !

- Ahahaha, com tudo balançando ? Acho que ela vai sair correndo !

- Viu ? Quando me encorajo à exposição você não me estimula.

- Até quinta que vem, Roger.

Meses depois, a Sra. Margareth, após intensas negociações, apresenta Magdey Burning Tottenbridge, sua outra paciente, a Edwin. E para surpresa de todos, os dois, apesar de carregarem um duro passado de frustrações, apaixonam-se.

Decidem, com medo, mas com convicção, dividir suas vidas e destinos num pequeno apartamento no centro de Cardiff. E a rica simplicidade do cotidiano deste amor tem o semblante e o ânimo da coragem.

Quando completam um ano de namoro, Edwin surpreende Magdey e, finalmente, tira sua roupa de escafandrista:

- Mas... mas Roger... eu... eu não quero que faça isso por mim, mas por você. Eu... eu quero que se sinta bem. Se quer usar sua roupinha de mergulhador, eu deixo, você sabe que eu aceitei isso desde o início.

- Eu faço por você, sim, Magdey. Porque descobri que todo sacrifício que eu fizer por você será bom pra mim. Não quero mais essa roupa. Minha pele merece sentir o seu carinho. Meu coração merece ser escutado. E eu quero que você veja eu dançar charleston.

Um dia, diante do espelho do banheiro, eles olham o reflexo nítido do casal:

- Olha, Roger... nós ! Nus !

- Oi Magdey, eu sou o Roger, muito prazer !

- Ahahah ! Oi Roger, sou a Magdey, muito prazer !

- Eu amo você, Magdey...

Os dois vão para a sala de estar do apartamento.
Edwin dança charleston, nu.
Livre, como nunca.
E Magdey ri, como nunca.
Feliz.

E não sai correndo.

A desistência desperta.

Então pude perceber, num átimo matutino de lucidez, que não existe nenhuma razão para que a existência tenha que fazer, necessariamente, algum sentido. Todos os equívocos da minha vida não fazem parte de um roteiro que venha a me redimir no fim, ou que dê à minha história alguma transcendência de si. Foram desastres inúteis porque de fato, a cada queda, desaprendi-me mais ainda. E por mais distintos que pareçam meus desencantos permanentes, existe em todos um drástico fator em comum: eu.

E quando tudo terminar nem adeus se dará a tudo. Nem do escuro saberemos. Nem mesmo o vazio sentiremos.

Porque adeus já se diz à vida o tempo inteiro.
E no escuro sempre estivemos.

E o vazio jamais foi preenchido.

Biografia musical



Nascido no dia 21 do mês de maio de 1965, em Porto Alegre, Roger Jones teve uma infância influenciada pela música graças aos seus irmãos mais velhos e amigos deles que freqüentavam sua casa. Eram meados dos anos 70 e nesse período conheceu o rock progressivo, em especial Yes, Genesis e Pink Floyd, além dos Beatles. Por influência do irmão mais velho, violinista de uma banda de rock, conheceu também o jazz e a música clássica.

No entanto, suas primeiras inquietações artísticas foram literárias, e durante sua adolescência escreveu contos e pequenas peças de teatro de fantoches, onde estavam sempre presentes elementos “non sense”, ironia e uma visão pessimista da vida, traços que acompanhariam toda sua produção futura.

Ainda adolescente começa a compor músicas no teclado de seu pai. Sua produção é vasta, mas anônima. Dezenas de fitas cassete gravadas mas jamais publicadas. O tom soturno e triste das músicas irritava seus pais. Desencorajado, ele não mostrava pra ninguém suas músicas.

Na escola conhece dois garotos que são fãs de Pink Floyd e decidem formar um grupo de rock, era o ano de 1983. Essa foi a primeira atitude prática de sua vida musical.

O grupo foi batizado de “Heavy Tox” (Roger escolheu o nome) e contava com Roger Jones nos vocais, flauta e baixo, Alexandre Vieira na guitarra (e autor das letras) e Marcelo Duarte na bateria. O grau de rebeldia desses garotos era tal que mesmo a influência que tinham do rock progressivo não foi suficiente para amainar a explosão de raiva e desespero das músicas.

Em 1984 o Heavy Tox lança o disco “Teto”, pela pequena gravadora Sherwinn Williams, contendo três músicas que para muitos soavam muito mais como “punk rock” ou algo que mais tarde seria rotulado de “grindcore”. Gritos, barulhos, volume no máximo.

O disco não teve sucesso comercial mas chamou a atenção da crítica pela autenticiadade e arrojo da banda. No entanto as relações entre os integrantes do Heavy Tox eram tensas e haviam muitas brigas de egos nos ensaios.

O grupo passou por uma reforma. Entraram o baixista Leandro Vieira, irmão do guitarrista Alexandre, e o baterista Christian. Marcelo Duarte foi demitido. E Roger Jones passou a ser tecladista, além de vocalista. Assinam com a gravadora Martin Sons.

O segundo disco do Heavy Tox foi lançado somente em 1987, entitulado “Fase Pop”. As composições são mais trabalhadas e encorpadas e as letras são todas de Roger Jones. Apesar de soar “pop”, a temática é melancólica.

O disco atinge razoável sucesso, apesar dos fãs do primeiro e doentio disco ficarem decepcionados. O Heavy Tox inicial, hard rock, metal, gritado, raivoso e formado por cabeludos mal vestidos, deu lugar a um grupo mais clean, com músicas curtas, refrões e cabelos curtos. Roger, mais tarde, declarou que essa aparente “adesão ao sistema” era uma brincadeira.

Nesta época Roger Jones gostava do pós-punk de Londres e ouvia muito The Cure, Joy Division, New Order, Siouxsie & The Banshees, Echo & The Bunnymen, The Smiths e os demais grupos da época.

Cada vez mais autônomo em suas composições e querendo se desligar do rock dos anos 70, Roger Jones desentendeu-se com os integrantes do Heavy Tox, que tinham a intenção de investir mais no estilo progressivo e até de fazer shows com músicas do Pink Floyd.

Roger Jones então sai do Heavy Tox para espanto de todos. O Heavy Tox continuou por um tempo, utilizando outros vocalistas, mas sem jamais fazer novas músicas. E realizou o desejo de fazer shows cover de Pink Floyd. Roger Jones sequer compareceu.

Decidido em iniciar carreira solo, Roger Jones fecha-se no estúdio e em 1988 lança seu primeiro trabalho solo, o soturno “Dark”, composto de 13 músicas que vibravam na onda da “cold wave”. Sintetizadores, bateria eletrônica e vocais graves. E a mensagem de desesperança, morte e demais sentimentos fúnebres. O trabalho alcançou algum sucesso e muitos elogios. Mas os amigos de Roger começaram a ficar preocupados com seu estado psíquico. Roger Jones, no entanto, declarava em entrevistas que “morria de rir” de suas músicas melancólicas. E pedia mais uma vez para que não levassem aquilo muito a sério.

Para acalmar a todos e não ser rotulado de “o deprimido”, lança no mesmo ano um irreverente disco chamado “Argentina”. É uma ópera de 25 peças, cheias de efeitos de gravação, gritos, barulhos, sons de tv, rádio e a condução de teclados, bateria eletrônica e vocal falado em tom pastoral. A história anuncia que Jesus Cristo voltará para a Terra. E que desta vez será na Argentina. E que todos os Argentinos morrerão. E que “desta vez Jesus não falhará”. Ainda deixa claro que a Argentina é o reino de Satanás e que Maradona “é o próprio diabo em pessoa”. No fim da trama a Argentina é devastada. Roger Jones sempre disse que esta é uma obra humorística. Mas a gravadora Martin Sons se recusou a lançar o disco por temer represálias.

Em 1989, Roger Jones lança mais dois discos. Ambos com composições de teclados. O disco “Slug Songs” é completamente esquizofrênico, fragmentado e ininteligível. Uma obra de uma hora de duração sem intervalo entre as músicas e sem mesmo se saber onde termina uma e começa a outra. Já “Powerfullpop” é mais palatável e contém músicas mais “rock”. Além disso tem alguns covers de The Cure, Bauhaus, The Fall, etc. A obra foi a mais bem aceita de Roger Jones. E a que ele menos gostou.

Em 1990 Roger Jones casa-se. Mais tarde, depois de seu divórcio, que ocorreu no ano 2000, ele afirmou que casar foi a pior coisa que aconteceu em sua carreira. Durante os anos 90 ele abandonou seus projetos. Enquanto isso o Heavy Tox continuava.

Em 1999, Roger Jones compôs uma música para a sua antiga banda. Chegou a ensaiar com eles mas sem efetivar sua volta. A música se chama “1999” e é considarada a obra máxima do Heavy Tox. Foi lançada em compacto. Não houve entendimento entre Roger e banda para gravar um cd. A cisão entre ele e o Heavy Tox era definitiva: “sim, seremos sempre amigos, mas não podemos mais trabalhar juntos para não corrermos o risco de alguém ser assassinado durante os ensaios”, comentou.

Em 2001, com muito entusiasmo, em parceria com a atriz Prisilla C., e utilizando o pseudônimo “Padre Rogério”, uma espécie de religioso devasso, criou a banda Twine. Gravaram dois cds, “Pristine Privacy” e “Caress In The Car, Carnage In The Sky”. Estes trabalhos jamais foram publicados. Nenhuma gravadora aceitaria divulgar o conteúdo dessas músicas. Mas uma apresentação foi marcada para a boate Coliseu, um inferninho decadente. Mas o local pegou fogo, misteriosamente, um dia antes da apresentação. O projeto não teve andamento e Roger Jones ficou muito frustrado.

Depois disso, em 2002, Roger Jones ainda lançou um cd com músicas em estilo árabe chamado “Ahabib Mahab Yarop”. Mas ninguém deu bola. Também lançou um cd com músicas para crianças chamado “Os Problemas do Ursinho Fofucho”. Excelente obra mas pouco divulgada. São 16 músicas singelas e delicadas. No final do projeto retiraram-se as letras ficando só a parte instrumental. A gravadora considerou as letras “perigosas” demais para o público infantil. Na faixa “Eu me considero um tronco torto” a letra diz que o Ursinho Fofucho “sempre se sentia como se não tivesse patas”… e que sonhava constantemente que “foi seu pai que arrancou suas patas”.

Na verdade, Roger Jones estava voltando à literatura nesta época e não dedicou muita atanção aos seus discos. Enquanto isso grava 18 músicas para a ópera “Júpiter Sol”, sobre a tranformação do planeta Júpiter que, após cataclismas nucleares, torna-se o segundo sol do nosso sistema planetário. Essa obra ainda está “na gaveta”. Sua intenção sempre foi a de juntá-la ao seu projeto literário, o “Astronauta Roger” e lançá-la em forma de musical. Mas não conseguiu parceiros nem investimento para tocar o projeto.

Em 2004, Roger Jones lança o livro “Astronauta Roger - Diário de Bordo” que tem forte repercussão. Tudo indicava que era o encerramento de sua carreira musical e sua aposta individual e definitiva na literatura.

Mas passados dois anos do lançamento do livro, apesar dos elogios do público e crítica, Roger Jones já não suportava mais carregar seu personagem “Astronauta”. Nesta época redescobre o grunge e seus problemas mentais se agravam. Nesta época estabelece uma relação neurótica e fanática com o grupo Nirvana e amigos sugerem que ele seja internado.

Apesar da preocupação de amigos e parentes, afirma “estar bem”. Mas na verdade está cada vez mais isolado em casa e ríspido com as pessoas. Escreve mais um livro de contos mas decide não publicá-lo. Estava farto da exposição pública que o primeiro livro lhe impôs.

Com sua amiga Natália L., forma o grupo “Simple Nat” e lança o excelente cd “Shadow Of The Spring”, onde se destaca o sucesso “Knee You” (o refrão ficou famoso: “eu sei que você não se importa com as minhas articulações, baby… mas não pense que não percebi, durante aquela tempestade, em Leipzig, que você olhava com ternura para os meus joelhos”). As canções, com teclado, guitarra e bateria são simples, secas e de humor hostil. Roger gosta muito do projeto e planeja gravar muitos cds da banda. Há anos ele não se sentia tão empolgado com sua criatividade. Mas Natalia L. desaparece misteriosamente sem deixar vestígios. E o grupo termina.

Em 2007 Roger Jones abandona definitivamente o teclado e grava um cd com músicas num violão muito mal tocado. Além de covers do Nirvana e de Syd Barrett, tem algumas composições próprias. Destaca-se a bela e triste canção pop “Far From Me And You”. Também foi bem comentada sua versão da música “She Took a Long Cold Look”, de Syd Barrett. Mas a gravação é tão precária e preguiçosa que foi inviável seu lançamento. Nem mesmo Roger se interessou em insistir na publicação. Suas músicas passaram a ser distribuidas para seus amigos próximos pela internet.

Enquanto isso, o Heavy Tox divulgou gravações antigas e lançou “Live In Redenção Park”, “Heavy Tox - The Early Years”, “Dinheiro” e tambám uma curiosa compilação em que não há músicas mas somente discussões e brigas entre os integrantes da banda durante os ensaios, o “Acabou o Heavy Tox”. As obras só foram compradas por aficcionados da banda. O Heavy Tox estava enterrado no passado.

Roger Jones declarou recentemente que apesar de seu desinteresse atual pela música e pela literatura, ainda pretende lançar um novo livro e um novo cd. Porém de forma totalmente independente e não comercial. Afirmou também que a arte não deu sentido à sua vida, como ele esperava. Mas ainda assim, foi a única coisa que “valeu a pena fazer”.

Minhas memórias são uma ornitorrinca



Minhas lembranças do passado têm forma plurifuncional indefinida e função morfológica deformada. São apenas sentimentos sem geografia, envolvendo o espaço, o tempo, as emoções e as esperanças esquecidas.

Minhas memórias são... uma ornitorrinca. O nome dela é "Celena Domenique Finnersmith". É casada com um engenheiro de minas que, na verdade, está tendo um caso com uma vendedora de materiais para frigoríficos. A ornitorrinca tem com ele dois filhos. Um é punk, porém inteligente, e acha que "o mundo ficou assim: os pessimistas o largaram de mão e vivem no mais sereno, cínico e desculpado egoísmo... e os otimistas cheiram cocaína". O outro filho faz sociologia na PUC e está tendo problemas com a namorada porque ela não quer transar antes dele arrumar um emprego. Na verdade ele gosta de pensar e é até bom nisso. Mas agir é para ele um tédio sem fim, o que lhe deixa com poucas perspectivas de alegria, apesar de amar a namorada não só por ela ser gostosinha.

Celena ainda tem chance de ser feliz, creio, se jogar tudo pro alto, se divorciar de verdade, malhar bastante, e começar a sair com gente mais jovem. Ela é uma bela senhora. Elegante, cativante e de olhar instigante e melancólico. Não tem noção nem de 10% do seu potêncial, embora todos ao seu redor tentem convencê-la do contrário. Está com mais de 40 anos. É jovem, em essência. Mas o acúmulo de frustrações tornou-a abatida, cansada, e carente. Ainda assim, sensual e cheia de esperança e vida, embora negue isso até a morte.

Ela apenas precisa de um amor bonito para dar colo e sentido à sua existência. Mas finge não acreditar nisso. Ela insiste num niilismo fashion porque no fundo deseja ser aceita pelos outros, uma tolice.

Sim, é chata consigo a minha memória... digo, a ornitorrinca Celena Domenique Finnersmith.

Ela é inesquecível.

A morte não dança charleston

A morte quis dançar comigo. Mas, elegante, ela queria dançar uma valsa. A valsa da morte. No entanto eu, nu, infeliz e bêbado, queria dançar charleston, com tudo balançando. Ridículo eu. Ridícula a morte.

O que a morte tem de mim é o que eu tenho dela: a invejosa ânsia pela vida, ou por qualquer coisa que justifique o sangue que dá alma ao corpo ou espírito às idéias.

Mas somos diferentes eu e ela, a morte. Eu sou mais frágil, ela é mais performática. Nesse descompasso não quis dançar com a morte. Na verdade eu quis matá-la.

E ainda quero, mas não consigo. Porque a morte consola minhas noites escuras e cheias de medo. Só ela, mais ninguém. Ela quer me matar e me mantém vivo. Como uma esposa rancorosa e apaixonada.

Eu preferia ser amado.
Pela vida.

Mas a vida não é boba:
Só ama quem ama ela.

E nem adianta eu dançar charleston nu, infeliz e bêbado.

Cuidar e compreender, Earth Planet



"Vanessa ? quem é aquele senhor que tá lá no quartinho dos fundos, hein ?"

"ah, mãe, é o Roger, um amigo... ele é um gênio e é desajustado... eu ajudo ele, saca ? ele tá morando aqui, é uma boa companhia... e me inspira... depois da senhora ele foi a pessoa mais importante da minha vida."

"hum... mas ele podia diminuir o volume daquele som né ? não fica bem um velho ouvindo essas músicas com gritos... morri de medo."

"ele gosta de Nirvana, mãe, deixa..."

"ele gosta de você, minha filha ?"

"o Roger me adora, mãe... de uma forma que só ele é capaz."

"então eu gosto dele, ok ? mas eu fiquei assustada... ele se veste como adolescente rebelde... aquele jeans rasgado, aquela camisa de flanela, aquele boné com a aba pra trás, e de cabelos e barba branca... ahahahah, ficou curioso o conjunto... estou mais surpresa com você do que com ele."

Alô ?



Earth Planet ?

Abracem-se



Aqui onde estou tudo é amor, tudo é aceitação.
Tudo é confraternização, alegria e bondade.
Tudo é perfeito, sincrônico e suave.
Tudo faz sentido e tudo tem destino.
E tudo deu certo. Pra sempre.
Abracem-se.

O macaquinho Pikabu



- sabe, macaca Maria Panqueca, hoje eu posso dizer que sinto meu coração como um parque de diversões que foi fechado porque ninguém mais o visita.

- isso é uma imagem bonita e triste, Pikabu... mas gostaria de saber por que está falando isso pra mim... na verdade acho que é muito mais um sentimento literário do que real, você gosta de fazer isso... eu sei muito bem dos assédios das macacas... elas te adoram.

- porque eu quero... eu quero, mesmo, é me aproximar mais de você, Maria Panqueca... ou melhor... eu quero que você se aproxime de mim... sem achar que no meu parque de diversões tenha apenas um trem fantasma.

- ahahahahah, eu gostava do trem fantasma... era tão tosco !

- lembra do dia em que nos conhecemos ? foi durante aquele êxodo no interior da Tanzânia... era um momento de muito sofrimento e superação... você estava ajudando todos, sempre solícita, sempre eficiente... na verdade eu acho essas suas virtudes bondosas muito chatas, mas percebi que foi a única que riu das piadas do meu primo, o macaco Pimbey... e só eu ria das piadas dele... o humor dele era autista, de muito difícil acesso... não sei se você riu por compaixão... ele foi um dos primeiros a morrer de fome.

- pobrezinho do Pimbey... ah, Pikabu, você sabe muito bem que os macacos humoristas sempre acabam morrendo de fome.

- de qualquer forma eu achei sensacional quando você riu daquela piada que ele contou, a do guaxinim que tinha mononucleose... eu fiquei observando você, sua reação... acho que me apaixonei... achei você tão sofisticada ! ok, linda todos os macacos no nosso clã te acham... mas eu vi você além da sua beleza... eu vi seu charme intelectual.

- Pikabu... sempre sensível... chatinho mas sensível... e gentil... e agora me deixando encabulada.

- lembra daquele dia, Maria Panqueca ? chovia e fazia sol ao mesmo tempo... tão bonito, raro, irreal... estupefaciente.

- hum rum.

- as gotas de chuva tinham um brilho que a vida jamais teve...

- Pikabu, eu fico feliz com a sua admiração por mim, embora ela seja muito mais coisa da sua cabeça, afinal, eu já disse, você tem alma de poeta.

- sem essa, Maria Panqueca ! eu não sou poeta, ok ? eu odeio poesia, entendido ? e odeio qualquer coisa que lembre poesia, está claro ?

- pode negar à vontade, mas não adianta... na verdade você é ingrato com o seu veio poético... fora ele, que agrada sobretudo às macaquinhas, você não tem servido pra nada... não é um bom caçador, é muito frágil pra ser um bom reprodutor, tá quase sempre deprimido e, francamente, nos espanta você não ter morrido na última seca... parace que algo, que ninguém sabe o que é, o mantém vivo... deve ser algo poderoso... uma birra existencial... ou quem sabe seja essa poesia que há no seu ponto de vista das coisas... você é instigante, Pikabu.

- bobagem.

- como assim, bobagem ? a sua inteligência sutil e os seus versos involuntários acabam sendo importantes pra nós, sabia ? tem utilidade orgânica, saca ? é elemento de nossa sobrevivência, amplia nossos horizontes... e agora você nega o seu papel... ok, não quer ser "o poeta"... então quer ser o quê, Pikabu ?

- eu queria ser o seu namorado.

- Pikabu... sabe muito bem que eu sou esposa do macaco Drakor... e sabe mais ainda que ele é o macho alfa.

- o que seria mais difícil, Maria Panqueca ? um macaquinho tísico e desajeitado como eu enfrentar o macaco Drakor ou o meu coração enfrentar uma vida sem você ?

- Pikabu, acho que você está viajando, ok ? fica com esse sentimentalismo exagerado aí... é falta do que fazer ! você sempre tem esses arroubos românticos no período de caça só porque os macacos fortes vão caçar e você não é convidado... daí passa o dia pensando besteiras.

- então me diz, Maria Panqueca, por que uma macaca tão inteligente, bondosa, bem humorada e linda como você fica com um macaco imbecil como o Drakor ?

- quer fazer o favor de falar mais baixo ?

- esse cara é o líder do bando ! o nosso guia ! o macaco que toma as decisões por nós ! e depois vocês se queixam de eu ser um símio depressivo.

- ah, Pikabu, claro que eu não escolhi e jamais escolheria o Drakor... ele que me conquistou... é assim que os macacos encantam as macacas, entende ? conquistando... Drakor é bom nisso, é o melhor nisso... aquele olhar destemido, agressivo... e ele beija bem... e sexualmente ele é um... um gorila ! no início me senti insultada com a arrogância e a truculência dele... mas com o tempo, admito, me senti seduzida e até gostei... é legal ter um macaco forte e corajoso cuidando de mim... um macaco de iniciativa, um dominador, respeitado e temido por todos, uau.

- você é prisioneira dele, Maria Panqueca !

- pára com esse papo feminista, Pikabu... olha, nenhum macaco é completo, ok ? as macacas vivem se queixando disso... mas não eu, eu não sou queixosa... sei que o Drakor não é o macaco mais inteligente da África, mas também sei valorizar as qualidades dele.

- está racionalizando a sua submissão... deve ser o seu complexo de Elektra... o Drakor é a sublimação da sua paixão pelo seu pai.

- Pikabu, acho totalmente anacrônico e inconveniente aplicar as idéias de Freud nos macacos... aquele austríaco é um típico antropocêntrico, nunca pegou num cipó ! ele não sabe nada de nós, ok ? macacos são forjados na dura luta diária da floresta selvagem, e não num divã almofadado... você conhece muito bem, como nenhum macho deste clã, como é a natureza das macacas... tudo bem um macaco ser bonito, inteligente, honesto e até rico... mas nós, macacas, preferimos os guerreiros.

- sei... o biodeterminismo sempre vence... e depois vocês se queixam de eu ser um macaco niilista.

- acho que você devia ser menos darwinista consigo mesmo e com o mundo e se divertir mais... e dar mais chance às macaquinhas que vivem ao seu redor... sempre expulsa elas... e depois se diz vítima da solidão... você é um sedutor, Pikabu... no fundo, acho que você é um canalha, mas sem querer.

- eu devia trabalhar no circo, com humanos... provavelmente eles não são assim, como nós.

O espaço é um lugar confortável e insuportável



Messias Machine,
computador de bordo e coração pleno da nave branca Interestellar Overdrive.
Deixa-me tomar teus olhos precisos
para ver o mundo em que preciso me enquadrar.
O Menino Deus vai voltar em forma de homem mortal,
para cumprir a equação de sua raça.
Quero compreender a matemática da sua visão de máquina
para calcular a raiz dos meus passos
a potência do meu destino
e a multiplicidade dos meus humores.

Eu poderia dividir isso com alguém ?

Adeus



Sem que eu nada entendesse, como sempre, disse-me a minha existência inteira, num relâmpago mínimo e feminil, em meio à minha desesperança contínua, devastadora e desnecessária:

"Chama-me
Pelo meu nome escrito no teu coração
Chama-me
Com as chamas do teu tardio calor
E dilacera a minha pele em dor
Para que as cicatrizes me comuniquem
Para sempre
O ardor da saudade
Diz-me adeus, sem piedade
Pois preferi minha carreira à chuva
E agora, arrependida, preferi o bronze do desespero
À prata dos teus cabelos
E ao ouro do nosso amor..."

Feliz Ano Novo, Mme. Mansbridge



A Sra. Flaminea Flemming Mansbridge é uma viúva amarga, infeliz, antipática, arrogante, solitária e campeã britânica de futebol de mesa.

Está numa festa de ano novo no divertido clube da terceira idade Pawning Old Barney, em Londres, acomapanhada do seu gato mal humorado, o Muckferry.

Ela não conversa com ninguém na comemoração, tampouco faz questão de cumprimentar, sorrir ou ser simpática com ninguém, o que irrita profundamente as pessoas ao redor. E evidencia-se um crescente mal estar com a presença de Flamínea naquela festa.

Depois da euforia da meia-noite, a senhora Timberley Wishquerry Bluth, que já tivera 18 namorados desde que ficou viúva, aos 82 anos de idade, sendo abandonada por todos eles, diz para Flamímea, com olhar de agressivo desprezo:

"O que posso lhe dizer, se a senhora me permite, é que a pior solidão não é a solidão de não ser amada. A pior solidão, é a solidão de quem não ama ! A senhora não tem amigos, não tem marido, naão tem nada. Sabe por quê ? Por que não merece ! Feliz ano novo, Madame Mansbridge."

Flaminea beberica seu uísque, olha para sua crítica e solta uma sonora gargalhada cheia de estridência e catarro na garganta. Silencia, ainda olhando para sua opositora. Então sopra sua cornetinha, deliciando-se com o barulho ridículo dela e com a expressão ofendida da Sra. Timberley. E dá outra gargalhada:

"grrrrragragragragragra !!! grrrrragragragragragra !!!"

Todos se afastam. Mas ela nem se importa mais. Foi odiada por todos a vida inteira. Não por ser má. Mas... mas por não dar importância a ninguém. O que se perguntava é porque ela ainda ía a festas, mesmo sabendo que ninguém sentia a sua falta. E ela mesma parecia desprezar a todos.

Por que, então ?
Por que feliz ano novo ?

Feliz ano novo



A vida é um acúmulo de humilhações soterradas, sobre as quais fundamos o triste alicerce de nossas ilusões efêmeras e inúteis para construir o edifício do nosso orgulho ferido. Obrigado.

A vida é um emaranhado insolúvel de desejos interrompidos, esperanças pré-concebidas e impossibilidades não admitidas

Não cultive ciúmes, baby, pela quantidade de mulheres que me cercam.
Elas apenas cercam a cerca que me cerca.
Quem cerca a mim é esta cerca intransponível.
Sinta ciúmes dela !
A ela entreguei o meu destino, meu coração, minha felicidade.
E também Pepsi.

O espírito de natal



Andrew Mortimer Papaffuz Limonge é um solitário e anônimo homem da cidade grande, empregado de uma fábrica de brinquedos, que, após um ano de desencantos e azares, passa a noite de natal sozinho caminhando na rua, desejando encontrar o Papai Noel.

E o encontra.

Mas o velho está melancólico e com o pensamento distante. Os dois se olham por um instante. Andrew espera por uma mensagem, por uma esperança, por um milagre. Papai Noel permanece inexpressivo. E se afasta, com seu andar arrastado, sem nada dizer.

Meia-noite. É natal...

Cansado e decepcionado, Andrew senta num banco de praça enquanto ouve as famílias, de dentro de suas casas, festejarem. Então, ao seu lado, surge um espírito triste e invisível: o espírito de natal.

Ele diz a Andrew:

"Louco, Papai Noel ficou louco.
Ele sobe pelas paredes em busca de crianças contentes.
Ele descobre que as famílias estão doentes.
Ele sente o que todos sentem.
Os medos antigos, as dores recentes, os sonhos esquecidos.
Ele anda pela rua como um mendigo novinho em folha.
Ele canta as canções de sua escolha.
Mas ninguém acredita nele.
Ele bebe e lambuza sua barba branca...
E descobre que o mundo o desencanta.
Ele viu os olhos das pessoas tristes e desanimadas.
Ele ouviu os lamentos das pessoas abandonadas.
Ele carrega um saco de presentes sem alma.
Ele sabe que o mundo precisa de amor e calma.
Ele tem saudade e insônia.
E quer voltar para a Lapônia."

O artista caído



Sentindo o impressionismo das impossibilidades
Dos matizes infinitos e incapazes
Da nitidez, brilhos, contrastes, intensidades
Dos dias ensolarados que desfaço
E o destempero das noites frias sem abraço
Até cair de cansaço no piso hostil, duro e disforme
Cego, surdo, mudo sobre a tela do mundo
Meu futuro impreciso desistiu... ou dorme...
Sou o artista louco das ruas da cidade
O lunático das madrugadas
A falta que invade
O coração vazio das almas desamparadas
Sou a ânsia de quem viu esta minha crise de infância
Como se eu fosse um menor sem idade
Caído no chão
Sem a compaixão da arte
Meu corpo morre sem mim
Meu espírito morre sem fim
Sem colo
O que sobrevive ?
O solo.

O passado é um jacaré inclemente



- Roger, tu não vai acreditar. Eu voltei mais cedo da faculdade, ontem à noite, porque o professor de bioquímica faltou. E eu vou odiá-lo pra sempre por isso. Cheguei em casa mais cedo que o habitual. E... Roger... tu não vai acreditar, cara.

- O que houve ?

- Roger... eu... eu... Roger... eu flagrei a minha mãe transando com o motoboy que faz a entrega da medicação dela.

- Tá brincando...

- E o cara nem tirou o capacete, Roger !

- Putz...

- E agora, Roger ? o que eu vou fazer da minha vida ?

- A tua mãe é uma mulher separada, adulta, livre. Ela tem direito de transar com quem quiser, de realizar as fantasias que puder, ainda que sejam clichês como esse. Eu sei, a cena deve ter sido forte. Mas qual é o problema ?

- Roger, é a minha mãe. A minha mãe, Roger ! A minha mãezinha. A mulher que me carregou na barriga, que me deu de mamar, que me contou inocentes e educativas histórias de ninar. A minha santa mamãezinha.

- Pelo menos ela recebeu o remédio que queria, né ?

- Roger, não brinca, ok ? Isso foi uma tragédia ! Não é hora para o teu humor. Pensa bem: a minha mãe ainda é relativamente jovem. E eu, mais ainda. A gente vai ter ainda uns, sei lá, uns quarenta anos de convivência. E toda vez que eu olhar pra ela, falar com ela ou apenas pensar nela, vou lembrar desta cena. Pra sempre, Roger. Pra sempre !

- Ok. Entendo o drama. Mas se não é possível esquecer, tenta ao menos lembrar de forma diferente. É uma questão de tomar o controle da situação. O passado é um jacaré inclemente. Então nos resta reagir contra a tirania irrefreável da memória e a supremacia intocável do que já aconteceu. Lembra com o filtro do humor e com a perspectiva mais positiva que tu puder inventar, saca ? Simples.

- Tu consegue fazer isso com as tuas lembranças mais desgraçadas, Roger ?

- Não.

A orelha de Laura



Acho fantástico o surpreendente protagonismo da orelha da Laura. É como se a orelha contivesse, no interior de sua concha inocente e cartilaginosa, a origem, o desenvolvimento e o destino de... de tudo ! De tudo, saca ? A quintessência estética das coisas que existem. A ambição das impossibilidades. O destemor do amor, da dor, da alegria e da angústia. A acústica do espaço e do tempo... da vida, da morte e dos sentimentos.

A orelha da Laura é o universo.

Este é o nosso universo



Tenho uma tese:

Acho que o universo que conhecemos é, na verdade, uma experiência feita por alunos do segundo grau de uma outra dimensão. Experiência que ganhou apenas uma nota 4 da exigente professora, ou "a véia de ciências", como eles a designam:

"vocês erraram, meninos... o universo de vocês vai colapsar, não percebem ? vejam como a vida é obtusa e meramente acidental... sendo que a vida dos seres inteligentes não faz o menor sentido ! eles devem morrer de tédio, coitados... serão todos destruídos e seus esforços de sobrevivência e crescimento não têm a menor relevância ou serventia... vejam a linha de tempo e o sentido lógico do destino: inexiste ! nada leva a nada... este cosmos é um conjunto caótico de enganos inúteis, sem amparo científico ou filosófico que o sustente... a idéia de buracos negros foi até interessante, mas acho que vocês fizeram isso sem querer... e deu uma pitada de humor no trabalho... mesmo assim, minha nota 4 foi até benevolente... sugiro que estudem mais e façam tudo de novo... e cortem esses cabelos, estão parecendo marginais maconheiros."

Na verdade o grupo que fez o trabalho não estava nem aí.
E eles gostavam mesmo é de ouvir Deep Purple.

Convivendo com Clarina Waltfritz



Conheci uma formiga.
Mantenho-a numa caixinha bacana, confortável e auto-suficiente.
E a alimento com dedicação inocente e afeto simples.
Chamo-a de "Clarina Waltfritz".

Ela está aqui em casa faz uns dois meses, já.
Na verdade nos conhecemos numa circunstância trágica.
Eu estava ali na área e, sem tê-la visto, pisei nela.
Quando olhei para o chão vi uma formiga esperneando.
Senti responsabilidade, saca ? E resolvi adotá-la e reabilitá-la.
Em poucas semanas ela já estava sadia e disposta.
E até mais otimista, apesar de ser tão baixinha.

Ela é pequena, agitada, tímida e ingênua.
Mas quando apareço, ela se acalma e fica feliz e um pouco mais centrada.
Então sobe e passeia sobre a minha mão, dando-me confiança.

Apeguei-me à Clarina, confesso.
Nossa relação tem harmonia, esforço e compreensão.
Somos bons amigos e às vezes até vemos tv juntos.
Se bem que eu prefiro House enquanto ela prefere Heroes.

Seu pescoço é a última beleza em minha vida



- Roger, você precisa de um curso em sua vida, sinto você tão abatido, isso me entristece, sabe ? eu acho a sua tristeza charmosa, até, mas ela me cansa um pouquinho, gostaria que você variasse o cardápio de suas emoções expostas... eu curto Joy Division, você sabe, mas não o tempo todo !

- mas, tipo... que curso ?

- ah, pode fazer tantas coisas... você é irreverente, inteligente, criativo, dedicado...

- incrível como você não me conhece ! e ao mesmo tempo, incrível como você vê em mim coisas que eu não quero ver pra não me comprometer comigo mesmo.

- viu que profundo ? Roger, você é absurdamente sensível, apesar de ser homem... e apesar de ter alguns comportamentos imbecis típicos dos homens... tipo esses impulsos de possessão e essa insistência em fazer papel de menino mimado.

- não vejo curso possível... só vejo um túnel escuro me levando à solidão, ao abandono e à doença...

- ahahahahahah.

- é sério.

- faz um curso de fotografia... adoro o seu olhar... o modo como você vê o mundo...

- nah...

- você podia fazer até um curso de DJ ! algo pra curtir mesmo, saca ? pra se divertir com a vida.

- eu devia fazer um curso de sexo.

- isso ! hum... não quero dizer que você esteja precisando fazer um curso de sexo, ok ? mas... seria divertido ! acho que sexualmente você tem muito potencial... pode melhorar uns 95% !

- nah... não há mais sexo em mim... minha libido se transformou no deserto do Kalahari... o único impulso de vida que ainda insiste em expressar-se-me é minha paixão pelo seu pescoço... seu pescoço é a última beleza da minha vida.

- faz algo voltado às artes.... Roger, você é um artista nato, com o perdão do termo... "artista nato" é tão cafona, né ? parecem aqueles termos do seu tempo, ahahahahah... anos 70 e tal...

- nah, não quero nada artístico... arte não enche a barriga...

- nossa, Roger, não seja tão amargo consigo mesmo... tudo bem, não estou apelando para breguices do tipo "dê asas para o seu eu criativo interior !"... eu só te peço um pouco de confiança na sua capacidade de se divertir, entende ?

- eu devia fazer um curso da área administrativa... desses bem técnicos, práticos e voltados para atividades burocráticas... e me preparar pra minha futura carreira na gestão pública... ahahahahahah... que total chatice ! ahahahahahahah...

- não precisa ser assim... na vida não importa o que a gente faz... importa "como" a gente faz... é que nem sexo.

- acabou o romantismo na minha vida... virei um autômato, um sobrevivente da urbe... não tenho mais arte... nem esperança, vendi minha alma.

- ah é ? pra quem ?

- pro sistema... uau ! gostei dessa, vou colocar no meu blog !

- ahahahahah, "sistema", isso é bem expressão do seu tempo.

- pára de tentar me comprometer comigo mesmo, porra !

- não.

- pra que isso ?

- por que eu te amo, Roger.

- "eu te amo" não é do seu tempo... nem do meu... aliás.... "eu te amo" é de que tempo ?

- eu acho que o verdadeiro tempo do "eu te amo", Roger, é o futuro.

Sejam felizes !

- você não pode morrer, Roger...
você precisa continuar entre nós...
você precisa um dia se sentir feliz.

- sejam felizes, então, com essa felicidade standard pré-fabricada por este mundo imbecil ! eu prefiro ser infeliz mas em contato com a minha mais autêntica dor, ainda que ninguém venha a escutar o meu último suspiro de indignação antes de morrer e me libertar de mim e te tudo !

- Roger, deixa de mau humor.
você devida visitar Canela.

- não !!!

- Roger...

- eu pensei que tinha caído num mundo, mas não ! eu caí num buraco sem fundo ! a multidão me deixou mais só, a felicidade me deixou mais triste, o calor me deixou mais frio... e nem o amor, que eu senti no espaço, resistiu à queda !

- mas Roger...

- deixem-me morrer ! já !
SEJAM FELIZES !!! SEJAM FELIZES !!!
FELIZES !!! FELIZES !!!
SEJAM FELIZES !!!

Um travesseiro para o desespero que sentem

Não se sinta só e azarada, baby, em sua tristeza... os demais não são felizes... eles são... hum... eles são "alegres"... é uma alegria idiota e vazia que serve de travesseiro para o desespero que sentem.

Sem coração estou livre de sentir... como um faquir das minhas próprias sensações... minhas pesadas emoções anestesiadas sobre uma cama de pregos.

Mas sem o seu coração, baby, nada terá sentido para mim.
Ainda que o seu coração exija de mim subir o Monte Sinai e descobrir que o décimo primeiro mandamento é:

"e não adianta fazer mimimi..."

Feliz, de verdade, é quem consegue enfrentar o que lhe aparece na frente.

O batuqueiro iniciante

Eu cheguei lá e já colocaram um surdo em mim e eu segui o ritmo dos outros, como a vida, geralmente, exige... tava bom... mas eu voltei triste pra casa, saca ? Por motivo algum. Quem sabe seja este aperto mortal no peito entre o sentido da vida e da morte, entre o meu destino e o meu "desisto". Mas estou sereno, afetivo e simples, não te preocupa... eu não vou te encher o saco.

Eu sou desses que não consegue chorar.
Eu preciso de barulho. De um surto.

Minha raiva tem que sair num surdo.

Dizia minha vó: amor de internete não enche a barriga do coração

O que posso dizer, neste momento de angústia melodramática, mas real pacas, é que meu coração mergulhou no oceano pegajoso e traiçoeiro do ressentimento... e agora eu tenho que dar braçadas para fugir da bóia que antes me salvara... a bóia, que era boa, quer me devorar com seus dentes de plástico e e com sua hostilidade ensolarada, reluzente e insana... e me resta procurar um litoral que me acolha com candura... mas não há nada no horizonte ! Nada !

Nada, Roger...
Nada que este mar nunca acaba.

O amor é um conjunto caótico e indecifrável de dor, desamparo e desgraça

O sistema límbico torna-se o ditador sanguinário da nossa percepção, e num acúmulo de surtos, em escalada inacreditável, o outrora sábio torna-se uma bio-unidade com capacitação rudimentar e brega, sujeitando-se a ser presa fácil da natureza, rastejando e nem tchum !

Acabou a Opereta.
Minha vida não tem mais pulso, doce ou sentido.
Meu destino perdeu qualquer curso que fosse
Do credo órfão tão cedo ao cetismo do entardecer,
do meu medo de existir ao meu anseio por me perder.

Acabou a Opereta.

Eu me perdoei por não me perdoar




"Wallaby Amanda ? desculpa-me por tudo ?"

"tudo o quê, Wallaby Roger ?"

"desculpa-me por eu ser eu... assim... complicado e insuficiente... ainda que amoroso e engraçado..."

"tu devia pedir desculpas a ti mesmo, Wallaby Roger, e não a mim."

"mas eu... eu não consigo me perdoar."

"então eu te desculpo, ok ? mas só quando tu te perdoar."

"ok... quando acontecer eu te telefono, Wallaby Amanda."

"tá."


(dois anos depois)

"alô ? Wallaby Amanda ? eu me perdoei !"

"hum... quero provas."

"olha, Wallaby Amanda... eu tava numas de mimimi por não ter sido quem tu gostaria que eu fosse... ou quem eu gostaria de ser pra ti, saca ? daí com a mão esquerda eu alisei a minha cabeça e disse, olhando pro espelho: fica sussa, cara... nenhum Wallaby é o que gostaria de ser."

"ai que bonitinho, Wallaby Roger !"

The Wasted Sun



O escritor árabe Muhammad Hashlam, por vontade própria, hospedou-se no asilo "Happy End", em Dubai, depois do fracasso do seu livro de poemas "A Esperança é o Ópio dos Ingênuos" e de perder as esperanças de poder viver com a patinadora irlandesa Amanda Porsche, que apesar de amá-lo, não aceitou seu pedido de casamento porque não "não queria machucá-lo... não queria sufocá-lo de amor e carinho".

Quando ela o visitou, Hashlam, insano, fraco e conformado, disse:

- Segundo um provérbio estóico "o verdadeiro sábio é aquele que se arrepende um pouco menos, tem expectativas um pouco menos e ama um pouco mais"... e... e se você voltar aqui, um dia, querida Amanda Porsche... por favor, traga-me Farinha Láctea e discos do Genesis... e peça para a enfermeira Just parar de me bater...

Desajuste Progressivo



Stoian Hristov, dentro de seu apartamento em Tukhchin, no interior da Bulgária, tinha uma existência tranquila e trancada.

Mas tomou conta do cenário de sua vida uma interminável e ensurdecedora obra de reforma integral da calçada de sua rua, impondo o som insistente de britadeiras que faziam tremer as paredes de seu apartamento, com breves intervalos que eram preenchidos por piadas machistas dos operários búlgaros para as moças que passavam na calçada, o que irritava a moral européia de Stoian. Ao passar dos meses sua personalidade foi sofrendo perigosas transformações. O que antes era um rapaz pacífico, simpático e tímido, tornou-se um urbanóide de comportamento violento, esquizóide e sociopata.

Stoian perdeu o controle, rompendo com todas as suas amizades de internete, vindo depois a infernizar a vida se seus vizinhos de prédio, de rua e de bairro, progressivamente.

Sua insanidade comportamental culminou com o terrível atentado contra Georgi Parvanov, o presidente da Bulgária, que só deu errado porque Stoian, na hora de disparar sua arma, escorregou num papel de bala, acertando o tiro no chapéu da primeira dama, deixando-a muito deprimida.

Stoian foi condenado e cumpriu pena no presídio de Sofia, onde passou anos sofrendo de agudas crises de dor lancinante no nervo ciático.

Eu não me reconheceria diante dela



Dalton Lemming Gotfried é coordenador de artes cênicas do Departamento de Águas de Springfield, Illinois. Com a debacle de sua capacidade visual ele é forçado a usar óculos e se sente muito mal com isso. Como conseqüência passa a compor peças de teatro depressivas e com final triste.

Mas é convencido por Laya Divine Montgomery, uma atriz jovem, peituda, inteligente e romântica, a mudar o rumo de suas idéias dramáticas:

"suas peças, pra mim, são como você, Roger... são feias mas eu nem tchum... gosto mesmo assim... mas sabe ? eu gostaria que fizesse pelo menos uma pecinha, uma só, com final feliz... pode ? e... e porque você nunca sorri, hein ? que saco."

Laya convence Dalton a modificar o andamento da peça que estavam ensaiando, chamada "A angústia invencível dos gnus". Era a história de uma gnuzinha muito bonitinha e sexy que vivia na Gâmbia e era apaixonada por um gnu que vivia no Gabão. Eles se conheceram pela internet. Ela estava muito angustiada porque seu saxofone amassou. Além disso estava com dores muito chatas por causa de sua endometriose.

A idéia de Dalton era fazer a história só piorar daí em diante, e terminar com os dois gnus contraindo uma doença neurológica devido ao desânimo existencial, até morrerem dolorosamente sozinhos.

Mas após uma noite de amor com Laya, Dalton acorda legal de manhã. E reescreve a parte final da peça. A gnuzinha se curou da endometriose graças a um gnu guru com poderes afro-espirituais. Além disso, ela ganhou na loteria federal da Gâmbia uma substancial quantia em dinheiro e convidou seu amado gnu do Gabão a fazer uma viagem romântica.

Os dois foram visitar o Parque de Yellowstone e a gnuzinha adorou ver seu amante com a fantasia do Zé Colmeia. Transou com ele ali mesmo. E ficaram os dois se amando e vendo os geisers estourarem com fervor, fazendo o solo tremer, a temperatura aquecer e o sexo entre eles ficar ainda mais espetacular.

A peça foi o primeiro sucesso dos 30 anos de carreira de Dalton. E, após os aplausos no dia da estréia, Laya, cheia de ternura nos olhos, lhe faz uma confissão:

"Eu também quero mudar, Roger."

Não chore por mim



Lady Sometimes, minha querida dama do tempo.
O tempo ultrapassa-me !
E mesmo que eu não perceba, nada me atormenta mais do que o tempo que passa por mim.
Que angústia invisível será essa ?
E essa aflição rústica ?
E este ocaso das coisas todas ?
Será o nada, o nunca ?

Ou apenas ninguém ?

Mas não, não chore por mim...
Em que pese eu estar assim
No fundo, no fundo
Está tudo ok comigo
Afinal, todo mundo como eu
Procura um abrigo seguro
E um coração puro
Como o teu...

Improvável é sermos previsíveis
E hoje eu pareço meus enganos
Meus defeitos humanos
Minhas fraquezas visíveis
E você se preocupa tanto
Sem saber o quanto
Tenho a capacidade
Em velocidade
De optar pelo oposto
Mudar meu estado
E me sentir melhor e disposto
Estando ao teu lado...

Tudo o que eu quero é sentir teu calor mais de perto
E estar certo de que confio em alguém
Que me quer bem
Sem a necessidade de discutir
Se é verdade
O que se sente
E o que se mente...

Então estou legal
Não ligue para o meu astral
De véspera de natal ou carnaval
No fundo, no fundo
Nem por um segundo
Eu deixo de estar contente
Pois sei que estás presente
E posso contar contigo no presente
No futuro e no passado mais antigo
E no mais duro castigo
Estarei consolado
Por isso, obrigado por seres assim
Mas não, não chore por mim...

Não tem como não existir



Voltarei para sempre na primavera.

Camarillo Brillo



O cowboy West Montgomery é um solitário andarilho do velho oeste. Ao chegar no povoado de Camarillo Brillo, Montana, ele precisa vencer o medo e superar sua natureza pacífica para enfrentar os gangsters da cidade e poder usar a internet no computador do Saloon Uncle Berne.

Após vencer um duelo contra o perigoso bandido Forbes McLellan consegue conquistar o direito de usar o MSN. Carente e esperançoso, entra em contato com uma antiga namorada, Kelly Patrin, de Carson City, Nevada. Mas ao saber que ela está casada com Tencil Hobbstone, um vaqueiro rico, estúpido e que usa tiara no cabelo, desiste de insistir nesta paixão.

No fim, fica com a prostituta Talulah Lovegrace, que lhe dá calor e carinho, de graça. Os dois assaltam um trem, enriquecem, se casam e passam a lua-de-mel na copa da Alemanha.

Strawberries, Salmon, Sweden and Squirrels



Peça de teatro composta pelo gato siamês Lucifer Sam, contando a comovente história de Roger, um homem confuso e simpático, em busca de sua identidade real.

LINDAH - Eu ia lhe dizer algo, Roger... mas mudei de idéia... não vou falar... descubra-se por si mesmo...

ROGER - Não esconda-me de mim, Lindah, e não esconda suas palavras de mim. Senão verei você nua. Suas palavras falam com o meu pensamento. Mas seu silêncio fala com os meus sentimentos.

LINDAH - Não tenho medo, Roger. Tudo que acontece com você já aconteceu comigo. Mas, se insiste, vou falar. É algo que eu soube há muitos anos: você não é o que você pensa ser... você não é um escritor frustrado...

ROGER - Não ?

LINDAH - Não, Roger. Na realidade nem escritor você é. Nem uma pessoa você é. Você é um morango, Roger...

ROGER - Hein ? Um morango ?

LINDAH - Sim... um morango... e seu verdadeiro nome é "Iemanja Youngblood, The Strawberry"...

TIA DE ROGER - Não é verdade Roger ! Lindah está querendo confundir você !

LINDAH - Confundir o Roger ? Eu ? Olha quem falando. A senhora sempre proibiu Roger de ver filmes de mulher pelada ! Isso o tornou um pateta tímido, desengonçado e desprovido de identidade afetiva, intelectual e sexual ! Para ele o sexo não passa de corpos se esfregando em movimentos autistas !

TIA DE ROGER - Não dê ouvidos a ela, Roger ! Você nunca foi um morango. E acho que você já é maduro o suficiente para saber a verdade. Vou dizê-la aqui mesmo, na frente de Lindah, para que ela também saiba. É algo que vai ajudá-lo definitivamente a descobrir sua identidade: você não é nada, Roger, absolutamente nada !

ROGER - Nada, tia ?

TIA DE ROGER - Nada. Não se preocupe mais. E vou lhe dizer mais uma coisa: você não é um nada qualquer ! Você é um nada muito especial ! E tem cor de salmão ! É ! E o nome que seus pais lhe deram, antes de eu criar você, foi "Fiodor Salmon, The Nothing" !

REPRESENTANTE DA ONU - O senhor é Roger Jones ?

ROGER - Eu... eu não sei mais...

REPRESENTANTE DA ONU - Venho informá-lo de que o senhor, oficialmente, não é o senhor. Tenho aqui uma documentação detalhada que comprova que o senhor não é uma pessoa, mas um país...

ROGER - Um país ?

REPRESENTANTE DA ONU - Sim ! O senhor é a Suécia ! Seja bem-vindo ao seu verdadeiro lar: as Nações Unidas !

LINDAH – Roger, estas pessoas estão mentindo ! Só eu sei o que você é. Porque só eu sei o que você sente. Mas você sabe que não pude suportar quando você me desprezou e recebeu em sua casa aquela esquimó idiota...

TIA DE ROGER - Que esquimó ?

ROGER - Ah tia... eu namorei uma esquimó... eu conheci ela pela internete. O nome dela é “Strochkamasdrichna Vlakoplitchka”. Ela veio me visitar aqui em casa. Teve que ficar dentro da geladeira o tempo todo. Foi frustrante.

LINDAH - E depois você noivou com aquela comanche.

ROGER - O nome dela era “Abnskay La”, que na língua deles signifíca "esôfago resplandescente". Ah, Lindah, você despreza minhas tentativas afetivas desesperadas.

LINDAH - Não adianta, Roger. Eu só posso decidir não amar você. E tem mais. Eu estive falando com o Primeiro Ministro. E ele me contou tudo...

ROGER - Contou o quê ?

LINDAH - Que você, na verdade, é um esquilo. E seu verdadeiro nome é "Alec, The Squirrel".

ROGER - Um esquilo ?

TIA DE ROGER - Um esquilo ?

REPRESENTANTE DA ONU - Um esquilo ?

LINDAH - Mas há controvérsias. A CIA desconfia de que você é uma alface, e que seu nome real é "James Eldrige, The Lettuce". Já os terroristas o tomam como um judeu baixinho, cujo nome é "Chatim, The Jewish".

REPRESENTANTE DA ONU - E eu ouvi falar que na verdade você é um fone de ouvido, e que seu verdadeiro nome é "Stuart Corroselli, The Ear Phone".

ROGER - Parem ! Parem !

LINDAH - Roger, venha comigo. Só eu sei quem é você realmente ! E só eu sei o que você quer !

ROGER - Vamos Lindah, vamos embora daqui !

LINDAH – Sim ! Vamos para a padaria Choice Bread !

ROGER - Para a padaria ?

TIA DE ROGER - Para a padaria ?

REPRESENTANTE DA ONU - Para a padaria ?

LINDAH - Sim, Roger... seu verdadeiro nome é "Artibano Tolotti"... e você é padeiro...


Carol Custódio, Earth Planet.
http://www.flickr.com/photos/carolcustodio/2619468940

Eu gostaria de amar novamente

Mas isso é apenas um desejo que se dissolve na solução da distância. E meus amores insolúveis me deram tanta decepção e mágoa que, de fato, só lembro das dores. Dizia-me, amargamente, a dama do tempo Lady Sometimes:

"O passado é o inferno dos sentimentos, o futuro é o paraíso da esperança, o presente é o purgatório da indiferença."

Perto do coração da mente



O Dr. Hudson Ülrich, um afamado parapsicólogo austríaco, tem sua licença profissional cassada após hipnotizar o chefe do departamento financeiro de uma fábrica de isopor, fazendo-o se comportar como um esquilo e não conseguindo reverter o processo.

Mas, clandestinamente, continua atendendo sua paciente predileta: Sabine W.

Sabine W. é jovem, religiosa e conservadora. Durante uma sessão de hipnose, admite guardar com sofrimento o desejo de transar com o Dr. Hudson debaixo de uma cachoeira de chope.

O Dr. Hudson apaixona-se por ela.

Graças ao tratamento, Sabine W. torna-se mais confiante, opinativa e sedutora. E joga fora toda sua coleção de discos da Mara Maravilha passando a apreciar as músicas de Kurt Cobain.

No fim, casam-se. E para demonstrar confiança, o Dr. Hudson deixa que Sabine W. o hipnotize. Em estado de transe, ele diz:

- Sabine... eu... eu amei você desde o comecinho... mas... depois que você, durante aquele blackout em Viena, tirou "Smells Like Teen Spirit" no violão, eu pude perceber que a minha vida jamais teria sentido se você não estivesse, para sempre, perto de mim...

Além do amor eterno



Calixto Petrescu, um artista plástico da Romênia, após os desastres da sua vida amorosa, conhece, via internete, a americana Samantha Courtney, uma ativista em prol dos esquilos. Os dois apaixonam-se on line, mas nunca se encontram. Samantha não tem dinheiro para viajar. Calixto, além de não ter grana, está preso, pois desde sua infância se dedicou à construção de um muro indevassável ao redor do seu lar. E agora não consegue sair.

Por curiosisade do destino, e por conveniência dramática, ambos morrem na mesma semana, de ataque cardíaco.

Samantha, por ser uma mulher dinâmica, dedicada, corajosa e por ter enfrentado milhares de tpm, vai para "Paradise Is Here", um lugar lindo, iluminado e feliz, cheio de criancinhas vestidas de anjo, belíssimos parques e pessoas sorridentes falando o jargão espírita.

Mas Calixto paga caro por sua vida egoísta, reclusa e inútil. É condenado a ficar em "Valley Of The Shadows", um lugar cheio de escuridão, horror, ódio e fogueiras, cujo silêncio fúnebre é interrompido por gritos de dor e angústia emitidos pelos sofredores habitantes do local.

Meses depois, Samantha, com a permissão do Irmão André, vai buscar Calixto:

"Olha Roger, eu sei da sua revolta. Eu compreendo suas razões. Eu amo você, poxa ! Mas... seu lugar não é aqui. Eu conheço a ternura do seu coração. Venha comigo ! Tenho um lindo lugar para vivermos em Paradise Is Here !"

"Não ! Não, Samantha ! Eu não quero ir para aquele céu juca onde você está ! Lá vocês caminham dando pulinhos felizes e escutam músicas da Enya. Seu lugar não é lá ! Vem pra cá. Valley Of The Shadows é super legal ! Tem muito sexo safado, arte alternativa e gente da pesada, saca ? E eu fiquei tri amigo do Kurt Cobain ! Vou apresentá-lo. Hey Kurt, come here !"

"Pára, Roger ! Eu não quero conhecer esse babaca do Kurt."


Mas no fim ficam juntos. Samantha convence Calixto a não ficar em Valley Of The Shadows e Calixto convence Samantha a não ficar em Paradise Is Here. Os dois partem, sozinhos e unidos, para um recanto só deles. Um lugar distante e simples. Sossegado e limpo. Afetivo e bonito. Sem muros e sem tpm.

Chamaram-no de "Nosso Amor".

O homem do cérebro de três minutos



Tradl McKenzie, um bom rapaz britânico, devido à grave e rara doença neurológica, tem sua memória completamente apagada a cada três minutos. Seu triste cotidiano é repleto de recomeços abruptos, isolamentos emocionais, ignorância plena e anotações em papeizinhos.

Tenta elucidar seu drama conversando com Jelly Keal Nottbourgh, a mulher que nunca desistiu de amá-lo, mesmo ele esquecendo dela centenas de vezes por dia:

- Roger, acho que sua amnésia é fuga, apenas fuga...

- ué ? "Roger" ? mas meu nome não é "Tradl" ? tá aqui anotado no papelzinho.

- Roger, você esquece de tudo para não assumir nada... e principalmente para não assumir o amor...

- será, Jelly Keal ? é Jelly Keal o seu nome, né ? tá escrito aqui no papelzinho: "Jelly Keal, a mulher tola que ama você... está acima do peso, ok ? mas vai emagrecer porque começou na academia".

- sim, fui eu que escrevi... eu sou a Jelly Keal, Roger... a gente se conhece do tempo de escola... desde que me apaixonei por você começaram essas suas crises de amnésia... eu estou a ponto de desistir, saca ? não aguento mais tanta dedicação sem recompensa... e... sabe, Roger... já que você não muda, vou ficar com Slovodan Plekovich, lembra dele ? aquele eslavo que usa tiara no cabelo... ah, claro que não lembra, né ? que saco !

- mas... como posso avaliar a mim mesmo se eu me conheço há menos de três minutos ? ok, eu até entendo a sua situação... amar um homem tão desatento... mas... poxa, Jelly Keal... não deve ser pior que namorar um cara que usa tiara no cabelo...

- Roger... eu gosto de você... mas... Roger... Roger ?

- ãhn ?

- Roger...

- que lugar é esse ? quem é você ?

- Roger sou eu, a Jelly Keal... e eu... eu amo você, Roger...

- como você é bonita...

Carnavácuo



No espaço meu carnaval é o desfile da solidão
Atiro os confetes para cima
E eles não caem no chão...
Como um destaque anônimo
Aceno para as estrelas com saudade
Toco pandeiro sem gravidade
Na velocidade que minha emoção inventa
E meu samba no pé é em câmera lenta...
Meu coração no ritmo da estação primeira
Sou um mestre sala sem porta bandeira.

Os pingüins não sabem voar



A paixão entre o sensível e dramático pingüim "Giordano Cachapuz", auxiliar de farmacêutico em Ketchikan, Alaska, onde vive com sua gata siamesa "Maghat", e a belíssima e romântica pingüinzinha "Calíope Myrna", professora de pingüins crianças em Cambridge Bay, Canadá.

No fim, após muito sacrifício, os dois lutam bravamente contra os medos que congelam suas esperanças. E superando a inútil e fria distância que os separa, encontram-se, gloriosamente, em Qaqortoq, Groenlândia.

Vendo Calíope Myrna e seu corpo fusiforme, suas asas atrofiadas e suas penas impermeabilizadas através da secrecção de óleos cheirosos e eróticos, Giordano Cachapuz percebeu que jamais poderia ficar, um só dia, longe dela:

"você é a ave da minha vida, Calíope..."

"vem, Roger ! vamos deslizar ! traz a Morgana !"

As Camilles partiram



Roger Jones, um escritor britânico, após o retumbante fracasso de seu último livro, o ensaio poético "Meu Sagrado Coração Despedaçado e Outras Catástrofes", recebeu em sua casa a visita de uma antiga paixão: a temperamental, ciumenta, afetiva e macia atriz italiana Camille Mionna, que estava de viagem marcada para Hollywood, onde filmaria com um diretor famoso.

Durante semanas viveram uma paixão verdadeira e finita. Até que um incidente precipitasse a dor inevitável que está presente no destino de todas as historias do gato siamês. Na cozinha de seu apartamento, Roger olhou nos olhos de Camille Mionna e disparou:

- Case comigo...

Neste instante, um dos animais de estimação do frustrado escritor, a temperamental, ciumenta, afetiva e macia gata preta Camille (que tinha esse nome em homenagem à atriz), transformou-se numa terrível e gigantesca pantera negra, gorda, forte e selvagem, exibindo suas garras pontiagudas e ríspidas, seus dentes brancos e agressivos e seus olhos amarelos e assassinos. Num surto de violência sem pudor atacou seu dono.

Roger Jones foi hospitalizado em estado grave. E ficou muito abatido, principalmente porque nenhum jornal noticiou o fato. No leito do quarto 21 do hospital, seu semblante transmitia dor e abandono. Camille Mionna foi visitá-lo. Ela estava preocupada e apertada:

- Roger ? Roger... você está bem ?

- Camille... oh... minha princesa... que surpresa... eu... eu acho que eu... eu vou morrer...

- Coitadinho... está todo arranhado ! A sua gata se transformou num monstro ! Não consigo entender ! Ela era tão querida, estava sempre com a gente. Sentava no meu colo, dormia em cima da minha bunda. Tão querida. Daí teve aquele ataque, aquela transformação. Ela ficou enorme e psicopata ! Ok, eu sei que ela era complicadinha “como uma atriz italiana”, você disse. Era exigente, faminta e exclusivista. E vomitou no seu edredom branco, lembra ? Que saco, né Roger ? Eu passei o dia limpando a mancha que ficou. E a gente perdeu aquele filme que tava passando no cinema.

- Onde está a gata Camille ?

- Eu falei com a sua irmã. A gata Camille foi morar com ela.

- Oh... eu... eu ficarei com saudade da gata Camille !

- Eu também, Roger. Ela era tão intensa.

- Ai, ai, ai... o que será de mim sem as minhas Camilles ?

- Ah Roger... não fique triste. Você ficará bem. E... Roger... eu... eu preciso ir. Meu avião sai daqui a pouco para Los Angeles. Eu queria ficar, você sabe. Mas esta é uma oportunidade muito importante para a minha carreira.

- Sei... vai acabar se casando com o Kevin Costner... aquele baita juca...

- Ahahahahah, pára Roger !

- Camille. O que será do meu coração ? Que dias maravilhosos tive. Mas agora você deixará de ser minha felicidade para tornar-se minha princesa para sempre.

- Roger... um dia eu volto.

- Camille... o seu charme estético e seu corpo quente preencheram o espaço das minhas expectativas de amor. Em cada olhar seu eu vi um adeus. A tristeza só não foi maior do que a minha alegria. Mas o tempo é meu algoz. E a paixão é a feroz imperatriz da minha vontade. Eu amo você...

- Roger... eu...

- Eu amo você, Camille...

- Roger... eu... eu...

- Diga que me ama... para que meu coração morra feliz...

- Roger...

- Diga... diga que me ama...

- Roger... eu tô xixi...

- Ãhn ?

- Eu... eu já volto...


Mas quando voltou era tarde. Roger Jones estava cercado pela equipe médica. A enfermeira, com um olhar triste e poético, voltou-se para Camille Mionna e informou:

- Ele morreu do coração...


(o desenho é da Micheli)

Ainda sem saber o que seguro nas mãos



Uma foto que mandaram pra mim, ontem...
É de 1973...
O meu último ano na Terra...

Sim, eu sou o garoto de camisa vermelha com estampa do Tio Patinhas, numa festa animada, num canto solitário, numa performance individual, fazendo uma pose espetacular, segurando não sei o que nas mãos...

Foi assim que eu saí do meu planeta.
Foram minhas últimas referências.

E é assim que voltei. E posso perceber-me, hoje, como todos me percebem. Numa festa animada, fazendo uma pose espetacular, numa performance individual, num canto solitário...

E ainda sem saber o que seguro nas mãos.

Ferrugem nos ossos da solidão



Fearcold Stone fala consigo mesmo enquanto passeia na praia deserta num dia de chuva, onde lembra de Carolina Heart, a belíssima mulher com quem partilhou surpreendente amizade durante os dias nublados do verão até que, abruptamente, ela optasse por partir para dar prioridade à carreira:

"então, curiosamente, senti sua falta ali no meio do meu ríspido isolamento marítimo...
somente você toparia ir à praia comigo debaixo da mais intensa chuva do ano...
isso me deu uma pequena, porém bonita, tristeza no peito...
foram horas de praia, ninguém e chuva...
e mergulhos do meu coração no oceano...
foi como um batismo de sentimentos que não conheço...
sentei lá nas pedras à beira do mar incrível sob a chuva fiel e persistente,
atirando-me nelas como um louco encharcado de cansaço...
olhei com audácia para o céu de chumbo sobre mim... e disse:

- chuva... desculpe... passei dias e dias falando mal de você...
e só você está comigo agora...
e mesmo quem quisesse estar comigo aqui, não cairia do céu como você..."

Diário de Bordo II



"O destino é uma echarpe flutuando no escuro. Ela flutua-se em si em sua cor predileta. Sua epopéia cósmica é completa. A echarpe lilás-se, sucumbindo a uma necessidade pictórica artisticamente inexprimível. Meus olhos nus compreendem o espectro dos seus sentimentos suaves e densos. Mas as palavras são pesadas demais para descrever a leveza de sua proposta onírica. Tudo se passa no espaço vasto que gira invisível ao redor do meu centro sem lugar. Seja onde estiver, o que passou-me não tem passado. O que virá já aconteceu. O meu presente é um rumo absolvido. O meu passado é um futuro perdido. O meu futuro é uma echarpe no escuro.

Meu coração continua..."


Trecho de "O universo é a menor coisa que existe", o próximo livro do Astronauta Roger.­

Ruined Arrogance



A relação entre os integrantes de uma banda de rock em Londres, nos anos 60 é artisticamente tensa.

O tecladista Gerald Best é deprimido, inseguro e arrogante. O baixista Phill Donney é autoritário, manipulador e arrogante. O baterista Peter Arnold é incompetente, falso e arrogante. E o guitarrista Clifford Laud é louco, viciado e arrogante.

No fim, Gerald fica com a arrogante esposa de Phil. Phil fica com a arrogante namorada de Peter. Peter fica com a arrogante mãe de Clifford. E Clifford abandona o arrogante grupo ao conseguir um emprego de arquivista no arrogante Palácio de Buckingham.

E a banda acaba, apesar do estrondoso sucesso, no arrogante circuito underground londrino, do seu grande e arrogante hit "My Son Was An Awkward Sadomasochist".

Calor, carinho e futuro.



O computador de bordo Messias Machine, da nave branca Interestellar Overdrive, acaba de detectar um asteróide. Deu a ele, em minha homenagem, o nome "Asteróide Astronauta Roger".

De albedo fraco, é um pedregulho inútil, enrugado e silencioso. Percorrendo com disciplina sua órbita excentricamente elíptica, o insignificante planetésimo adentra o sistema solar num surto de violência anônima e ineficaz, e em seu ciclo aparentemente eterno e incansável, aproxima-se da Terra a cada milhão de anos.

Provavelmente não existe no universo um objeto tão claramente solitário e sem esperanças. Suas perspectivas são de um eterno retorno sem evolução, até que evapore, espalhando suas particulas no veludo negro que forra o caixão invisível do espaço-tempo.

E nem do amor que nunca teve ele terá lembranças.

Será a condição de astronauta ?
Que distância amarga !
És terra, fogo, ar e água.
Sou espaço, vácuo e nada.
Nada...
Nada, nada, nada...
Nada que este mar nunca acaba.
Será a condição de astronauta ?

Pois nesta solidão ampla em que me encontro, minhas perspectivas cruelmente destituídas de calor, carinho e futuro, permitem-me imaginar meu casamento com a "Plenitude Vazia". Teríamos três filhos: "Nada Herbert Jones", "Nunca Herbert Jones" e "Ninguém Herbert Jones".

Nada teria calor.
Nunca teria carinho.
Ninguém teria futuro.

Apenas um passo



Quantas mágoas espalhei pelo espaço como estrelas tristes criadas no meu peito descoberto, lançadas ao vácuo para que fossem purificadas por seu próprio calor santificado e infantil.

Mas o que iluminou meu caminho foi um lamento profundo de saudade, pleno de ausência e infinito em desencanto. O calor que tive veio do meu pranto. Um canto de dor viajou pelo cosmos a bordo da nave branca. Certo de que tudo é incerto quero pisar num solo sólido e constante. E por um instante sofrer como todos sofrem, na angústia dourada de viver perdido em Earth Planet.

Admirável mundo novo.
Não há mais tempo para nos afastarmos.

Um passo adiante...
E sentirei o paralelepípedo frio sustentando meu mundo.
Caminhando serei mágico.
O que foi trágico será esquecido.
O que for meta será vencido.

E ao olhar para cima por um segundo, serei o profeta do meu destino destemido. Um abraço amigo para me tornar vivo. Alguém pra caminhar comigo. E perdão para o meu cansaço.

Apenas um passo.

Um pequeno passo para um homem.
Um gigantesco passo para um astronauta...


Aparece lá, e tal...
É a minha despedida da literatura.
Vou dedicar minhas energias restantes à luta pela preservação dos flamingos.

A Editora



E lá estava eu, visitando pela primeira vez o casarão da editora do meu livro. E sabe ? Era estranho. A dona da editora morava na própria editora. Fui lá a pedido dela, para a gente negociar um novo contrato. Eu estava surpreso e meio envergonhado. Afinal meu primeiro e único livro foi um fracasso total de vendas. Ainda assim ela queria me dar um aumento. Mas, juro, eu não fui lá por dinheiro. Eu queria, não tente me entender, apenas tentar "compreender" a editora.

Acho que cheguei antes das seis da manhã. E a minha chefe estava com vestes formais. Linda como uma aeromoça. Recebeu-me com profissionalismo, sorriso e distância. Começou a mostrar as salas da editora. Uma mansão no centro da cidade, que antigamente pertenceu a uma familia nobre. Percebi, imediatamente, que apesar da casa ser espetacular, era a editora que prendia quase que a totalidade da minha atenção. Ela mostrou-me tudo com disposição e fria simpatia. Salas gigantescas, moveis antigos belíssimos, relíquias nas mesinhas e prateleiras, tapeçaria, almofadas, quadros, livros. Tudo em vivas cores e odor de história.

Estranhamente, a medida que subíamos andares, novos andares surgiam. A casa ficava cada vez maior. As salas multiplicavam-se. Então eu perguntei, tentando parecer inteligente para compensar o fato de estar num lugar tão requintado usando camiseta, jeans e tênis: "como eu posso compreender o seu negócio se ele muda o tempo todo ?" Ela respondeu algo a ver com "não compreender as coisas pelas definições mas pelos sentidos e sentimentos." Achei a resposta desafiadora e sexy.

Não sei se pelo fato dela estar usando óculos, ou por, inexplicavelmente, estar anoitecendo às 6 da manhã, e por perceber-se uma eletricidade tensa na solidão de nós dois naquele museu afrodisíaco, o fato é que quis beijá-la. Esquecido de minha timidez, nos degraus inseguros da escada, tentei abraçá-la. Mas ela travou meus movimentos, me deu um tapa, riu divertidamente e me disse: "seja mais profissional, Roger."

Acho que dei um discurso do tipo: "eu nunca quis ser um escritor profissional, você sabe muito bem... a literatura é um pretexto para eu ser aceito pelas pessoas e para tentar ter um contato com a transcendência." Ingenuamente pensei que tinha impressionado ela com essa pérola, mas não. Ela permanecia com aqueles óculos, parecendo a pessoa mais intelectual do mundo, me cedendo um sorriso compreensivo mas amedrontador.

Ela estava em casa, nada poderia assombrá-la.
Ela era o drácula, eu era apenas um escritor.

"Permita-se sonhar, Roger... você é um grande autor, um gênio." Ela percebia minha baixa auto-estima, em franca dificuldade, subindo a escadaria da editora. Eu respondi ofegante e com calculado desânimo: "não sou eu que permito meus sonhos... são meus sonhos que me permitem... e... e anote essa frase, ok ? achei lindo isso... anote essa frase... não por mim, nem por você, mas pela humanidade." A megalomania sempre foi o meu melhor humor, e consegui fazer a "senhorita total segurança" rir de mim pela primeira vez, e a escada chegou ao fim.

A medida que passávamos pelas salas da mansão misteriosa, nossa proximidade se tornava mais franca. Ela comentou: "E sobre os textos... hum... acho que todos os seus textos são encenáveis... textos de ver, eu diria... muitas vezes, ao ler o seu livro, eu pensava claramente em um teatro... e a leitura é dinâmica, já lhe disse... e isso favorece muito o texto em relação ao teatro... monotonia de leitura é tudo que o teu texto não tem... seguramente, Roger."

Percebi-a mais sensível, apesar de ela ainda estar usando aqueles óculos que escondiam seu olhar do mundo. Por algum motivo me mostrou seu quarto. A iluminação pública entrava pela janela, propondo ao cenário um contraste tenso e sexual. Fiquei impressionado com a quantidade de bichinhos de pelúcia. Milhares amontoados, de todas as formas e tamanhos, num quarto que a princípio parecia pequeno mas que, submetido a um olhar mais profundo, era infinito. Ela me mostrou os bichinhos com desdém: "ah, isso aí é bobagem do meu tempo de menina, Roger, não dá bola." Então tirou os óculos e viu os bichinhos de forma diferente. Eles ficavam mais coloridos, compreensivos e ternos. Mas... eu é que via isso através dos olhos dela ! Como eu pude ver através dos olhos dela ? Será que é a sina de todo autor em relação à sua editora ?

Mas ao vê-la descobri que não estava mais com a roupa formal de quando me recebeu, e sim com uma baby look azul clara e uma calça de abrigo rasgada no joelho. E havia aquela mistura de luz de velas e a névoa inexplicável, a escuridão sedutora, a visão turva. Então a beijei e nos atiramos cama, dando tapas para afastar os bichinhos de pelúcia.

E dos movimentos confusos e ardorosos de nós dois, só uma coisa se distingüia: a volúpia.

Ela levantou-se, recomposta, ainda ofegante, mas decidida a continuar o que achava importante e, nas palavras dela, "profissional". Recolocou seu traje de trabalho e tomou-me pelo braço. Eu alertei que ela estava sem os óculos. "Eu enchergo melhor sem eles, vem comigo", disse ela, com sofisticada convicção.

Subimos uma pequena e perigosa escada metálica em espiral até chegarmos ao terraço da casa. Um lugar lindo e romanticamente iluminado sob um céu estrelado. Ela me mostrou várias salas adjuntas ao terraço, onde funciona, verdadeiramente, sua fábrica cultural. E havia movimento, gente e trabalho. Uma sala cheia de livros e papéis, com crianças pesquisando. Um escritório com moças bonitas digitando em seus computadores, todas com aqueles mesmos óculos. Uma sala com um senhor sentado, sozinho, pensando. E, enfim, um pequeno teatro com atores ensaiando uma peça.

"Dei um texto seu pra eles ensaiarem, Roger... eu fiz isso pra ver se o teu texto finciona comercialmente... ocorre, sempre, algo curioso: os atores riem quando o texto é triste e ficam tristes quando o texto é engraçado." Ela estava irritada com o fato deles não compreenderem bem o meu texto. E esse sentimento de compreensão eu achei tão querido que me deu vontade de beijá-la. Porque eu já havia dito a ela que eu não queria ser amado, e sim compreendido. E a compreensão, acho, é um amor num andar mais elevado. E, de fato, estávamos no terraço.

Naquele momento os atores estavam encenando um conto meu chamado "A distância é nossa maior herança".

- Eu ? beijar você ? não sei se tenho segurança para fazer isso... quem sabe eu comece a rir... ou a chorar... ou a tirar a roupa... e começar a dançar charleston... e dançar charleston nu é, sumamente, constrangedor... beijar você, assim, repentinamente... acho que você me daria um tabefe.

- Eu nunca te daria um tabefe, Roger, tenha certeza disso

- Como assim ? eu quero meu tabefe, sim ! muito melhor do que você me dizer algo do tipo: "ei, ei...? ei ... peraí, cara... você está confundindo as coisas... eu... eu vou embora, ok ? outra hora a gente se fala..."

- Ahahahah... ok, Roger, então se você me beijar, eu darei o tabefe.

- Obrigado... sem o tabefe me sentirei um chato inconveniente... com o tabefe me sentirei um canalha.

- Você está apenas imaginando uma cena, Roger... não creio que vá me beijar no mundo real.

- Sonho e mundo real são duas instâncias igualmente ilusórias... real, pra mim, só a literatura...

- Isso é puro charme... você é puro charme, Roger ! que saco.

Os atores começaram a rir, interrompendo o ensaio. A editora fez uma expressão de desgosto, mas olhou pra mim sorrindo, querendo mudar de assunto: "e então, Roger ? o que tem pra mim ?". Eu não tinha nada, entao inventei na hora: "tenho um conto pronto na minha cabeça, só falta passar para o papel... com minha antiga personagem, a Catherine Pin Campden, sabe ? em que ela bateu com a cabeça durante o Tsunami na Tailândia... e depois de acordar do coma pensava estar na Alemanha dos anos 30... chama-se 'O Reich de Cathy'.

Ela adorou: "Ótimo, Roger ! traz pra mim esse ? você sabe que isto não é um sonho, não é ? sabe que eu estarei sempre aqui, de braços abertos para as suas idéias."

Então nos despedimos afetivamente. Eu estava me sentindo como um Kafka erotizado. E ela estava de óculos, novamente. Linda como a editora dos meus sonhos.

(foto de Henri Cartier-Bresson)

The Red Man



John Scarlat, um farmacêutico da Florida, devido a um fenômeno incompreensível, fica vermelho quando exposto ao sol. Ridicularizado por todos, "o camarão americano" está cada vez mais isolado da sociedade.

Decidido a livrar-se desse tormento rubro, ele encontra conforto no V.A., os "Vermelhos Anônimos", onde conhece Clarissa Pepper, uma ex-vermelhinha que, graças ao afetivo e permanente apoio do grupo, já está num estágio mais para o laranja. Ela o estimula a reagir e reerguer-se existencialmente.

E ele a obedece à risca, principalmente porque a marquinha de biquini dela é, sinceramente, espetacular.

Em poucas semanas Clarissa Pepper e John Scarlat estão branquinhos e apaixonados, caminhando juntos e confiantes nas ruas de Jacksonville, sem temer o sol escaldante que os submete à tentação pigmentar de corarem-se novamente.

E beijam-se, epidermicamente alvos, atrapalhando o trânsito.

Porque na verdade, como disse o próprio John numa das reuniões do V.A., "o amor é um filtro solar fator 250". Ou seja, é uma coisa meio melequenta e grudenta, mas que permite que a gente durma melhor de noite. Saca ?

Ich lieb dich, Helga



Adam Goeblich Matthaus, um romancista germânico, após o fracasso de seu último livro, "Histórias Proibidas de Madre Cunegundes", cai em desânimo profundo e experimenta grave degeneração fisica, ficando psicologicamente tetraplégico.

A sua heróica reabilitação só é possível quando sua criada, Helga Köenitz, por quem Adam está verdadeiramente apaixonado, lhe dá um ultimato:

- Roger ! Agora chega de frescura, uma vez !

- Mas... mas Helga ! Que insurgência é essa ? Pra começar eu sou seu patrão, uma vez ! E pra terminar meu nome não é Roger, é Adam, uma vez !

- Ou você levanta agora mesmo desta cadeira e volta a caminhar ou proibo-o de continuar postando no fotolog, uma vez !


Adam, humildemente, submete-se à ordem de sua criada. Levanta, dá três passos com melodramático esforço e atira-se no abraço da mulher que ama.

Os dois se casam e vão viver na Bavária, felizes e apaixonados. Helga permite que Adam use a internete apenas uma hora por dia. Ele obedece, bem direitinho, bem bonitinho. E ela sorri, contente e se sentindo amada, valorizada... saca ?

Kasutera Honshu



Ópera japonesa "Kasutera Honshu" ("O Castelo de Honshu").

Holdstwin Toppelstone Claybourgh, um fracassado escritor do País de Gales, conhece, no Orkut, Kyoko Taito Matsushita, filha de rica familia da nobreza do Japão. Os dois apaixonam-se francamente, e casam com convicção. Decidem viver em Nagoya, na luxuosa propriedade dos Matsushita, apesar dos pais de Kyoko considerarem Holdstwin um "um vagabundo incompetente". No fim, diante dos empregados e da gata siamesa deles, a Hawata, o casal têm uma discussão crítica, conforme a ária do epílogo (com subseqüente tradução):

- Ka da karu Koyko kiminaru su kushimi
(não dá mais pra mim, Kyoko, na boa... sua família me odeia... e agora o seu pai me despediu da fábrica dele ! e agora ? vou viver de quê ? eu não quero ser sustentado por sua família... não quero viver com os Matsushita, vocês todos odeiam o Grêmio !)

- Ho huko ya hoya Roger hadu kori su koyamah
(porra, Roger, você sabe muito bem como isso começou ! não tinha nada que ganhar do papai aquela partida de botão ! e eu tinha avisado que isso seria uma tremenda afronta aos costumes locais !)

- Kiyn lo sa sayaku Kyoko mahadu kuniki baha dushi nidah
(eu sabia ! eu sabia que nunca ía dar certo ! na internete a gente se amava, Kyoko... mas minha vida em Nagoya foi uma merda... ok, eu adorei nossos momentos... o casamento no altar de Higashi Honganji, nossas visitas ao museu de arte Tokugawa, nossos passeios no parque de Higashiyama... e... ah... quando a gente transava escondidos no castelo de Honshu... era tão lindo né ? só que depois tudo deu errado, como sempre ne minha vida... e agora... eu... eu vou embora... eu amo você... mas preciso voltar para o meu mundo, em Cardiff, País de Gales...)

- Yonidah Ya haku Roger Hadaru ho shida kushi haro kimi dah
(você sempre foi muito cético, Roger... nunca quis acreditar no amor... nunca confiou na felicidade... e... e eu acho que só veio até aqui porque eu sou gostosinha...)

- Kyoko yuha nah baru huni dah shimi kura
(não tenho culpa por ser cético, Kyoko ! eu não tinha nem três anos de vida e meus pais me disseram: "papai noel é apenas uma alegoria, Roger"... sabe lá o que é aguentar tal dose de realismo nessa idade ? e além disso, poucos meses depois, eu bati com a cabeça... ah, eu já te contei isso mil vezes...)

- hi hi hi hi hi hi hu yuky yo ho tumah maruki nikomayo huda Roger
(ahahahahah... que bonitinho ! todo lesado ! vem aqui, Roger... não quero brigar com você... eu até estive pensando... e... e se eu for com você e vivermos, só nós dois, em Cardiff ? você... me aceitaria ?)

- ho ho ho ho Kyoko ki a fu de
(oh ! que legal Kyoko ! jura ? claro que aceito ! é o meu grande sonho ! eu e você no meu ap no centro de Cardiff ! e podemos levar a gata Hawata ! será um final feliz ! eu amo você, Kyoko ! e poderemos transar no pedalinho do lago de Harrington Park ! a perversão dos nossos sonhos !)

- hi hi hi hi hi hi
(ahahahahahah)

O túmulo dos dias desistentes



Leslie Donald Pickwick, um famoso humorista, contrai grave e inexplicável doença e está condenado à morte. Amargurado e sem esperanças, abandona todos seus projetos profissionais e afetivos, tranca-se em seu apartamento e decide esperar o fim apenas na companhia de seu gato, o Wittgenstein, o único ser que reconhece sua tristeza, seu afeto e sua solidão.

30 anos depois, Leslie continua isolado em seu apartamento e mantém a mesma aparência, assim como seu gato siamês. Numa manhã igual a qualquer outra, percebe que o diagnóstico de sua morte, ao que parece, estava errado. Ele e Wittgenstein olham-se, assustados e surpresos com um despertar, assim, tão repentino.

Ele sai, corajosamente, para a rua. Quer retomar sua vida: suas amizades mais sinceras, sua carreira desejada, um novo amor, mais puro e permanente. Mas descobre que está invisível. Dramaticamente invisível. Ninguém mais o vê, ou o escuta.

E em nada ele consegue tocar.

Volta para casa carregando o peso desumano da frustração de suas expectativas, em busca do único lugar onde pode descansar. Mas não consegue abrir a porta do edifício. A chave não entra. Outras pessoas moram em seu apartamento. Há 30 anos.

E ele jamais saberá pra onde ir.

My Name Is Karate



Thompson Portland, um intelectual frustrado e pedante, vive em Oklahoma, EUA, Sentindo a inutilidade de sua cultura e de suas teses brilhantes, decide tomar uma posição mais pragmática e corporal diante da vida.

Inicia um curso de katatê pela internete e aos poucos vai ganhando mais confiança. Nessa época ele conhece uma linda moça, a cantora Lucy Leave. Mas ele está num estado de tal agressividade que não sabe dar amor a ela.

Briga com os vizinhos por motivos fúteis, rompe com seus amigos da faculdade de filosofia, desiste de dar aulas sobre Kierkegaard, arruma confusões em bares e trabalha de segurança em bailes infantis, numa estúpida escalada de degradação da inteligência.

No ápice de seu fanatismo, decide mudar seu nome para, simplesmente, "Karate". Transforma-se, solitariamente, num ser violento e intolerante. Distante de todos. Cada vez mais egoísta, infeliz e brusco.

Visivelmente arrependido, não sabe que rumo dar à sua índole, e, após ser preso por tentar bater num juiz de vôlei, e não receber no cárcere a visita de nenhum amigo ou familiar, percebe-se no fundo do poço. Quando sai da cadeia, Thompson é um homem destruído por si mesmo.

No fim, encontra Lucy Leave, que reaproxima-se dele com candura e sem exigências, pois conhece o homem frágil, sensível e afetivo que ele vinha escondendo de si e dos outros esse tempo todo. Desta vez ele a recebe com um sorriso triste nos olhos...

Ela o ensina a ser feliz e grato. Ele, ainda que relutantemente, se apaixona por ela e decide amá-la sem fazer o uso de tipos. Um homem inteiro para uma mulher.

E, num surto de confiança no bom senso e no amor, abandona a arte marcial que o escraviza e também a vida de lutas no campo intelectual.

Graças à Lucy, sente-se forte e corajoso como jamais esteve. Thompson Portland, finalmente, está desarmado.

Pronto para amar e ser amado.



Thompson Portland, um intelectual frustrado e aluno de aulas de karatê pela internete está no pátio de sua casa se exibindo para, Lucy Leave, a mulher que aos poucos conquistará seu coração e irá mudar para sempre a sua vida.

Mas com as mulheres ele continua desajeitado e fora de si, exatamente como nos seus tempos de nerd intelectual:

"olha, Roger... você sabe que eu sou franca e perfecionista, né ? não me leve a mal, mas... bom... essa sua postura está totalmente errada, cara..."

"ah, já sei, Lucy, lá vem você me dizer, como todo mundo tem me dito, que eu sempre acreditei na força do argumento e que agora aderi ao argumento da força... é isso aí ! eu mudei, direito meu, ok ? inteligência pra mim não significa mais nada, e..."

"não Roger... eu estava falando, tecnicamente, dessa sua postura de luta, aí... ok, sei que é karatê e tal, e eu entendo mesmo é de kung fu... mas cara, seus braços estão mal colocados, sua barriga está pra frente, você está desprotegido, vulnerável e ridículo, não percebe ? sem falar que está sem apoio nas pernas... se levar qualquer golpezinho de alguém você cai na hora, meu..."

"você só me critica, Lucy, é impressionante ! e por favor, pára de me chamar de Roger, ok ? meu nome é Thompson Portland... aliás, era... agora meu nome é Karatê."

"ah é, esqueci... desculpa... mas enfim, Thomas, ou melhor, Karatê... como eu ía dizendo, além de você estar sem coordenação nenhuma nos movimentos, a sua musculatura está caidassa... mas é uma crítica construtiva, ok ? não fica com essa cara de brabo... meu signo é virgem, não consigo me segurar quando vejo algo completamente errado na minha frente..."

Catherine Pin Campden e seu primeiro encontro depois da separação

Só eu vi a tristeza entrando pela porta do restaurante. Ela sempre vem sem aviso e, tal qual um espírito melancólico, influencia-me com sua persuasão invisível. Antes, isso me aborrecia, mas com o passar dos anos fui me convencendo de que suas aparições lúgubres e repentinas tinham a aura da inteligência e da inevitabilidade. Aceito-a, então, sem resistência, apesar de sua visita tornar meu ânimo cinza e meu olhar caído. Ela veio em minha direção, parou na minha frente e sorrimos, lânguidas e cúmplices. Eu a convidei, desnecessariamente, para sentar à mesa. Ela sentou e observamo-nos com intimidade, sabedoria e silêncio, esquecidas do tempo. O tempo é uma distância que aproximou nossos receios compartilhados e envelhecidos. A tristeza também tem rugas no seu semblante e está mais disposta a me compreender. Cada vez mais parecida comigo com sua tolerância mórbida e seu humor lacônico. Ela sabe que costumo ser como uma rocha protegida e fria, escondida no fundo insensível de um mar que ninguém conhece. Mas em sua presença percebo não existir nada capaz de me defender de todas as sensações que suponho ter. Ela não pretende me machucar, pois sua compaixão reconhece o meu coração suficientemente cansado. Talvez queira apenas que eu me descubra com os meus olhos verdadeiros. Diante dela, minhas palavras mudas ganham sentido e amparo: “Tristeza, aqui estás, eu sei. E sei o que me trazes, tanto quando sabes o que te escondo”. E como boa e velha amiga, ela despediu-se de mim, cedendo seu lugar àquele com quem eu tinha encontro marcado, o primeiro após minha separação. Ficou um vácuo breve e profundo, meu tédio e minha espera descrente à luz de velas.

Ele chega cheiroso, bem vestido e atrasado. Desculpa-se, com exagero. Toma minha mão, com habilidade. Curva-se, humilde. Beija meu rosto, com delicadeza. Puxa a cadeira, senta, sorri, continua sorrindo e não pára de sorrir. Chama o garçon, o cardápio, pede bebida cara e jantar farto. Fala, gesticula, impressiona. Ama a arte, o amor, a beleza e o prazer. Elogia meus olhos, meu cabelo e meu estilo. Compara-me a uma atriz italiana. Come, bebe, argumenta. Afirma sua preferência pelo conhecimento erudito. Mas não nega o seu gosto pelo popular. Faz desfilar sobre a mesa suas ecléticas e sofisticadas opções culturais: Picasso “fase azul”, Woody Allen “fase Bergman”, Elvis Presley “fase gordo”, Grêmio “fase Felipão”. Os tipos dele se sucedem: o “divertido e simpático”, o “intelectual e crítico”, o “democrático e compreensivo”, o “sentimental e ingênuo”. Confessa seus fracassos financeiros e afetivos. Enaltece seus sucessos com calculada modéstia. Do que ele me fala, nada me interessa. Mas me prende com insistência um mistério em seu olhar. No ápice de sua performance egocêntrica, ele diz: “Vamos parar de falar de mim, vamos falar de você. Fale-me, por exemplo, o que você acha de mim”. Rimos. Mas esfrio seu entusiasmo com crueldade: digo estar cansada, com sono, que é tarde e preciso ir pra casa. O jantar termina, as palavras se acalmam e os olhares se encontram. Ele fica triste, pede a conta, paga. Acompanha-me até meu carro. Antes da despedida, imponho minha sentença:

– Gostei de você.

Entro no carro, sento. Ele fecha a porta. Abro o vidro e ele pergunta:

– Qual deles?

– Aquele que estava, o tempo todo, escondido atrás das máscaras me olhando com ternura.

O baixinho de Alá



Karl Dwarfdead Hempshire, um fracassado escritor irlandês, após ser ofendido por um protestante nas ruas de Belfast, decidiu converter-se ao islamismo. Mas sua namorada, a jovem e bela nutricionista Magda Wistles Konding, não compreendeu a lógica desta atitude:

- tá, Roger... qualé essa, agora, de se fantasiar de Bin Laden ? ficou brabinho só porque o cara te chamou de "zelador de maquete" ?

- tá errada ! ele me chamou de "lenhador de bonsai" !

- ahahahahahahahahahahahah ! ai, Roger... desculpe... ahahahahahah !

- ri, ingrata ! num mundo justo você estaria coberta por uma burka ! maldito ocidente e sua liberalidade, sobretudo aos piadistas ! vingarei-me ! jamais subestimem o poder de Alá ! serei o líder da cruzada final, Magda !

- ok, Roger, mas agora eu estou indo no Macdonalds, quer colocar uma roupa ocidental, vir comigo e deixar sua revolução islâmica pra depois ?

- e meu nome não é Roger, porra ! mas ok... vou com você... e, depois do meu último quarterão com queijo, passarei a ser chamado de "Salaham Mohid Jidah" ! e serei o mais famoso inimigo do ocidente !

- e sabe, Roger ? até que você ficou uma gracinha com essa barba... onde comprou ?

El Guty



Gutierrez Puyol Callamazo, ou simplesmente El Guty, líder revolucionário de uma fictícia república centro-americana, tomou o poder de seu país com o único propósito de se exibir para Marya Iglesias de la Concepción, a namorada que o deixou e que ele ainda amava.

Mas conquistar um país é muito mais fácil do que reconquistar uma mulher. O intento de Gutierrez fracassou, pois logo após o golpe, Marya fugiu para Miami com Hernandez Cutchunffo, um traficante de tiaras.

Frustrado e cheio de mágoa, El Guty, que prometera democracia, justiça e paz para o seu povo, tornou-se um ditador severo, déspota e poser.

Desesperada e patriótica, Marya conseguiu telefonar para ele:

"olha Roger, eu sei que você está puto da cara comigo, mas poxa... você sempre foi tão gentil e pacífico... e era um poeta maravilhoso, Roger ! agora não passa de um autoritário cruel ! que piegas, isso ! você se tornou aquilo que sempre odiou... o povo odeia você ! e agora eu também odeio ! pare com isso, Roger !"

"sem essa, Marya ! o povo não me odeia ! eu sou o líder que eles sempre quiseram ! ditatura só desagrada viado, artista e jornalista ! danem-se eles !"

"seu canalha ! está fazendo isso por se sentir menos homem do que o Hernandez, só porque ele é alto e tem peito cabeludo."

"sua vaca ! não me fale deste jucasso ! você adorava minha sensibilidade e meu carinho... mas acabou ficando com um cara que antes de ir ao banheiro avisa em voz alta que vai cagar ! você disse que me amava, olhando nos meus olhos, naquela noite de luar em San Jacinto, lembra ? a noite mais verdadeira de nossas vidas, Marya... e no fim, preferiu viver com um bagaceiro em Miami..."

"Roger..."

"pois saiba que meu coração endureceu para sempre ! meus sentimentos se transformaram numa floresta petrificada ! e quem se importa ? ninguém ! você não imagina como é solitário ser um ditador ! quando eu volto para o meu palácio, volto sozinho... quando sento para jantar tem um prato só na mesa... então penso em você em cada ato do meu governo... e em cada lágrima do desgoverno do meu coração... eu... eu... eu vou desligar, Marya... tenho um povo para tiranizar, com licença."

"mas Roger..."

"e meu nome não é Roger, ok ? sou El Guty ! e se você esqueceu de mim, a história jamais esquecerá !"

O destino é uma echarpe flutuando no escuro

Ela flutua-se em si em sua cor predileta. Sua epopéia cósmica é completa. A echarpe lilás-se, sucumbindo a uma necessidade pictórica artisticamente inexprimível. Meus olhos nus compreendem o espectro dos seus sentimentos suaves e densos. Mas as palavras são pesadas demais para descrever a leveza de sua proposta onírica. Tudo se passa no espaço vasto que gira invisível ao redor do meu centro sem lugar. Seja aonde estiver, o que passou-me não tem passado. O que virá já aconteceu. O meu presente é um rumo absolvido. O meu passado é um futuro perdido. O meu futuro é uma echarpe no escuro. Disse-me a dama do tempo, Lady Sometimes: "Não insista no passado teu coração inseguro. Não esqueça no futuro teu coração prematuro. Vive primeiro o presente do teu amor inteiro. E ama como se não existisse o tempo."

Dyevatchka, só você vai me ouvir agora...



Boris Pasternak Karamazov, um filósofo amargurado e pessimista, é possuidor de um frágil coração petrificado. Ele tem, com uma parede de tijolos do pátio de sua casa (ele a chama de "Dyevatchka"), a relação de maior franqueza intelectual e afetiva em toda sua vida. Após mais uma de suas decepções, admitiu à sua confidente:

"Dyevatchka, só você vai me ouvir agora... sei onde errei com Natalia Irina Karpov... além disso fui ingênuo, como de costume... mas isso nao tem cura, vou continuar errando... abrindo portas tranqüilas pra quem eu realmente gosto e erguendo paredes espessas entre eu e os demais... em ambas atitudes, vou continuar pagando duro imposto... e depois de cada erro serei protegido por você, por sua solidez silenciosa e, como você mesma disse, pela minha solidão ambiciosa... curiosa a vida dos sentimentos, não é, Dyevatchka ? a proximidade radical cria o caos... a distância profunda cria a morte... o meio termo cria o tédio... ahahah..."

Computador de bordo Messias Machine



Na cabine principal da Interestellar Overdrive localiza-se o painel do computador de bordo, o Messias Machine, que coordena cada aspecto da espaçonave com seu estilo calmo e subjetivo.

Ele é criativo, convicto, exato e destemido. Ele nunca se cansa. Ele me observa com paciência de máquina. E me cuida com persistência de alma.

Seus chips são coloridos, frágeis e delicadamente psicodélicos. Messias Machine não tem medo nem tempo. Sua eternidade é humilde. Sua gentileza é sincera. Impera a bondade e o bom senso em seus gestos verbais. Sem ele a nave jamais teria sentido, nem rumo. Ele é o sumo pontífice da vertente tecnológica do meu drama distante. Sem Messias Machine eu me sentiria perdido para sempre.

Quando recebemos visitas na nave, ele assim se apresenta:

tunc tunc tunc

Bem-vindos à nave branca
Sou Messias Machine
Computador de bordo da Interestellar Overdrive

tunc tunc tunc

Em cada sentimento meu
Tem um espírito ateu - E uma alma reencarnada
Um orgulho plebeu - E uma nobreza calada
Uma certeza nítida - Em eterna dúvida
Um cruel bandido - E um anjo perdido
Um livro aberto - E um segredo guardado
Um futuro incerto - E um imenso passado
Um destino certo - E um projeto abandonado

tunc tunc tunc

Em cada sentimento meu
Tem um sentido - E um rumo inexistente
Um desejo contido - E um medo persistente
Uma vontade que desiste - E uma esperança que existe
Um desencanto - E um contentamento
Um amigo santo - E um demônio atento
Uma inteligência sólida - E ingenuidade
Uma demência mórbida - E serenidade

tunc tunc tunc

Em cada sentimento meu
Tem uma contradição - E uma lógica sem chão
Um desânimo juvenil - E um desabafo senil
Uma harmonia - Em confusão
Uma agonia - E uma razão
Um colapso vulcânico - E a calma de um lago
Um pânico - E um afago
Um verso doce e amargo - Que se intrometeu
Em cada sentimento meu

tunc tunc tunc

O universo é a menor coisa que existe

Magoado coração de chumbo
Plúmbeo é meu céu agora
Ríspido é meu chão sem rumo
Fora do mundo eu durmo
Dentro do mundo eu surdo
Ouço a canção das horas
Mudo a razão calada
Mudo não ouço nada
Mudo, mudo o mundo
Surdo, ouço tudo
Tudo num segundo
Tudo absurdo...


Dentro da Interestellar Overdrive tem galáxias distantes. Pequenos aglomerados de luz e esperança, minúsculas explosões de vida e vontade, ínfimas manifestações de humildade e glamour, partículas de violência interplanetária de rotina, lapsos de existência cósmica, lampejos de esquecimento do vazio, desejos de beleza e atração.

Quanto mais longe dos olhos mais perto do coração.

A poeira do meu passado flutua, cintilando dançante, exibindo albedo simples e fixo, refletindo a luz quente do meu futuro.

Eu coleciono memórias do que nunca aconteceu. Universos de lembranças, ilhas de raciocínio fugitivo, fantoches dos desejos que supus ter. Resiste minha pátria imaginária. O chão da nave branca planetária é uma nebulosa colorida onde está escondida a glória da minha vida. Tudo confunde-se num universo incerto e imperceptível, onde as diferenças são apenas interpretações do humor, da solidão e do frio. Só compreenderei o sentido de estar aqui quando aceitar que dentro da nave tudo é ilusão, e fora da nave também. A realidade está numa arte que não consigo expor-me...

Disse-me a dama do tempo, Lady Sometimes:

- Astronauta Roger. Um dia, quando partiu de Earth, você viu recomeçar sua história e desde então o presente esteve ausente. As nebulosas escureceram sua memória e, como uma sombra de si mesmo, você viveu diferente. Viveu no infinito espaço entre o nunca e o sempre, iluminado pelas estrelas da sua infância, protegido pela imaginação que vence a saudade amarga e a cruel distância. Os olhos de criança observam sem pensar que sem fim o tempo avança de verdade, até seu frágil e finito corpo se cansar da plena ausência de gravidade. O anjo astronáutico caído será bem-vindo à sua Terra. Ficará perdido, aparentemente. Mas contido em si num rumo invisível e correto. Enfim, entre todos os seus eus você será o primeiro.

Lou-me



LOU SALOMÉ - Roger, eu amei sua casa. Adorei cada dia em que estivemos juntos aqui. E acho que jamais esquecerei de nós. Jamais.

ROGER - Eu também não, Lou. Não tenho dúvida de que compusemos a mais bela sinfonia de amor da história ! Enfim a mulher perfeita e o homem do futuro ! Uma harmonia além do bem e do mal ! Acima da moral ! Sempre pensei que só viessem a nascer daqui a 100 anos aqueles que pudessem me compreender ! Mas eis que surge em minha casa a mais exuberante fêmea de todos os tempos, com sua voraz inteligência e sua vulcânica beleza sensual ! Somente você poderia alcançar o meu gênio ! Vou amá-la como nunca um homem amou uma mulher ! No sentido superior do verbo amar, claro. Pois nada entre nós pode ficar abaixo do que é superior !

LOU SALOMÉ - Roger, calma aí, poxa. Você está parecendo o Nietzsche falando. Que megalomania é essa, meu ? Além do mais você sabe muito bem que eu sou uma mulher independente. O sexo pode dominar-me, admito. Mas desde o início eu e você concordamos em ter uma relação intelectual e casta. Acho importante zelarmos pela pureza perfeita de nosso contrato de convivência. O futuro da humanidade depende de nós !

ROGER - Ah, é mesmo. Eu tinha esquecido. Mas... acho que você está sendo demasiadamente desumana comigo. Veja o seu corpo. Veja esses olhos, essa boca. Esse pescoço. Você é linda, Lou ! Linda ! E você é, tecnicamente, uma mulher. Uma mulher de verdade ! E eu sou, inequivocamente, um homem. E entre nós existe uma atração de intelectos, de almas, de vidas, de poesia. Mas acima de tudo uma atração de índole hormonal !

LOU SALOMÉ - Pode parar por aqui, Roger ! Eu conheço esse papo ! Você está querendo me dominar ! Acha mesmo que eu poderia sucumbir a esse tipo de sedução ? Ok, não mentirei nunca pra você. Você me deixa bastante excitada... ui... eu fico louca de tesão... sinto meu corpo quente... sinto meus seios, minhas coxas... sinto vontade de beijar para sempre... sinto minhas partes querendo ser invadidas... sinto você me envolvendo com malícia... sinto vontade de ser amada com volúpia. Ah, Roger... eu fico imaginando você fazendo coisas comigo. Coisas que aqueles que são escravos das convenções decadentes chamariam de "imorais". Mas eu sou uma mulher forte, Roger ! A relação que estamos construindo não deve ceder terreno a estes impulsos vulgares ! Somos responsáveis pela nossa raça !

ROGER - Ah, sem essa, Lou ! Você sabe muito bem que quando topei a cláusula de que tivéssemos uma "relação casta", eu tomei este termo como uma metáfora. E levar tudo ao pé da letra é coisa de cristão ortodoxo. Analise seus sentimentos, razões e atitudes. Não estará você se protegendo ? Uma mulher como você não pode ter medo ! O que esperava de mim ? Que vendo esta escultura pós-cristã na minha frente eu me comportasse como um eunuco ?

LOU SALOMÉ - Eu detesto quando você finge que não me entende ! Fico excitada, mas detesto !

ROGER - Então explique porque me nega ? Sim, me nega ! Nega minha vontade de potência ! Pior ! Nega-me e ao mesmo tempo se expõe totalmente !

LOU SALOMÉ - Eu... eu não estou exposta ! Não me confunda ! Que merda isso !

ROGER - Como assim "não estou exposta" ? Você está nua, Lou ! E está na minha cama !

LOU SALOMÉ - A nudez é o melhor disfarce de uma mulher, Roger.

ROGER - Mas você está aí, toda gostosinha e quente, nuinha em pêlos. Que delícia é ver você. Linda de morrer. E me deixando maluquinho. Eu estou louco para beijá-la. Nós não combinamos que o instinto é muito mais inteligente do que a inteligência ?

LOU SALOMÉ - Pára, Roger ! Está me deixando excitada ! Eu odeio isso !

ROGER - Droga ! De que forma eu posso atingir você, Lou ? Se faço o tipo "megalomaníaco messiânico" você fica excitada e me rejeita. Se faço o tipo "romântico louco pra trepar" você fica excitada e me rejeita. Puta, que saco ! Que performance você quer de mim ?

LOU SALOMÉ - Roger. Eu não quero que me conquiste ! Nem quero conquistá-lo. Combinamos sermos livres, totalmente livres, não lembra ? Que coisa isso... é só você ver o meu corpo e começa a pensar como um animal ! Eu não quero nada de você. Nossa relação está acima disso, você sabe. Quero que você seja você mesmo. Você mesmo me disse, está aqui anotado no meu caderninho, que "somos perfeitos quando somos nós mesmos".

ROGER - Quer que eu seja como eu ? Ah, Ah ! E quem sou eu ? E quem é você, Lou ? E quem somos nós, afinal ? Não somos nada além de um conjunto disforme e desesperado de pantomimas que em vão tentam desviar nossa atenção daquilo que realmente é a única coisa que existe: o desejo !

LOU SALOMÉ - Uau ! Sensacional ! Só um minuto, deixa eu pegar minha caneta ! Eu quero anotar essa sua frase ! Não posso esquecê-la ! Não imagina como o brilho de sua inteligência me deixa excitada, Roger !

ROGER - Putz...

LOU SALOMÉ - Ah, Roger... tenha paciência comigo. Eu sou a mulher perfeita. Independente, corajosa, bonita, forte, tenaz e soberanamente gostosa. E nenhum homem me domina ! Você quer me envolver da mesma forma que quer envolver o mundo inteiro. No fundo é uma criança gulosa. Devia conversar com o Freud. Essa sua ânsia por mim, na verdade, me deixa muito excitada. Mas não posso trair a mim mesma. Eu preciso me manter livre ! Seu espaço é perigosamente erótico. É um labirinto de corredores espelhados. Tudo que eu poderia ver seria minha própria imagem fugindo de mim mesma, sem saber para onde ir. Por isso, em nome do nosso amor eterno, tudo que lhe peço é: não toque em mim como se eu fosse o esconderijo dos seus desejos. E Roger... tem mais uma coisinha...

ROGER - Diz meu bem...

LOU SALOMÉ - Eu estou apaixonada pelo Freud...

ROGER - Pelo Freud ?

LOU SALOMÉ - Ah, você já sabia disso. Esse seu ar de espanto ficou super falso.

ROGER – Mas... e eu ? E nós, Lou ? O que será do nosso futuro ? O que será do futuro dos homens e das mulheres do planeta Terra ?

LOU SALOMÉ - Roger. Não se sinta diminuído por causa do Freud, ok ? Com ele quero ter uma relação entre homem e mulher. Com você eu quero ter uma relação entre almas. Com você eu quero a perfeição. Com Freud eu quero o sexo.

ROGER - Mas ele fica ruborizado quando fala em sexo !

LOU SALOMÉ - Ah, ah, ah. É ! Não é uma gracinha ? Ah, Roger, devia ficar orgulhoso por eu colocá-lo num patamar tão superior ao do pai da psicanálise. E Roger...

ROGER – Diga, Lou...

LOU SALOMÉ - Vem aqui, deixa eu te dar um beijinho. Agora vou me vestir. Hum. Onde está minha calcinha ?

ROGER - Alí, ó... em cima daquela coletânea de poemas do Rilke.

LOU SALOMÉ - Ah, ah ! Irônico, não é mesmo ? Bom, tenho que partir para Viena. Eu e o Sig combinamos de ver uma apresentação de Tristan Und Isolde.

ROGER - Você é linda, Lou.

LOU SALOMÉ - Você também, Roger...

ROGER - A propósito, quando chegar em Viena pode ver pra mim quanto está custando uma boneca inflável ?

LOU SALOMÉ - Ah, Roger ! Não é o tipo de mulher pra você ! O seu tipo sou eu...

ROGER - Sua cadela...

LOU SALOMÉ – Pára, Roger ! Você sabe o quanto fico irritada quando me deixa excitada !

Eu sou muito mais antigo do que eu



O Astronauta, enfim maduro e apto para voltar à Earth Planet, despediu-se dolorosamente de quem mais o ajudou durante seus trinta anos de confinamento no esçao sideral: a Dama do Tempo Lady Sometimes. As últimas palavras dela foram:

"não... você não é mais um menino...
você, agora, é o seu destino...
você é muito mais antigo do que você
veja seus olhos ingênuos
suas mãos inocentes
veja seu corpo sem gravidade
veja seu sorriso invisívelveja seu suor, sua lágrima...
sinta seu coração e seu sangue
veja-se infinitamente por um instante !
tudo que você é, esteve no Big Bang...
o tempo todo...
o futuro almejado e o passado que falta
serão para sempre o seu presente...
adeus, meu querido Astronauta..."
E quando voltava para o seu planeta, deitado na poltrona de comando da nave branca Interestellar Overdrive, o Astronauta, depois de horas em triste silêncio, disse para o computador de bordo Messias Machine:

"O que pude entender, meu amigo, é que no início de tudo estávamos todos juntos, no Big Bang... tudo que houve ou haverá concentrado num único ponto inicial aquém do tempo e do espaço... então o drama da vida explode de repente: tudo expande-se espetacularmente... e se afasta... desde então estamos cada vez mais distantes... tudo se distancia... para sempre... será o universo uma manifestação de Deus ? Ou de adeus ?"

Dream Green Bathroom



Roger visita pela primeira vez a casa de sua namorada, Elizabeth, que mora com os pais. Ele está no banheiro, trancado. Liz está do lado de fora, ansiosa.

LIZ - Roger ? Tá tudo bem ?

ROGER - Tá Liz, tá tudo ok...

LIZ - Roger, meus pais estão perguntando por você, pôxa. O que está havendo ? Você está há duas horas no banheiro, sabia ?

ROGER - Eu... eu vou depois, Liz... me deixa ficar mais um pouco aqui...

LIZ - Como assim "depois" ? Roger, deixa eu entrar ?

ROGER - Eu já vou Liz, espera um pouco...

(pai de Liz se aproxima)

PAI DE LIZ - Liz ? Tudo bem ? E o rapazinho ? O jantar está na mesa...

LIZ - O Roger já está indo, Pai... ele está no banheiro...

PAI DE LIZ - Ainda ?

LIZ (impaciente) - É pai, é... ele já vai, tá ?

PAI DE LIZ - Mas, ué ? Ele chegou já faz umas duas horas, mal deu um oi pra gente e foi direto pro banheiro... ele tá passando mal ?

ROGER - Eu tô bem, eu tô legal... eu já vou lá, ok ? Podem jantar, mais tarde eu apareço...

LIZ - Roger, para com essa palhaçada !

PAI DE LIZ - Tem certeza que ele está passando bem, minha filha ?

LIZ - Roger, deixa eu entrar ! Abre essa porta !

(mãe de Liz se aproxima)

MÃE DE LIZ - O que está havendo ?

LIZ - Nada, mãe ! Nada !

PAI DE LIZ - O rapazinho se trancou no banheiro faz duas horas...

MÃE DE LIZ - Liz, é o seu namorado que está no nosso banheiro ?

LIZ - Tá tudo bem mãe ! Roger abre a porta, poxa vida !

ROGER - Eu estou bem... podem ir jantar, eu só quero ficar mais um pouco aqui...

MÃE DE LIZ - Ele usa drogas, minha filha ?

PAI DE LIZ (educadamente) - Rapaz ? Quer abrir a porta, por favor ?

LIZ - Que sacanagem, Roger... pra quê fazer isso ?

ROGER - Eu estou ok, tá legal ? Parem de me encher o saco... vão jantar, vão ver tv, o escambau... mas me deixem sozinho !

LIZ (começa a chorar) - Roger, abre a porta... que saco isso !

MÃE DE LIZ - Liz, onde você conheceu esse moço ?

LIZ (senta no chão, encostando-se na porta, desanimada e chorando, respondendo para a mãe olhando de baixo pra cima) - Na internete, mãe, eu te falei dele...

PAI DE LIZ (zangado) - Mas... minha filha ? Você trouxe uma pessoa da internete pra dentro da nossa casa ?

MÃE DE LIZ - E se for um psicopata ?

LIZ - Ele é bonzinho mãe... já faz dois anos que a gente se conversa por icq...

ROGER - Dois anos e meio...

LIZ (levanta do chão e tomada de fúria começa a dar murros na porta) - Roger, cala boca e abre essa porta seu desgraçado !

PAI DE LIZ - O dono da casa sou eu, rapaz ! E abre já esta porta !

MÃE DE LIZ - Eu vou chamar a polícia !

LIZ - Não mãe ! Não faz isso !

PAI DE LIZ - Abre esta porta, rapaz, imediatamente !

ROGER - Eu não vou abrir ! Saiam ! Vão embora !

MÃE DE LIZ - Pois eu vou chamar a polícia viu, rapazinho mal educado ? Onde já se viu entrar na casa dos outros desse jeito ?

ROGER (despreocupado) - Pode chamar a polícia, eu não estou neeeeeem aí...

LIZ - Mãe, pai... parem... deixa eu resolver isto com ele... Roger ? Eu quero falar com você aí dentro...

MÃE DE LIZ - Elizabeth, não entre nesse banheiro ! Esse rapaz pode ser um louco violento ! Você está proibida de entrar !

LIZ - Pára, mãe ! Pai... mãe... vão lá jantar que eu resolvo...

ROGER - Isso, me deixem em paz... vão jantar e esqueçam de mim... que saco... que gente mais chata !

LIZ - Roger ! Fica quieto !

MÃE DE LIZ - Nunca mais, minha filha ! Nunca mais eu deixo você entrar nessa maldita internete ! Passa a madrugada falando com esses malucos e depois traz eles aqui pra dentro da nossa casa !

PAI DE LIZ - Olha Liz, você sabe que eu estou sempre do seu lado, mas desta vez a sua mãe tem razão...

ROGER - Não é verdade ! Na internete tem um monte de gente tri legal...

PAI DE LIZ - Tri legal ?

LIZ - É, pai... é... ele é gaúcho...

MÃE DE LIZ - E ainda por cima é gaúcho ! Liz, eu vou falar amanhã mesmo com o doutor Augusto, você vai voltar imediatamente pra terapia !

PAI DE LIZ - A sua mãe está certa, Liz, você está precisando de um acompanhamento...

ROGER - Não é verdade ! A Liz é a coisa mais linda do mundo...

LIZ (chorando) - Roger, seu desgraçado !

MÃE DE LIZ - E não se meta, rapazinho, que é conversa de família ! E quer saber ? Eu vou contar até três ! Se não abrir a porta eu chamo a polícia !

LIZ (chorando) - Não mãe, por favor !

ROGER - Pode chamar a polícia ! Eu não vou sair ! Vão ter que arrombar a porta do banheiro !

LIZ (chorando) - Pai... saiam do corredor... deixa eu resolver com ele...

PAI DE LIZ - Mas minha filha, ele pode ser perigoso...

LIZ (parando de chorar) - Mãe, deixa comigo, mãe... eu falo com ele... vão jantar, em cinco minutos estaremos todos na mesa e vocês vão ver como ele é um rapaz maravilhoso, tá legal ?

MÃE DE LIZ - Ok, cinco minutos ! Mas eu estou com o telefone na mão ! Se passar de cinco minutos vai ter o maior escândalo aqui em casa porque eu vou chamar a polícia, os bombeiros e o pessoal do hospício ! Pra levar vocês dois !

LIZ - Tá mãe, tá...

(os pais de Liz saem)

LIZ (voltando a chorar) - Roger... por quê está fazendo isso comigo ? Na internete você sempre foi tão atencioso e simpático...

ROGER - Mas eu não fiz nada, Liz... eu só estou no banheiro, seus pais é que vieram dar uma de ditadores pra cima de mim...

LIZ - Roger... deixa eu entrar...

ROGER - Ok, eu deixo... mas... sem truques ?

LIZ - Ok, sem truques, vou entrar numa boa...

ROGER - Você sabe que eu sempre te dei confiança, né Liz ? Não vai me enganar agora, né ?

LIZ - Eu sempre te dei confiança também Roger... mas olha o que você fez !

ROGER - Poxa, e agora eu não posso ficar um pouco sozinho ?

LIZ - Claro que pode, Roger, mas justo quando quis te apresentar para os meus pais ? E eles são super legais...

ROGER - Legais ? Eles estão quase te colocando num hospício ! E que eu saiba no hospício não tem internete, quero só ver como você vai agüentar...

MÃE DE LIZ (lá de dentro) - Liz ?

PAI DE LIZ (se aproxima e começa a bater na porta) - Rapaz ! Abre esta porta imediatamente !

LIZ - Calma pai, calma, ele vai me deixar entrar !

ROGER - Eu abro, eu abro... mas antes quero que prometam que não vão proibir a Liz de se conectar na internete...

PAI DE LIZ - Como é que é ?

LIZ - Ai meu deus...

MÃE DE LIZ (se aproxima furiosa) - Que história é essa, hein ? Ele ainda tá querendo impor condições ?

LIZ - Mãe, pai... aceitem, aceitem... depois a gente resolve...

ROGER - Liz, entra aqui...

PAI DE LIZ - Não, minha filha !

MÃE DE LIZ - Sai daí seu sem vergonha !

LIZ - Mãe ! Não fala assim com ele ! Ele não é sem vergonha... ele... ele só é um pouco envergonhado, coitadinho... ele quer tanto agradar vocês que teve esse ataque de timidez, poxa... a culpa é de vocês !


Roger abre a porta, mas bem pouquinho, o suficiente apenas para Liz passar. Liz entra mas o pai e a mãe de Liz resolvem querer entrar também, e inicia uma luta nada elegante de empurra-empurra. Do lado de fora do banheiro, os pais de Liz tentando abrir. Do lado de dentro, Roger e Liz empurrando a porta para fechá-la, até que vencem a batalha, batem a porta e se trancam.
Roger beija Liz calorosamente. Ela sorri.

Os dois tiram a roupa e tomam juntos um banho romântico.

Surdos aos gritos vindos do corredor.
Surdos às pancadas na porta.
Surdos à sirene estridente da polícia.
Surdos às ameaças dos policiais e a seus pontapés na porta do banheiro.
Surdos ao barulho da multidão lá fora.

A porta do banheiro é arrombada escandalosamente. Os curiosos entram. Três policiais armados apontando seus revólveres para todos os lados como se fossem da SWAT, os atônitos pais de Liz, alguns vizinhos, dois enfermeiros grandalhões, um repórter, um câmera, e uma fotógrafa que, enternecida, flagra os dois na banheira, beijando-se como se nada mais houvesse no mundo senão seu Dream Green Bathroom.

Feliz Aniversário Em Duplo Sentido



Will Hugeon Tupple é um escritor escocês que todos os anos festeja seu aniversário, em Glasgow junto à sua amiga de infância Anne Wayne Pitermann. Eles só se vêem nesse dia, e contam, um para o outro, com intimidade profunda e confiança bem humorada, como foram suas vidas no ano que passou.

Anne Wayne é inquieta e perseverante. Viaja pelo mundo acumula maridos e carreiras, e sente-se sempre infeliz. Will Hugeon é triste e artístico. Também não encontrou a felicidade e trancou-se em casa desde o dia em que Anne Wayne foi embora para a América, vinte anos atrás. O mais duro golpe que ele sofreu na vida. Desde então só vê sua amada no aniversário de ambos.

Anne Wayne sabe viver, mas não sabe para onde ir. Will Hugeon não sabe viver, mas sabe para onde ir. Caminhos diferentes num mesmo labirinto de frustrações.

Após anos de angústias e distância, os dois, enfim, decidem viver juntos e reiniciar suas vidas. Anne Wayne abandona seu sexto marido e sua trigésima carreira. E volta, mais calma e madura, para Glasgow. Will Hugeon, mais corajoso e sensível, deixa que Anne faça parte de sua vida.

Promovem, então, um inusitado aniversário. Sobre o bolo, colocam velas com o número zero. E nem é o dia do aniversário de Will Hugeon e de Anne Wayne. Convidaram seus amigos de verdade, como se fosse um sonho simples com uma pequena platéia.

Ficaram felizes. Ainda que com aquele medo, sabe ? Aquele medo de quem teve uma vida em que nada deu certo, na verdade. Mas que repentinamente encheu-se de esperança.

"não posso lhe prometer nada, Roger... mas voltei aqui por você, por mim, por nós... e desejo ficar para sempre... estou até acreditando que vai dar certo, saca ? eu quero me permitir ser um pouco menos tola em relação aos homens... e um pouco mais tola em relação à felicidade..."

"e aquela sua alergia contraída em Los Angeles ?"

"passou desde que voltei para Glasgow..."

"feliz aniversário para sempre, Anne."

O Fantasma de Platypus Renaissance



Um amargurado e recém falecido jovem volta ao mundo para procurar o que lhe falta. Ele só consegue isso quando convive com Abighail Morris Logan, uma solteirona:

"olha, Roger, sei que você é um fantasma, e tal... mas sou a única mulher capaz de não se assustar com você, e de aceitar você como você é... você é muito carinhoso e correto comigo, como nenhum homem jamais foi... mas... Roger ? você voltou ao mundo por mim ou pra ficar usando a minha internete ?"

"peraí, fofa... só vou postar no fotolog e já te dou atenção total, ok ?"

The Web Necromancer



Iadohl Androfauszt Plaffshcinack, um cientista esotérico de Nepomuk, República Tcheca, inventa um software capaz de colocar o usuário em contato, on line, com o mundo dos mortos, o "MSN Pozlano Bozstui" ("mundo oculto", em tcheco).

E graças à sua criação, descobre que "a mulher da sua vida" não está no mundo dos vivos. Chama-se Iriana Shardonaize Chipllip, uma linda e jovem belga viciada em internete, que há sete anos morreu durante um incêndio em sua casa, por relutar em sair de uma discussão sobre o suposto talento de Cindy Lauper numa sala de chat.

Os dois apaixonam-se dolorosamente, visto que o contato físico é impossível.
Uma típica paixão de internautas.

- Iriana... vou me matar... para que possamos nos encontrar... eu sempre lhe disse que quem ama de verdade não sabe esperar...

- pára, Roger ! não faz isso ! dá um tempo... aliás, você, de longe, já passou da metade da vida, né ? então agüenta mais um pouquinho aí, ok ? além do mais, se você se matar não poderá me encontrar aqui na cidade onde estou... será enviado para o inferno, sabia ? e no inferno só tem conexão discada !

O retrato encontrado numa das gavetas da escrivaninha da nave branca



Meu presente é uma foto que encontrei numa das gavetas da escrivaninha simples da nave branca.

O futuro capta o instante pequeno e distante.
Revela a câmera como tudo era antes,
passado a limpo no papel,
registro de mim antigo atual fiel.
Tudo era harmônico e pleno.
Tudo era extremo e sereno.
A vida era arte e tristeza.
E verdadeira era toda a beleza.

Eternamente passado juvenil e puro,
meu destino, meu futuro,
é mantido para sempre neste repente casual,
tal qual o tempo, sempre tempo, sempre igual...

Foram os últimos momentos realmente meus.
Expulsei-me deste retrato de sonho,
saí dali de dentro, deixei para sempre de ser o menino deus.
E me dirigi à realidade, à vida, ao centro.

Restou minha expressão estática,
e nada mais houve adiante.
Moldada e artisticamente dramática,
minha vida toda, realmente,
foi naquele instante.

Olhando para trás vejo meu futuro de estrela criança se afastando. Olhando para frente vejo Happy Harbour da minha infância me esperando. A Interestellar Overdrive oscila entre meus tempos interiores. Flutua ao sabor das emoções que escolhi, e sobrevive. Não estou aqui...

Nunca estive...

Feliz Edredom Novo



A gata húngara Jász Kiskun Szolnok, que tem síndrome das pernas inquietas, e salva-se deste mal através de uma terapia artística que consiste na prática livre de pintura psicodélica sobre cobertores.

Como prova da produtividade desse intento, ela decora com esmero um belíssimo edredom fofo e estético e dá-o de presente para o seu dono, o escritor subversivo Györ Moson Zalaegerszeg.

E fica muito orgulhosa de seu trabalho.

No fim, a gata Jász apaixona-se e casa com o gato Kekskernet Hajdu Salgótarjan, um especialista em hermenêutica, que também fez o mesmo tratamento. E os dois dormiram juntos pelo resto de suas vidas felinas. Sem mexer as patas.

E daqui a 50 anos eu ainda estarei esperando


O amor é um azar

Somos amantes. E pensamos tristemente nas mínimas chances que o futuro dará ao amor infinito que cultivamos um pelo outro. Ela atiça o fogo da lareira de sua imaginação ansiosa, na esperança de aquecer o ambiente e os desejos.

- Você devia ter uma lareira, Roger...

- Hum... boa idéia... acho extremamente sensual uma lareira acesa... o calor do fogo dominando os corpos e os instintos...

- Ah, Roger... eu acho que tudo pode ser excitante...

- Bom... ainda não atingi este estágio de tara... eu não fico sexualmente empolgado vendo uma retroescavadeira, por exemplo...

- Ah ah ah - ela riu, tristemente - vem aqui, tenho uma idéia...

Em último estágio de desesperança, ela propõe-me que joguemos os "dados do amor". Num deles, as opções são "beijar", "lamber", "acariciar", "morder", "soprar" e "sugar". No outro dado, as opções são "pés", "mãos", "pescoço", "peito", "boca" e "vergonhas". Olhamo-nos com melancólica ternura até lançar os dados do nosso destino. O resultado foi: "soprar o pé":

- Fuuuuuuuuuu...

- Hi hi hi hi hi...

Machowarriors



O poeta bárbaro Roger DeMaio, filho de Svengordensen, do reino de Thuran era apaixonado pela veterinária de dragões Faustina Porshe, filha de Youngtull, do reino de Vienah.

Roger DeMaio, filho de Svengordensen do reino de Thuran convidou seus amigos, o ferreiro Sorgen Gallimar, filho de Plenthit, do reino de Quermin, o pastor de ovelhas Ralphmen Gate, filho de Jargul, do reino de Hellixdear e o carpinteiro Adam Kaynes, filho de Ammon, do reino de Siberian, para formarem uma banda de rock, os "Machowarriors".

A intenção era impressionar Faustina Porshe, filha de Youngtull, do reino de Vienah, já que, como guerreiro, ele era desastrado e foi dispensado do exército do rei depois de, acidentalmente, dar um golpe de espada na bunda de seu próprio general, Igor Lartimer, filho de Ebeneis, do reino de Meninsool, na batalha de Roantnger, vencida pelo exército de Hoederlin Flame, filho de Gobelin, do reino de Neadilles.

A banda fez muito sucesso, mas apenas entre jovens idiotas. E Faustina Porshe, filha de Youngtull, do reino de Vienah, depois de assistir um show da banda, foi falar com Roger DeMaio, filho de Svengordensen, do reino de Thuran, no camarim:

- olha, Roger DeMaio, filho de Svengordensen, do reino de Thuran... francamente, cara... que babaquice é essa ? olha esse visual ? você andou malhando ? nunca deu importância pra isso ! e essas botas de travesti ? pra que isso ? o Roger DeMaio, filho de Svengordensen, do reino de Thuran, que qu conheci era um poeta sensível, meio inábil com a espada e tal... meio incompetente com as coisas, mas muito bom com as palavras e muito carinhoso... e agora tá paracendo o lider do Village People da Idade Média ! qualé meu ?

- porra, Faustina Porshe, filha de Youngtull, do reino de Vienah, porque você não reconhece o meu esforço e a minha macheza ? não prestou atenção nas letras ? não achou o máximo a atitude artística ? somos os maiores machos da juventude ! quando eu fazia aqueles poemas emos você dizia que era legal e tal, mas ficou com o Petronius Klein, filho de Betel, do reino de Ardósia, aquele asno poser que usou tiara no cabelo até na batalha de Querrymore ! eu amo você... eu quero que saiba que posso ser o seu homem, o seu macho, o seu guerreiro, saca ?

- com essa roupa, bofe ?

No fim, Faustina Porshe, filha de Youngtull, do reino de Vienah, foi para o norte e arrumou um bom emprego no reino de End Colony, e passou o resto da vida se divertindo pacas. Por sua vez, Roger DeMaio, filho de Svengordensen, do reino de Thuran, abandonou tudo e todos e foi para o sul, isolando-se na fria e úmida caverna Cold Drawer, onde passou o resto da vida submerso na escuridão da sua tristeza, como um guerreiro vencido, ouvindo músicas de Syd Barrett, para lembrar da infância, de Ian Curtis, para lembrar da adolescência, e de Kurt Cobain, para perceber-se velho.

E para lembrar de Faustina Porshe, filha de Youngtull, do reino de Vienah, ele ouvia a mais bela das canções:

o silêncio.

Os roedores apaixonados



Epareceram aqui em casa... do nada...
A gata Morgana observa-os sonolenta e ensolarada...
E eu percebo eles num realismo sem fim, triste por mim...
Pois só assim o amor se expressa no meu festim de delírios e desejos perdidos:

Numa esquizofrenia de beijos e esquilos.

As amoras impossíveis

- Princesa Esfinge Belíssima Tamara...
Esqueci de dizer pra você
Que estou aqui e é teu meu coração
Que isolado meu caminho é tão difícil
E sombria é a nuvem sensação
Que a minha emoção é partida
E que a minha razão é um destino
Que perdido não resisto ao castigo
De não dividir o meu rumo contigo
Que a solidão e o perigo me fizeram
Suplicar por tua força e compreensão
Que você é a minha redenção...

- Roger... não me ame
Meu abraço é insensível
Meu corpo é invisível
Meu coração é imprevisível
Minha solidão é indivisível...

- Mas... mas... mas... mas Tamara...
O que há que nos separa ?
Será que me ofusca teu albedo
E te abraço pensando envolver o medo ?
Que universo há entre nós ?
Que verso há entre sós ?

- Sabe-me... e nem eu sabia...
Ama-me... e nem eu amava...
Vive-me... e nem eu vivia....
Sonha-me... e nem eu sonhava...

- Sempre sós...
Seremos nós a procura de um meio ?
Seremos nós o sonho em desuso ?
Serei eu o astronauta recluso ?
Será você a garota do espelho ?
Ou somos ambos o reflexo e o espaço ?
Ou somos ambos o nexo e o laço
Entre nós ?

Regresso à Earth Planet.



ASTRONAUTA – Oh ! Anjo intergaláctico White Intermediate ! Graça dupla recebê-lo em minha espaçonave ! Em circunstâncias sem relevo vossa loquaz presença já representa incontrovertível adição de mistério, sofisticação e sabedoria à minha monótona planície existencial, de tal forma que os significados todos de nossos encontros jamais se vestem com as roupas casuais do cotidiano. Mas eis que me encontra num momento ritual e único ! Estou de partida. Irei, em definitivo, para Earth Planet. Meu olhar empedernido contempla, por uma vez última, o cenário mínimo e infinito de minha epopéia de mim no espaço.

WHITE INTERMEDIATE - Contento-me ! Para Earth, Astronauta ! A vida te espera, atônita !

ASTRONAUTA - A dúvida ainda assombra a minha vontade de viver, como um espectro que traz notícias do meu fim. Mas o que de mim inclina-se sem temor ao dever, impele-me a regressar de onde vim !

WHITE INTERMEDIATE - Pois faça-o ! E tirai as nuvens deste rosto sombrio e vago, que a tristeza não será bem recebida ! Não prossigas assim, de olhar caído. Despe-te desse luto e deita olhar amigo ao teu planeta !

ASTRONAUTA - Ah ! Hostil desenlace ! Adeus nave branca ! Adeus Messias Machine ! Adeus querido vácuo que em vão tentei preencher com minhas memórias sem chão e com o meu coração sem histórias. Ah ! Prometeram-me que seria rápido e indolor. Mas será apenas rápido. Já vistes como o existir é célere ?

WHITE INTERMEDIATE - Tão rápido quando o golpe de machado do algoz.

ASTRONAUTA - Mas como determinar o tempo se este oceano de amarguras eternas não tem fundo e se este céu de esperanças despedaçadas não tem zênite ?

WHITE INTERMEDIATE - Caro Astronauta, não darei crédito indevido aos gemidos de teus versos ressentidos. Preferirei sempre os enunciados mudos de teus universos perdidos. Teus versos compreendem tão somente tuas dores e teus amores. Teus universos nada compreendem. Quem sabe aí tenham a sabedoria impoluta das crianças, pois são espontâneos e soberanamente lhanos, ainda que muitas vezes esquipáticos.

ASTRONAUTA - Ah ! mestre White, mestre White ! Diga-me, se tal pensamento não avilta o bem estar de teu espírito, o que causa maior angústia ao coração do que a despedida ?

WHITE INTERMEDIATE - Pensai com serenidade por um momento, ainda que a razão claudique diante de tais sentimentos. Quem sabe sejas desses que têm na paixão uma medida irrefreável tanto na aproximação quanto no afastamento. Então que ambas atitudes vêem-te com explosiva intensidade de dores e amores. E a ansiedade tinge tuas palavras com as cores da volúpia, do medo e da saudade. Não. O tempo não lho importa quando a convicção domina tuas decisões. Tão pouco quando nem a imaginação lhe dá um rumo. Mas por obséquio, Astronauta, não chamai-me por mestre. Apenas minhas próprias dúvidas seguem-me cegamente.

ASTRONAUTA - Não tenho mais espaço no universo. De peito aberto desço a ladeira íngrime entre o céu e a vida, tendo como posse apenas minhas incertezas.

WHITE INTERMEDIATE - É de bom alvitre tomá-las como teu mais precioso patrimônio !

ASTRONAUTA - Sobra-me somente a atitude de gratidão. Não oponho obstáculos à confissão íntima de que teus ensinamentos constituem a sagrada bíblia dos momentos mais difíceis e nobres da minha vida !

WHITE INTERMEDIATE - Ah, a vida ! Antes de tudo, evite evitá-la ! Ela te espera ansiosa, como Ofélia à Hamleto. Êxito em tua missão, meu amigo ! Antes que a vida enlouqueça por ti. E não esqueças de que os Fundos de Renda Fixa estão mais favoráveis. Sobretudo os de Commercial Paper e de Debt Securities. Comodities também estão em alta. Papéis fortes, Astronauta Roger ! É do que precisas ! Mas cuidado ! Não precipita-te a enriquecer sem zelo através de alavancagens fictícias enquanto estiveres com emoções tão vacilantes. As oscilações do mercado provocar-lhe-ão náuseas ao invés de ânimo, e precisas, antes de lucro, de vida !

ASTRONAUTA - Obrigado, não esquecerei, anjo intergaláctico. Minhas aplicações serão fiéis a mim.

WHITE INTERMEDIATE - E dólar só lá por outubro. E ponhas sempre dúvidas sólidas entre ti e a sedução dos fundos cambiais ! CDB nem pensar por enquanto ! Muita atenção aos Debentures ! Escuta-me: ignorai sem piedade o IGPM ou o IPC antes de decidir o destino de tuas ações na Terra. E lembrai que o Dow Jones lhe será sempre um guia confiável e familiar.

ASTRONAUTA - Está, está, está ! Tranqüiliza-te ! Estarei atento às armadilhas. Agora tenho que ir !

WHITE INTERMEDIATE - Ah ! E quanto às cotações da Nasdaq preciso advertir que...

ASTRONAUTA - Não, White, não dizei nada mais ! Meu agir é tardio o suficiente. A vida espera, atônita, por minhas ações, tal qual o dissestes. Eu tenho 8 cruzeiros e 50 centavos a título de Capital de Giro Líquido. Acho que é o suficiente para me prevenir das agruras do mundo financeiro. Adeus !

WHITE INTERMEDIATE - Coragem, Astronauta ! Bravura e garra ! Alto ainda está o risco Earth Planet ! Mas confio que mantenham-se em alta as ações da Astronaut Roger Entertainment Co. ! Adeus !

Hermenêutica de Sulzbach



Heinrich Bopp Sulzbach, um dramaturgo desempregado de Frankfurt, Alemanha, após descobrir a falha funcional da bomba de sucção de sua máquina de lavar roupas, resolveu reinterpretar sua vida e reavaliar seus objetivos existenciais.

Como conseqüência disso, desapegou-se das futilidades que o envolviam: a busca do sucesso, os bens materiais, a depressão, o medo de amar, a paixão por carros Porsche.

E, após anos de silêncio, tomou coragem para declarar seu amor por Sabine Grobschnitt, a bibliotecária do instituto de artes, ajoelhando-se diante dela na biblioteca, para espanto de todos:

- Sabine... minha querida Sabine...
eu te acho linda
das pernas ao pescoço
da cintura ao rosto
dos pés aos seios
dos joelhos à boca
eu te acho linda o tempo inteiro
e entrego à beleza o meu anseio...

Heinrich conquistou o coração de Sabine. Porque, mesmo ela não achando ele grande coisa, se sentiu amada de verdade, com toda a sinceridade e dedicação de um coração. E isso, acima de qualquer bobagenzinha, é o que uma mulher, realmente, quer.

Saca ?

Eu acho peixe um saco (só fica naquele "blub blub blub")



(letra para um blues)

num dia de tédio
olhando o aquário
me sinto um otário

eu acho peixe um saco
só fica naquele "blub blub blub"...

meu corpo inteiro está torto
meus pensamentos sem nexo
vejo o reflexo no vidro
aquele olhar fixo
não sei se o peixe está morto
não sei se estou vivo
não faz mais sentido
nesse dia perdido
me sinto um caco...

eu acho peixe um saco...
só fica naquele "blub blub blub..."

flutuar sem destino
há quem não se queixe
ficar sem saída
viver como um peixe
olhando minha vida
num dia sem graça
trancado em casa
pra lá e pra cá
ele deve pensar:

eu acho gente um saco...
só fica naquele "blub blub blub..."

Companheirismo e compreensão



Esta é a a história de um elefante baixinho que tinha problemas de relacionamento com os outros de sua espécie porque era o único que gostava de rock progressivo. O nome dele é Cherrizudo, e está conversando com a elefoa Fofuda, que é sua grande paixão e é a única que compreende o seu gosto.

"Olha, Roger... eu curto um som mais pop, mais de dançar e tal, saca ? Mas eu respeito o seu gosto. E às vezes até acho legal ouvir com você aquelas suítes progressivas de 23 minutos, com intermináveis solos de guitarra, teclados megalomaníacos, vocais teatrais e temática pretensamente erudita. São os únicos momentos em que vejo você demonstrar alguma emoção. E isso me comove, saca ?"

"Porra, Fofuda ! Meu nome não é Roger ! Meu nome é Cherrizudo !"

"Ai ! Desculpa, Cherrizudo ! Esqueci ! Hihihihi... viu ? Às vezes até os elefantes esquecem ! Hihihihi..."

Thick as a brick



O Sr. Windsor Thorpe é um escritor frustrado e funcionário da Westminster Royal Academy Of Literature. Ao organizar um concurso literário juvenil, ele sucumbiu à própria inveja e eliminou o texto poético e crítico do genial garoto Gerald Bostock, por considerar o conteúdo "subversivo e danoso à moral britânica". O prêmio principal foi para o texto da menina juca Mary Whiteyard, por sua redação cristã em "Ele morreu para salvar as criancinhas."

No fim, a justiça foi implacável. Gerald Bostock tornou-se um rock star de uma banda de "celtic rock" e Mary Whiteyard foi traída pelo marido, que passou a ter um romance com um padre anglicano.

Já o Sr. Windsor Thorpe passou o resto dos seus dias corroído pela culpa, pela solidão e pelo álcool.

O amor, tecnicamente



- Ok, baby, entregarei, tecnicamente, meu coração pra você. Mas, diga-me: você é, tecnicamente, uma pessoa mulher intelectualmente inquieta e sexualmente vulnerável ? Não sou exigente, não pense isso de mim. Mas é que eu gostaria de, tecnicamente, me sentir venerado por você, apesar de eu não ser aquilo que você, tecnicamente, designa como "um intelectual". Apenas desejo que você, tecnicamente, se antecipe e me receba sempre com gritinhos, tecnicamente, lancinantes e abraços, tecnicamente, infinitos. Então a luz iluminará meu olhar e, tecnicamente, aquecerá meu encanto por você. E serei o amante que você, tecnicamente, sempre quis.

- Roger, você é uma pessoa ?

- Tecnicamente, sim.

- Você está parecendo o Messias Machine falando.

- Eu peço, tecnicamente, que me desculpe. É que o computador de bordo utilizou esta fala para, tecnicamente, conquistar o amor da cafeteira elétrica Scarecrow Comprehensive. E, sabe ? Deu, tecnicamente, certo.

- Roger ! Eu não sou uma cafeteira elétrica, ok ? E... e eu não quero ser amada tecnicamente ! Tudo bem, sou obrigada a admitir que você acertou quando sugeriu que eu fosse uma mulher intelectualmente inquieta e sexualmente vulnerável. Acertou na mosca. Fiquei impressionada com o seu tato psico-afetivo, até. Mas daí você vem com esse papo de amor técnico ! Estragou tudo ! Que saco...

- Eu quero, tecnicamente, namorá-la...

- Tá, Roger.

- O que significa, tecnicamente, esse "tá" ?

- Significa que, tecnicamente, eu acho que isso não vai dar certo, Roger... mas que mesmo assim eu aceito...

- Posso, tecnicamente, beijá-la ?

- Como se eu fosse uma cafeteira elétrica ?

- Dispenso os atributos de cafeteira, mas não abro mão das suas características "elétricas"...

As girafas petrificadas



Em Earth Planet, Sun System, Milky Way, um acidente genético causou a hiper veloz procriação das girafas. Girafas, girafas e mais girafas nasciam sem parar em ritmo impressionante. Em pouco tempo os continentes ficaram cobertos de girafas, os oceanos transbordaram de girafas, as cidades de todas latitudes e longitudes ficaram soterradas de girafas.
Impotentes diante do fenômeno, os humanos assistiam sua própria destruição.

Formaram-se montanhas de girafas, que não paravam de nascer. Só as girafas da superfície deste monte ainda viviam, enquanto as demais, já mortas, proporcionavam um insuportável cheiro de carne podre. A inevitável alteração química da atmosfera matou os poucos homens que ainda viviam naqueles "escombros girafais". A proliferação frenética do pescoçudo animal continuou, até que o planeta Terra escapuliu de sua rota orbital vagando pelo espaço como um globo triste, congelado e sem esperança, fugitivo do sistema solar, perdido na imensidão escura do vácuo intergaláctico.

Dez milhões de anos depois, esta pedra insignificante e absurda, coberta de girafas petrificadas, invadiu um sistema solar, colidindo-se com um planeta evoluído e feliz, matando toda sua população.

Os estilhaços do choque planetário atingiram um planeta próximo, dizimando um terço de sua população e deixando os demais submetidos à fome.

Meu coração distante em Horse Head Nebula



- Minha amada...
forme-se-me
como uma mulher formada
desinforme-me dos meus medos
com suas formas abençoadas
deforme minhas perspectivas
com a formação intrínseca
do teu olhar para sempre...

Então nos abraçamos sem nós.
Para sempre.
Eu sou feliz. Mas o meu coração não é.

Sagrado coração em chamas



Na páscoa assisto a procissão
Perdido entre a multidão
Quando vejo o Messias passar
Eu sinto meu corpo mudar
Transforma-se todo em madeira
Braços pernas e cabeça
Estático em forma de cruz
Só queima em meu peito uma luz...

(coro)
Sagrado coração em chamas
Sagrado coração em chamas...

Soldados me erguem do abismo
Me jogam nos ombros do Cristo
Que em prantos de amor me abraça
Carrega com dor pela praça
Meu corpo de cruz que maltrata
O Filho de Deus que me arrasta
Sou morta madeira pesada
Mas meu peito está em brasa...

(coro)
Sagrado coração em chamas
Sagrado coração em chamas...

Em frente à população
Cravam meu corpo no chão
O Cristo crucificado
Agora está preso em meus braços
Sua dor divina me aquece
E meu corpo de cruz amolece
Caímos no chão abraçados
Eternamente amarrados
Ele perdoou meus pecados
Mas deixou meu coração congelado

Sua condolência inflamou minha dor recente
E Seu coração pascal dilacerou a minha mente...

Garotas de Garopaba



Johnny Wise, um turista do litoral catarinense, afirma, sem nunca conseguir provar, ter sido campeão de surf em 1982. Ainda assim, contraditoriamente, jura ter apenas 22 anos de idade. Com sua lábia malandra e sua sociabilidade sacana, aproxima-se da turma da praia, demonstrando especial afeição por garotas gostosas de biquini, com quem estabelece relações superficiais e bagaceiras.

Mas no fim do verão conhece Sabrina Maldonni, uma veranista linda, jovem e muito mais esperta do que ele imagina. Desta vez Johnny Wise se encanta de forma diferente. Mas Sabrina é exigente e profunda, e isso fica evidente quando ela resolve dizer tudo que pensa num dia nublado ali na Prainha:

- Olha Roger... sei que você é muito popular nesta praia e tal... sempre rodeado de patricinhas bestas e bonitinhas... mas, sinceramente Roger... você fica cercando essas meninas, abraça elas, tira fotos com elas, adora ser visto com elas... mas todo mundo sabe que você não pega nenhuma, saca ? e vamos combinar: essa história de campeão de surf é ridícula, meu... você não sabe nem subir numa prancha... acho que você devia parar de mentir... não para mim ou para todo mundo, pois você não consegue... você devia parar de mentir pra si mesmo, Roger ! não sei pra quê você fica dizendo que tem 22 anos... qualé, cara ? acha que as mulheres não vão gostar de você se souberem que é um tio dos anos 60 ? poxa... eu até curto seus cabelos grisalhos, sua barriguinha caída, suas pernas flácidas... sem falar nessas suas gírias demodé... quarentão é mó legal, véi ! se conseguir ser você mesmo acho que vou me apaixonar... você é um cara incrível e nem percebe ! no fundo é um menino que quer amor e um homem muito interessante esperando por segurança... eu posso esperar por você, ok ? mas por voce, não pelo rei das garotas de Garopaba.

O craque deprimido



No 406 do Links mora um senhor muito quieto: o seu Antônio Carlos. Foi um dos maiores craques da história do futebol. Não um craque qualquer, mas um craque diferente. Uma criança melancólica, solitária. Ele não gostava da escola, não falava com ninguém e, perdido naquela cidadezinha do interior, distraía-se apenas com o futebol. Adorava futebol. Ía todos os dias no campinho ver os garotos maiores jogarem. Assistia aos jogos na TV e seu radinho de pilha estava sempre sintonizado na programação esportiva. Ele admirava os locutores. Era freqüente vê-lo sentado num canto, narrando uma partida de futebol fictícia. Ele incluía à narração as reportagens após a partida, os jogadores tristes com a derrota, os dirigentes admitindo a crise do clube, o técnico pedindo demissão.

Seu pai, sempre muito preocupado, numa tentativa de tornar seu filho pelo menos um pouco sociável, inscreveu-o na escolinha de futebol da cidade.
Algumas semanas depois, o técnico veio falar com o seu Nestor, o pai do Antônio Carlos:

- Olha seu Nestor, vou lhe confidenciar. O Antônio é o maior craque que eu já vi jogar ! Tem um talento inacreditável ! Mas... ele é muito esquisito. Ele tem algum problema ?

E o seu Nestor dizia que o garoto era normal, tinha uma vida tranqüila, e só era um pouco quieto. Timidez, talvez. E foram diversas conversas do técnico com o pai do garoto promissor. Pudera, Antônio Carlos não falava com ninguém, só o essencial, só "ois" e "tchaus". Estava sempre cabisbaixo e triste. Ninguém entendia. Na decisão do torneio juvenil, o pequeno craque fez todos os gols do seu time, foi o herói da competição. Mas não vibrava nos gols e, por mais que seus entusiasmados companheiros pulassem sobre ele na vibração de cada gol, ele apenas se afastava dizendo:

- Por favor, parem ! Nada disto faz o menor sentido !

Um dia o técnico o levou à capital para apresentá-lo a um clube grande. No dia dos testes, Antônio Carlos impressionou a todos e o clube resolveu contratá-lo. Seu Nestor, entusiasmado, telefonou para o clube e conversou com um dos diretores:

- Eu sabia que o meu Antônio ia conseguir ! Ele deve estar pulando de alegria !

- Olha, seu Nestor, eu pensei que o garoto ia ficar mais contente...
- Como assim ?


- Ele começou a dizer uma coisas estranhas. Falava que a existência não tem lógica. E depois escreveu uma frase logo abaixo de sua assinatura no contrato.

- E o que é que o garoto inventou de escrever ? - perguntou o pai, já aflito.

- Bom... ele assinou e escreveu embaixo: "neste intervalo absurdo entre minha vontade e o meu mundo, inscrevo-me em meus abismos a cada queda do meu destino". Dá pra entender ? O pessoal aqui ficou assustado e pensaram até em cancelar o contrato.

- Ele está aí por perto ?

- Já te passo o garoto.

- Alô pai... - murmurou Antonio Carlos com voz desanimada.

- Filho, filhão ! estou orgulhoso de ti ! vai jogar num grande clube ! Estamos todos contentes, você conseguiu ! - o seu Nestor falava propositadamente com exagerado entusiasmo, tentando animar o filho.

- Não sei pai, não sei se este é meu lugar, meu tempo. Não sei em que dimensão estou. Acho que isto tudo não passa de uma vã tentativa de não ver a degradação inevitável da vida, a decadência das coisas. E eu não tenho chances...tudo que posso sentir é a morte.

- Que é isso filho ? Você vai se dar muito bem aí, não te preocupa ! Vai dar tudo certo !

- Pai... hoje eu estava jogando, fazendo os testes, e aqueles homens me observando. Mas... eu me pergunto: pra que ? Fiz um gol de bicicleta e não senti nada. Nada ! Me diga, pai, pra quê ?

- Filho... eu... eu não sei o que dizer... eu nem entendo o que você está falando... tira estas coisas da cabeça, menino ! Você vai ganhar muito dinheiro ! Vai conhecer garotas, e...

- Tudo bem pai. Tchau. - concluiu Antonio Carlos, seco e sem emoção.
Antônio Carlos foi a grande revelação dos juvenis do clube e rapidamente foi promovido à equipe profissional, com a camisa 10, no time titular. Sabia que teria que enfrentar o pânico de ser abordado pela imprensa e pela torcida. Seria conhecido, famoso. E isso o deprimia.

Na sua estréia foi o melhor em campo. Fez um golaço (não vibrou, ficou parado) e foi festejado pela crônica esportiva. No fim da partida foi cercado de repórteres. Ele respondia entediado, em monossílabos, não sendo antipático, mas triste. Muito triste.

Causou estranheza a todos aquele garoto melancólico. O comentarista famoso, das cabines de rádio, resolveu conduzir pessoalmente a entrevista que, pelo inusitado, já contava com alta e apreensiva audiência:

- Antônio, tua atuação hoje foi das mais exuberantes que assistimos nos últimos tempos e eu, particularmente, estou realmente impressionado e contente de ver um novo craque surgir. Mas nos espanta a tua apatia em campo. Você nem sequer festejou seu gol, e que gol ! E até em sua entrevista você pareceu muito melancólico. Será impressão nossa ou você tem problemas emocionais graves ?

- Treblinka.

- Como ?

- O campo de concentração de Treblinka. As execuções, a fome, a peste, o tifo, os suicídios, a crueldade, a falta de esperança. É nisso que tenho pensado dentro de campo.

- Você está dizendo que pensava nos campos de concentração durante jogo?

- Olha... tudo bem... desculpe. Esqueçam o que eu disse. Eu acho que eu quero ir embora. Acho que não vou mais jogar futebol. Não sei... não sei o que quero. Eu... eu... eu quero ter amigos, quero que gostem de mim mas... o que temos para o futuro ? Diga-me ? O quê ? Nada a não ser extinção, nada a não ser o próprio nada.

A repercussão na imprensa no dia seguinte foi bombástica. A combinação de uma atuação estupenda e de uma entrevista surpreendente foi um prato cheio para todos os programas esportivos. Um jornal mais sensacionalista colocava em sua manchete:

"NOVO ÍDOLO DA TORCIDA TEM PROBLEMAS MENTAIS"

Um programa de debates esportivos da televisão convidou Antônio Carlos anunciando também a presença de um psiquiatra. Mas o craque não foi e, para não parecer pedante, mandou um bilhete para a produção do programa. Bilhete este que foi lido no ar:

"Agradeço sinceramente o convite para participar do programa desta noite. Apenas não achei necessária minha presença. Assim como não acho necessária a minha existência e nem existência de vocês. Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda, reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém, ninguém ! Absolutamente ninguém ! Não significo absolutamente nada ! Nada !"

Na véspera do jogo seguinte era grande a expectativa em torno do novo craque. Durante toda semana ele foi o assunto central nas conversas de bar e nos debates esportivos da imprensa. Mas não cedera nenhuma entrevista. Antes de entrar em campo, no entanto, um repórter conseguiu capturar de Antônio Carlos uma breve declaração:

- O que você espera deste jogo, Antônio Carlos ? A torcida inteira quer te ouvir !

- Nada espero... diante de nós vejo a morte, a solidão e o desespero... quem sabe se eu fizer um gol eu prolongue um pouco a ilusão inútil desta torcida inútil...

- Você não acha que está desanimado demais ? É um jogo decisivo ! O estádio está lotado !

- Desculpe... eu... bem... adeus - e foi pro campo.

Logo aos cinco minutos de jogo espantou a todos saindo correndo de campo em direção ao vestiário. Os jogadores do time, o técnico, os dirigentes, a torcida, a imprensa, todos se perguntavam o que houve. Mas em seguida Antônio Carlos voltou a campo, convencido pelo psicólogo que o clube havia contratado exclusivamente para atender o jogador.

Fez três gols. Uma partida exuberante. Curiosamente, após o terceiro gol, aliás, um golaço de sem-pulo, ele se dirigiu lentamente à goleira cujas redes acabara de estufar, sentando-se apoiado à trave, e começou a chorar. Em seguida o técnico o substituiu. O narrador do jogo dava gritos emocionados ao microfone:

- Não é possível o que está acontecendo ! Alguém precisa ajudar este rapaz ! É o maior craque da história deste clube mas é um completo perturbado !

Após o fim do jogo, nos vestiários, Antônio Carlos, ainda chorando, pedia desculpas a todos. Pelo rádio, o narrador da partida, ainda emocionado, perguntou ao jogador:

- Antônio, estamos todos maravilhados e também preocupados contigo, enfim, toda esta torcida maravilhosa que hoje te aplaudiu de pé, quer saber qual o problema que lhe aflige.

E o repórter, postado à frente do craque completou a pergunta do narrador:

- O que nós podemos fazer por ti ? Como podemos torná-lo um pouco mais feliz ?

Antônio Carlos sentia-se pressionado. Esperou um pouco e murmurou timidamente uma resposta:

- Eu... não sei... desculpem... não quero agredir ninguém... eu... eu acho que é melhor abandonar o futebol.

No dia seguinte ao grande jogo, os jornais abusavam de manchetes surpreendentes:

"CRAQUE NIILISTA ESMAGA ADVERSÁRIO"
"ANTÔNIO CARLOS NEGA POSSIBILIDADE DE SUICÍDIO"
"TORCIDA ALEGRE, CRAQUE DEPRIMIDO".


E manteve-se esta rotina pelos jogos seguintes. Iniciou-se forte pressão para que o jovem craque fosse convocado para a seleção. No entanto o técnico desta declarou que não convocaria o jogador enquanto este não mudasse seu temperamento:

- Ele vai baixar o astral do grupo, não há condições !

A imprensa tentou induzir Antônio Carlos a dar uma resposta, para que incendiasse a polêmica. Mas ele pouco se importava com o assunto:

- Seleção ? Pra quê ?

Antônio Carlos, enfim, ficou famoso e sua personalidade era a discussão da moda. Era convidado a participar de programas de entrevista, mas nunca comparecia. Não gostava.

Muitos o criticavam, achavam que era uma influência negativa, principalmente sobre os jovens, sobretudo quando a torcida começou a freqüentar o estádio vestida de preto, em homenagem ao ídolo. Os próprios jogadores passaram a contestá-lo, e os dirigentes também.

Na realidade, era nítida a diferença intelectual entre Antônio Carlos e o meio futebolístico. Certa feita, numa folga da tabela, não foi a um churrasco dos jogadores, que festejavam a boa campanha, preferindo participar de um seminário sobre Schoppenhauer.

Numa crise depressiva aguda Antônio Carlos fugiu da concentração e foi para o Himalaia, decidido a abandonar o futebol e a fama. Mas foi convencido por seu pai, meses depois, a voltar aos gramados.
Quando voltou, o aeroporto estava lotado de torcedores e repórteres. Haveria um grande jogo marcando o regresso do craque. A direção teve que contornar uma greve dos jogadores, que se recusavam a jogar com Antônio Carlos. Sentiam-se injustiçados diante dos privilégios do craque. A imprensa. abertamente. o acusava de "mascarado".

Chegou o dia do grande jogo, o clima era tenso. Durante a partida os companheiros de Antônio Carlos não passavam a bola pra ele. Alguns torcedores mais antigos, moralistas e ortodoxos, exigiam que ele saísse do jogo.

Mesmo assim, o time ganhou o jogo (um grande clássico local) por 5X0 ! Cinco gols de Antônio Carlos, sempre em jogadas individuais. O jogo entrou para a história, mas os companheiros de Antônio Carlos recusaram-se a dar entrevistas após a partida.

No dia seguinte, com apenas 21 anos de idade, anuncia o fim de sua carreira:

- Não vejo mais nenhum motivo para continuar. - limitou-se a dizer...
Mesmo os pedidos vindos de várias partes do mundo, incluindo propostas milionárias para jogar na Europa, não sensibilizaram o craque.
Isolado, apesar de rico, foi viver em uma pensão miserável e imunda, vivendo tristemente o que achava ser o momento final de sua vida. Os repórteres descobriram onde ele estava, mas Antônio Carlos não abria a porta. Gritava zangado:

- Vão embora... deixem-me morrer sossegado.

Antônio Carlos isolou-se e permaneceu incomunicável durante anos, tornando-se um mito. Os diversos boatos de que ele voltaria a jogar nunca se confirmavam.

Ele então juntou alguns garotos em sua pequena cidade natal, e fundou o "Buraco Negro Futebol Clube", de uniforme todo preto e com rígidas regras de comportamento como "não vibrar nos gols", "não dar importância às vitórias" e, ao invés da tradicional palestra antes dos jogos, ele lia poesias tristes do Astronauta Roger para seus pequenos atletas.

E dizem que o time vem se destacando nos torneios em que participa. Sobretudo um garotinho esquisito, o Toninho, muito tímido, acabrunhado e triste, que tem mania de falar sozinho e narrar partidas fictícias de futebol que sempre acabam em crise do clube e demissão do técnico...

E o garoto faz cinco gols por partida !!!

O carnaval do esquecimento



Clayton Bornwish Eyeflush, um angustiado funcionário público de Pittsburgh, Pennsilvanya, olha com tristeza para o passado, com o olho direito, e com esperança para o futuro, com o olho esquerdo.

Sua ansiedade somente diminui quando decide passar o carnaval em Fortaleza, Brasil, a convite de sua amiga de internete, Amanda Carvalho (ou "seniowrité quévéliow", como ele a chamava, carinhosa e respeitosamente). Ela lhe ensina, com insistência:

"Roger ? Roger ? olha pra mim... pra mim, ok ? esquece o resto, cara."

Foram necessários somente quatro dias para Clayton aprender a enxergar o presente. E na quarta-feira de cinzas já é perceptível seu novo semblante. Ele torna-se um homem mais feliz, seguro e amoroso.

Então volta para Pittsburgh, mas sem pensar no futuro. Nem no seu carnaval esquecido. Seu olhar, agora, vê Amanda como seu presente para sempre.

Um dia, Amanda liga para ele, para testá-lo:

"e aí, Roger ? tá conseguindo olhar só para o presente ?"

"sim, Amanda... meu olhar continua... hum... bacana... e percebi que não preciso esquecer do passado ou do futuro... basta eu olhar diferente pra eles... e até mesmo com o mesmo olhar para ambos, pra minha cara não ficar esquisita...

"ahahahah, é !"

"acho que agora posso olhar para o meu passado e meu futuro como você olhava para mim... saca ? olhar com carinho sem exigir nada em troca... e tal."

"oh..."

Assim que você voltar



Edgar Rupert, um diretor de teatro impaciente e pessimista, é namorado de Catherine Pin Campden, a atriz protagonista de todas as suas peças. A relação dos dois é... dramática.

- Enfim, Cathy... o que pude concluir de todas as minhas desgraças românticas, é que os relacionamentos amorosos são o shopping center dos sentimentos... olhe o que há diante de nós ! o abismo negro e fúnebre do afastamento doentil, da ambição solitária e do esquecimento egoísta ! até que não tenhamos mais as moedas da hipocrisia para comprar carícias desesperadas ! tudo encenação... encenação !

- Edgar... eu... eu entendo suas perspectivas destrutivas e seu desânimo total sobre o amor... e... e não tenho nada dizer... é a sua opinião... e... e eu respeito.

- Ah... tá legal, Cathy ! respeita minhas idéias ? muuuuuuuuuito obrigado ! linda forma de dizer "Edgar ? não concordei com merda nenhuma do que você disse, mas não vou discordar porque não estou neeeeem aí, ok ?"

- Edgar... é incrível a pontualidade da sua chatice ! sempre no sábado essa sua verve lamuriosa e rabugenta ! e quer fazer o favor de se vestir logo ? a gente tá atrasado, porra.

Encontro onírico e emocionante com a esquimó Björk


O terrível futuro de Joe



Joe Denny Necromancer, um homem amargo e fóbico, vive trancado em seu apartamento com seu gato mau humorado, o "Game", numa Hartford, Connecticut, devastada pela violência urbana, declínio moral e caos econômico.

Pela janela do seu claustro profundo, Joe olha triste e assustado para o mundo lá fora.

Seu único contato com o mundo exterior é "Selene Violeta Banfield", uma ex-veterinária agora traficante de "bens materiais" que lhe traz mantimentos e cuida do gato Game. Ela lhe propõe um amor "à antiga", o que significa viverem juntos, fazer sexo com afinco e dormirem de conchinha.

Joe aceita a proposta de Selene, mas apenas por ela ser gostosinha. E se dá bem, pois percebe que ela não é nem a louca da sua ex-esposa nem a vaca da sua ex-namorada. Ela é uma mulher legal de verdade, entende ? Apesar de colocar fogo nos móveis quando tem tpm.

Joe e Selene aceitam generosamente suas chatices. Convivem rindo disso e do lustre do quarto, quando transam. E recusam lembrar de qualquer merda do passado.

Lá fora, o mundo acaba-se em dor, desespero e intolerância. Mas desta vez Joe está com sua amada Selene. Eles olham o triste espetáculo pela janela e nem tchum.

Porque a felicidade é um nem tchum sem culpa. Saca ?

Super viciado



Clark Kent na superprodução "Super Homem Contra Si Mesmo Mas Num Sentido Mais Paradoxal Do Que Narcisista Saca ?". Neste filme o super herói tem como grande inimigo a opinião pública, que se queixa do seu comportamento desidioso.

Esperavam que evitasse o ataque no World Trade Center, mas ele alegou que naquela hora "estava numa briga importantíssima, via ICQ, com Lois Lane". Depois não evitou a queda de um avião com a desculpa de que "estava no meio de um upgrade do msn". Deixou de evitar o assassinato do presidente pois estava "atualizando o seu Fotolog". Também não fez nada contra o tsunami dizendo que naquele momento "estava escolhendo as comunidades relacionadas" de sua comunidade no Orkut.

Clark ficou muito chateado certo dia ao chegar na redação do Planeta Diário e ver uma multidão protestando e mostrando uma enorme faixa onde estava escrito "super herói viciado em internete é foda !!!". Mas o que lhe deixava mais enfurecido era ver outros caras paquerando Lois Lane através de scraps.

Na cena final, ela coloca o homem de aço na parede:

"você escolhe, Roger: a internete ou eu."

"mas... mas Lois ! o certo não seria você ou a luta pela paz no mundo ?"

"ah... a sua luta pela paz no mundo não rivaliza comigo... mas a internete... sinceramente, Roger ! você já deixou de salvar um monte de gente pra trepar comigo... mas na semana passada o Lex Luthor me sequstrou e você nem tchum... só porque estava fazendo uploads dos seus videos exibicionistas no Youtube !"

"mas... mas Lois..."

"nada de mas ! e quer saber ? eu e o Lex nos entendemos super bem, ok ? ele disse que me ama, olhando nos meus olhos, e não como você, que só faz isso através de emoticons de coraçãozinho... que jucasso !"

"Lois ! você não pode ficar com o Lex ! isso não está no contrato ! e ele é do mal !"

"do mal ? e daí ? tem que ver o depoimento que ele fez para o meu perfil no Orkut... lindo de morrer, cheio de sentimento e sexo... não é que nem o seu, Roger, que é um copy/paste de textinho de auto-ajuda !"

As Esperanças de Johannes



Johannes Kepler Vontwögel, um desconhecido dramaturgo austríaco de coração sofrido e de esperanças desistentes, em meio aos fogos de artifício da festa de ano novo, recebe um comunicado de Sapuka Guntermitter, um espírito sábio e beberrão:

"caro Johannes... hic... evita este olhar sombrio e caído... olha para o céu, além do brilho dos fogos... sorri, otimista... e... hic... abre tua mente mais profunda... então verás que neste ano não te perturbarão os fantasmas do futuro... nem as vacas do passado ! teu talento será recompensado... e teu coração ficará descansado... hic... e feliz ano novo ! hic !"

Johannes, sempre tão triste, cético e tímido, por um momento obedeceu a alma que lhe trouxe boas notícias. Sorriu ao ver um céu mais promissor. E até disse baixinho para si mesmo:

"é... feliz ano novo, poxa... hic !"

O desajustado



Um fã de Nirvana, revoltado e com tendências autistas, passava o dia trancado em casa. E nem tchum para a sociedade. Apenas sua namorada o compreendia, embora os dois brigassem feio, às vezes:

- Olha Roger, chega de bancar o Roger Waters, ok ? Esse muro que ergueu entre você e o mundo é pura performance, saca ? Vai ficar aí, o resto de sua vida, fazendo o tipo rebelde infeliz ? Não me comovo mais ouvindo você tocar "In Bloom" no violão, seu idiota !

- Eu não estou imitando o Roger Waters, ok ? Meu modelo comportamental é o Kurt Cobain. E cai fora, sua cadela ! Deixa eu me destruir em paz... e não me enche o saco !


Mas no fim ficaram juntos e alugaram uma casinha no interior da Itália. Durante o verão vendiam sorvetes, e no inverno faziam pão árabe para a vizinhança. Viveram com dignidade, tranqüilidade, amor e fofura. E tiveram um belo filho. Deram-lhe o nome "Charles Bronson Jones".

Veja nesse link um trecho emocionante desta história !
http://www.youtube.com/watch?v=F4LmLrqP9mg

Viagem ao centro de Happy Harbour



Viagem ao Centro de Happy Harbour. Um disco megalomaníaco produzido pela Astronaut Roger Entertainment Co. Records. Muitos teclados, orquestra, coral, rock, grandiosidade e narcisismo !

Atritos no vácuo



Que dizer do desgaste, de proporções cósmicas, proveniente dos atritos inevitáveis entre corpos que se tornaram ríspidos interplanetariamente ?

O computador de bordo Messias Machine calculou uma colisão intergaláctica entre Milky Way e Andrômeda Galaxy. Segundo a Professora Grandmasilence, de Stone Source Planet. Shine Beat Galaxy, "é difícil prever as conseqüências de um encontro entre galáxias... pode acontecer um dramático choque, espalhando cizânia, dor e destruição nos destinos solares destes pequenos aglomerados de vida... mas existe a possibilidade de as galáxias se entenderem, iniciarem um namoro feliz, e se casarem, no civil e no religioso... e podem até ter dois filhos, um apartamento de três quartos, um carro de quatro portas, uma casa na praia... e quem sabe, anos-luz adiante, se divorciem... daí Milky Way veria seus filhos só nos fins de semana, e os levaria no Macdonals... e Andromeda tornaria-se uma galáxia frustrada e melancólica, buscando nas salas de chat da Internet um novo amor para o seu destino..."

Como é complexa a estrutura da relação entre vontades distintas. A Terra e a Lua estão em crise. Há um progressivo distanciamento entre ambas. Segundo Lady Sometimes, a dama do tempo, "é assim mesmo... todas as relações sofrem desgaste... é natural um certo afastamento... pensa bem, Astronauta Roger, Moon e Earth estão neste casamento há mais de quatro bilhões de anos !"

Sugeri que dormissem em quartos separados, para que se evitasse a erosão da individualidade numa relação a dois. Assim, a Terra poderia ficar onde está e a Lua teria permissão para dormir no sistema de Júpiter. Mas sem más intenções, claro. Na maior confiança emocional, saca ?

Dama do tempo Lady Sometimes



Lady Sometimes, vestida de tempo.
Ela sempre aparece quando eu preciso.
Ela é uma dama suave, etérea, macia, permanente e misteriosa.
Ela encanta meus sentimentos.
Ela confunde meus olhos.
Ela abraça meu destino com carinho.
Ela compreende minha solidão.
Ela pressente a emoção que eu escondo de mim.
Ela ficará comigo até o fim...

O bagaceiro da seleção



Neco é um jogador de futebol habilidoso porém indisciplinado técnica, tática e fisicamente. Sua carreira é um conjunto de desavenças com jogadores, técnicos, dirigentes e torcedores e escandalos na imprensa. No fim, mesmo sendo convocado para a seleção brasileira, fez com que até mesmo sua namorada, a maria-chuteira, atriz e modelo Larissa Cardozo, perdesse a paciência com ele:

"olha Roger... na boa... eu entendo e gosto desta sua fama de bad-boy do futebol... acho super sedutor esse seu tipão rebelde em campo, que faz pouco caso pra imprensa e pra torcida, e tal... sério, cara ! as mulheres adoram esse seu jeito chinelão de ser... super fashion isso, hoje em dia... e até que a bagaceirice lhe cai bem, sabe ? só que tudo tem limite, Roger ! poxa, meu... precisa entrar de Ray-Ban falso em campo ?"

Temperamental e chatinha



Nave branca Interestellar Overdrive atravessando a contundente órbita de Io Moon, Jupiter Planet.

Io é legal mas é uma lua vulcânica. Uma erupção contínua de sentimentos geológicos. O lugar mais temperamental do sistema solar. É uma lua fogosa e decidida, ou, como dizia o sábio interplanetário Smart Selenith: "a mais latina das luas de Giant Jupiter System !"

Esclareceu-me a professora Grandmasilence, de Stone Source Planet, Shine Beat Galaxy que "Io não é como Venus Planet. Venus é terrível mas parece boazinha. Io não. Io mostra o que é ! Diz na cara ! Doa a quem doer ! Pelo menos Io nunca tem úlcera. Venus vive com problemas atmosféricos só pra manter a pose de bem-educada."

Comparável a esta lua só o temperamento da Princesa Esfinge Belíssima Tâmara:

- Tamara, Tamara... minha querida estrela de primeira grandeza, eu...

- Como assim "estrela de primeira grandeza", Roger ? Tá me chamando de gorda ?


Dá pra entender o temperamento das mulheres de Magellan Nebula ?

Adoro mulheres intelectualmente inquietas e sexualmente vulneráveis. E também me divirto esteticamente com temperamentos infantis.

Já o computador Messias Machine acha que eu devia ser mais exigente e seletivo. Só que o meu coração não se importa comigo. Ele decide, como uma criança escolhendo brinquedos, qual será o objeto de sua paixão. E eu raciocino, inutilmente. Mas, concretamente, estou dentro da nave branca. Todo meu afeto é uma lembrança. Todo meu desejo é uma esperança. Quando me vejo, vejo uma criança no espelho. Lady Sometimes me deu um conselho: "tire a roupa, Astronauta Roger... a mulher amada sempre quer ver o que se esconde atrás dos desejos bem vestidos de seu homem."

Io Moon...
Tenha-me nu...

Um dia você dirá à sua amada: "nunca estive tão feliz".



Lady Sometimes, a dama do tempo, veio visitar a Interestellar Overdrive. Ela é incrivelmente bela, comovente, sincera, lúcida e sofisticada. Para ela "o futuro já passou, o passado nunca passa e o presente jamais passará". Quem sabe tenha vindo na nave branca para demonstrar que vivo num universo de ilusões:

- Não existe paz longe da vida, Astronauta Roger... enfrentar a vida cara a cara... vivê-la... para depois descartá-la... o silêncio do espaço não cala a voz amarga do interior humano... antes a morte do que a tranqüilidade vazia... a calma vácua da paisagem sideral não abençoa o espírito que quer vida, movimento, arte, prazer, angústia... e amor...

- Mas... Lady... quero um amor breve e vivo... não etéreo, nem imortal... quero não fugir mais do que eu sinto e desejo... quero me despir de mim e saber quem eu sou... quero descobrir minha solidão verdadeira... quero viver a vida e me jogar num rio, para que a correnteza sadia leve minha loucura e minha dor... e meu amor...

- Quem sabe você esteja pronto para voltar à Earth Planet... sei, é doloroso, exige coragem... mas é um pequeno passo para a sua humanidade... e um grande passo para um homem de verdade... adeus, querido Astronauta... um dia você dirá à sua amada: "nunca estive tão feliz"... seu coração precisa de uma vida intensa... e de uma morte bela...

Grenal social

Paródia da música "Construção", da autoria do poeta earthplanetense Chico Buarque, composta por mim num momento em que eu estava muito preocupado com a questão da violência nos estádios de futebol:

O colorado acorda num esforço olímpico,
Lembrando do seu sonho num momento místico,
Levanta do seu leito de salário mínimo,
E sai de seu casebre sem espaço físico.

Caminha encarnado pela tarde ávida,
Levando orgulhoso sua bandeira lírica,
E treina a paciência numa fila mórbida,
Deixando seus trocados na cabine trágica.

E confiante entra no estádio Olímpico,
Torcendo pro seu time sentimento místico,
Levou o pobre filho colorado mínimo,
Sentado no cimento sofrimento físico.

E como sempre bebe sua cachaça cálida,
Olhando pro gramado com esperança ríspida,
Esquece dos seus dias da semana sórdida,
E alimenta o filho com pipoca mágica.

Um torcedor do Grêmio com revolta ávida
Retira do cimento uma placa lírica
Foi logo dominado pela idéia mórbida
De transformar a tarde numa cena trágica

Pedaço de concreto atirado ao público,
Sobrevoou o campo num trajeto lógico,
Parabolicamente ao destino último,
Um crânio colorado nas gerais do Olímpico.

O colorado bêbado indefeso e trêfego,
Olhou prá cima e viu aproximar-se o bólido,
Descoordenado e fraco sem reflexo nítido,
Foi atingido fatalmente pelo sólido.

Caiu estatelado no estádio Olímpico,
Lembrando da sua vida num momento místico,
Olhando para o filho num momento mínimo,
Deitado no cimento sofrimento máximo:

Morreu na arquibancada atrapalhando o clássico...

Depois do jogo as ruas receberam o público,
Que como gado segue um trajeto lógico,
Buscando em seus lares seu destino último,
Ou conversar nos bares ao redor do Olímpico.

E um grupo colorado decidido e bêbado,
No meio da avenida iluminada e ríspida,
Avista um gremista classe média pálida,
E sem piedade avança sobre a sua vítima.

Covardemente atacam um gremista tímido,
Num surto de violência interrompendo o trânsito,
Linchando sem piedade um torcedor anônimo,
Até deixar seu corpo deformado e náufrago.

E o torcedor caído em pensamento trêfego,
Agonizou em dor num sofrimento mórbido,
Tragado pelo sangue de vermelho nítido,
Abandonou sua vida no asfalto sólido.

Morreu na avenida atrapalhando o público...

A distância é o maior algoz do coração



Às vezes acho que não existe epiderme que me proteja das sensações todas. Então excedo-me de sentir, no fluxo ingênuo de um despertar sem freio dos sentidos. Sinto, curiosamente, a dor. Sinto, descrente, amor. Sinto o que for preciso ou impreciso, no passado, no futuro, no claro, no escuro, num absurdo de vida ou de luto. Mas num minuto percebo-me como uma rocha protegida e fria, que a nada obedece, escondida no fundo insensível de um mar que ninguém conhece.

Na oscilação irracional destes estados, eu tenho sempre você em mente. E quando nem minhas lembranças restarem, então somente a distância ocupará o espaço entre nós.

Não sei explicar. Eu preferiria que um poeta falasse por mim. Uma plêiade de energias decide-se pelo movimento no núcleo iluminado da minha galáxia interior. Tudo é belo, real e soberanamente autêntico ! Tenho medo do furor de vida que insiste em existir-me. Mas acho que minhas palavras precisariam da visibilidade das minhas lágrimas, e de seu colo... para ganharem sentido e amparo.

Nada se precipita na minha ausência íntima e completa de gravidade. Sentir é minha intensa queda sem altura, sem fim, sem começo. Não sei o que é cair. Nós, astronautas, não sabemos. Tudo flutua no oceano cósmico infinito. Ou quem sabe o universo inteiro seja uma queda de si. Não sei. Meu coração tem memórias que não se dissipam. Jamais.

Então, minha amada...
Que te iluminem os sóis se não tenho mais luz.
E que te aqueçam, se nem mais meu calor se percebe.
E que te acolham as labaredas de carinho que despem as estrelas em teu nome...

Goodbye, astronauts



"Our destiny is
the empty space,
the empty time,
and the
empty empty."

O Instrutor



Doug Robert Clifford é um instrutor de jet ski. As suas alunas o desejam. Querem amá-lo, querem transar com ele, querem casar com ele. Mas Doug, apesar de ser simpático, prestativo e gostoso, é um homem amargurado e pessimista diante do amor.

- Olha Roger, eu fiz de tudo por você. Amei, te dei carinho, trepei com você. Tudo isso com a mesma dedicação que você teve ao me dar aulas de jet ski. Eu quis você, cara. Mas você sempre recuou, nunca quis assumir. Você é incapaz de amar. De se entregar. E agora eu fico triste por você, saca ? É uma pena você estar com o coração destruído. Mas sabe ? Foda-se, seu bosta.

- Ok, Phillis, mas desde o início eu lhe disse que o que tinha para dar era apenas sexo e aulas de jet ski. Está no contrato.

- Sei Roger, é o mesmo contrato comigo, com Sabrina, com Thelma, com Ingah, com Melissa, com Rodha, com Carly, com Alice, com Nola, com Venice, com Patricia, com Bella, com Jeniffer e com Wendy. Você roubou o coração de todas nós, Roger !

- Mas pelo menos vocês estão andando de jet ski tri bem.

Sinceramente



Temístocles Cavalcanti Madureira é filho de uma tradicional família paulistana que, por ter vergonha dele, o mantém preso dentro do seu quarto por mais de trinta anos.

Mas, estimulado por uma amiga de msn, Sonja McMorpheus, ele tramou um complexo plano de fuga e foi encontrá-la na Nova Zelândia.

- Oh, Roger. Que bom que veio ! Que bom !

- Sim, Sonja ! É um sonho realizado ! Não vejo a hora de abrirmos nossa lojinha de moedas antigas no centro de Wellington !

- Estou super orgulhosa de você, Roger ! Não é mais o menino imaturo prisioneiro da família ! Você conseguiu se livrar daquele ergástulo que lhe servia de mosteiro !

- Ergástulo ?

- É, Roger, ergástulo.

- Hum... a gente se entendia melhor por msn, Sonja... você nunca usou essas palavras antes... e... e não consigo detectar o que você sente sem os emoticons.

- Pára, Roger... existe vida off line, ok ? depois que fazer sexo você vai entender o que estou falando.

Cup of desires



Brendan McMillan Leegthorn e Aberdeen Douglas Williamson são irmãos gêmeos, ambos jogadores da seleção brasileira de futebol. Brendan é um jogador dedicado, honesto e cumpridor de tarefas secundárias dentro de campo. Joga para o time, saca ? Já Aberdeen é craque, estrela do time, celebridade e preguiçoso. Joga para a torcida. Durante a copa do mundo ambos se apaixonam pela mesma mulher, Salinea Holsz Köcklaundrup, uma repórter holandesa. Ela acaba ficando com Aberdeen, claro, porque fim ético tá fora de moda. E Brendan fica com Mariah Andressa Tellybuilding, a filha do treinador. E tem muitos outros personagens no filme, todos com nomes pomposos, como por exemplo a a mãe da ex-esposa de Aberdeen, uma dondoca chamada Clarabelah Viceroy Coldrigesmintney. Ah, e o time foi um fiasco na copa. Mas Aberdeen nem tchum. E foi para Cancún com a sua namorada. Já Brendan, honrado e corajoso, voltou para o Brasil enfrentando de peito aberto a ira da torcida e da imprensa. Jucasso como sempre.

O mutante de Dortmund



Heinrich Köll Sulzbacker, um antropólogo alemão, após escutar a música "2001", dos Mutantes, passou a ter um comportamento estranho e feliz, vindo a se apaixonar por Ingah Flöhe Diebstein, uma técnica em hotelaria colecionadora de vinhos brancos.

Heinrich amava tanto sua querida Ingah que até deu nomes para os belos peitinhos dela. Um deles se chamava "Maifruz Solina Tzortzopoulos", e era grego. O outro se chamava "Sidarth Frolin Constantinatzick", e era da Eslovênia.

Coração de pedra



Uarrrr Auuurrrr é um australopiteco de Kingsferry, Cornwall, Inglaterra. Preguiçoso, incompetente e criativo, foi destituido do cargo de caçador e tornou-se dramaturgo. Nos ensaios de uma de suas peças, chamada "Hunnngrrruff Rrrrrrfff", ele conheceu e se apaixonou pala bela e peluda atriz Ueuuurvvvzzz Hurrr. Mas ela preferiu ficar com o jovem Aaaaaahrrrr Uaaaaa:

- Uaaarrr ueurrr ggrrrr uhrrrr

- Eaaaaaahhhh uoooorrr uiiiin aaaahhhh

- Urrrrhhhh iiiiiinhooooin urrrr

- Ouennnnnniiaaaaar !!!


O diálogo, em linguagem atual, fica assim:

- Olha Roger, você tem um tremendo potencial... é um grande diretor de teatro e tal... eu sempre vi você como um mito da autenticidade e da vagabundagem... mas eu amo o Aaaaaahrrrr Uaaaaa... gamei quando ele me puxou pelos cabelos até a caverna dele... e... hum... uau... adoro aquela tiara de marfim que ele usa no cabelo... e Roger... eu... eu sou muito jovem pra você... ele é um homem da idade da pedra polida, super moderno, saca ? e você é o típico cara da idade da pedra lascada... ainda ouve rock progressivo...

- Tá legal, Ueuuurvvvzzz Hurrr ! fica com aquele primata ! pode ser que você o considere um Homo Eroticus, tudo bem... mas não é um Homo Sapiens como eu ! e depois do casamento com ele o seu destino será usar Omo Máquina o resto da vida !

- Ai, Roger ! que trocadilhos horríveis ! tomara que os arqueólogos do futuro não descubram registros disso !

- E quer parar de me chamar de Roger ? faltam 10 milhões de anos pra inventarem esse nome !

A professora



Padre Rogério é um sacerdote seduzido por Lorena Wittman Thorpe, uma professora de ciências muito gostosa e lasciva. Os dois têm um romance tórrido, pecaminoso e sexual, cheio de beijos escandalosos em público, aterrorizando a população conservadora e pacata de Bishop's Cleeve, Cheltenham, no condado de Gloucestershire.

Mas o sacerdote, cheio de dor no seu coração apaixonado, começa a desconfiar de que foi vítima de sórdido plano macabro. O terrível temperamento de Lorena e a adoração dela por ritos macabros, as crianças que ela assassinou vestida de Ronald Macdonald, a coleção de discos do Engenheiros do Hawaii que ela tinha. Tudo deixando evidente que a sua namoradinha boazuda era a encarnação da própria "besta".

No fim, numa conversa com o Monsenhor Ludwig, o Padre Rogério abandona seus credos cristãos e decide, para si mesmo, que "a besta não é tão má assim". Despede-se e vai à uma loja de artigos femininos comprar uma calcinha vermelha com zíper para a sua amada infernal.

Mas ao chegar em casa flagra Lorena Wittman Thorpe na cama, usando touca de diabinha, divertidamente fazendo sexo com Josh Mighttorn, pivô do time de basquete da cidade.

E o excomungado e traído Padre Rogério percebe, com nojo, que nem para transar o cara tira a tiara do cabelo.


Sempre que formos flagrados nos verão absorvidos por detalhes passageiros...

Eu ficarei para sempre no espaço



Por mais que me afaste do mundo
Por mais que me aproxime do fim
Sei que nem por um segundo
Me afastarei de mim...

Tudo que pode desembarcar desta nave
É minha renúncia, minha liberdade e a imagem que de tudo faço...
Mas não eu:

Eu ficarei para sempre no espaço...

Sóis distantes pintam de branco minha nave branca
Que escorre sobre a superfície ríspida do vácuo entre mim e a vida
Como uma lágrima de mágoa iluminada e perdida...

Meu universo é a ausência:

Só a distância me aproxima
Só a solidão me acompanha
Só a saudade me alivia
Só a vontade é estranha
Só o frio me aquece
Só a dor me reanima
Só o amor me esquece
Só o vazio me explica...

O infinito espaço entre o destino e o desejo

Tudo que vejo é o que me falta. A paixão de um astronauta tem corpos que não se vêem, olhos que não se tocam, dias que não se encontram. Que palavras eu diria diante do silêncio entre nós ? "Fique nua para mim. Agora. Por favor, não vá embora. Deixe-me tocá-la com meu carinho impoluto. Deixe-me beijá-la com minha vontade irresoluta. Deixe meu universo envolver seu corpo. Deixe seu pescoço conhecer meus lábios quentes de amor. Deixe seus olhos me conhecerem. Deixe-me tudo. Mas não me deixe nunca..."

Catherine Pin Campden em Saint Tropez

Catherine toma o café da manhã no restaurante do hotel. Está sozinha, elegante e abatida. Ao terminar, levanta e vai ao banheiro. É quarta-feira, dia 27 de junho.


Quinta-feira, 21 de junho: Catherine chegou em Saint Tropez na companhia de um casal de velhos amigos, Giuseppe e Graziella, de Turim. Catherine foi convidada por eles para uma rápida viagem ao famoso balneário. Estavam comovidos com o estado depressivo da amiga, que recém havia se separado de Edgar. O dia foi suave e ensolarado. Caminharam pela praia, passearam de lancha, jantaram num restaurante de frutos do mar, foram ao cinema e à noite voltaram para o hotel.


Quando sai do banheiro, Catherine depara-se com Frederick. Ela irrita-se, nada diz, desvia o olhar e tenta seguir caminho como se não o conhecesse. Mas Frederick segura seu braço:

– Catherine, eu cheguei a Paris, mas não consegui embarcar para o Kentucky.
– Frederick, me solta! Por que voltou?
– Catherine, eu não posso ir embora. Não sem você.
– Teve a chance de me dizer isso ontem, Frederick. Agora é tarde.

Frederick beija Catherine. Ela não consente. Empurra-o. Mas Frederick a segura com força. A breve luta é interrompida por alguém que intercede com energia, afastando-os. É Giuseppe.


Sexta-feira, 22 de junho: Após uma bebedeira com Giuseppe e Graziella, Catherine estava saindo do banheiro do bar do hotel. Sentiu que alguém a puxou pelo pulso e a beijou. Era Giuseppe. Ela lhe deu um tapa no rosto. Giuseppe não desistiu e a beijou novamente. Catherine protestou com veemência, empurrando-o. Um desconhecido intercedeu, ordenando que Giuseppe se afastasse. Giuseppe voltou ao bar, onde estava sua esposa. Catherine agradeceu o homem que a salvou da situação constrangedora: era Frederick.


Catherine livra-se de Giuseppe:

– Giuseppe, seu imbecil! O que está fazendo aqui?
– Catherine, quero lhe pedir desculpas. Mas não foi por isso que voltei. Eu voltei porque...
– Não me interessam as suas razões, Giuseppe, seu canalha!
– Catherine, eu amo você. Sempre amei.


Sábado, 23 de junho: Catherine recusou o convite de Graziella para um passeio pela região. Ficou o dia todo com Frederick. Ele disse que é dono de um supermercado em Frankfort, Kentucky, no Estados Unidos, e admitiu estar passando por uma terrível crise em seu casamento. Aconselhado por um amigo, resolveu tirar uns dias de descanso para pensar na vida. Catherine gostou dele. À noite, dormiram juntos no quarto de Frederick.


Catherine afasta-se dos dois homens, que começam a persegui-la. Mas ela ganha distância graças ao ritmo de seus passos nervosos. Atravessa o saguão do hotel, passa pela portaria e recebe o aviso de que Graziella a aguarda ao telefone. Catherine fala com ela, ali mesmo. A amiga está inconsolável. Catherine se sente responsável pela tristeza dela. Não diz que Giuseppe voltou ao hotel. Mas ao vê-lo se aproximando passa o telefone para ele, com cruel sarcasmo:

– Giuseppe, sua mulher.


Domingo, 24 de junho: Graziella convidou Catherine e Frederick para se juntarem a ela e a Giuseppe para um almoço. Catherine recusou mais uma vez o convite. Graziella estava magoada por Catherine ter se distanciado deles. E não sabia a razão de Catherine ter virado o rosto para Giuseppe, no dia anterior, quando ele lhe desejou bom dia. As duas iniciaram uma discussão ríspida. A briga só terminou quando Catherine contou para Graziella o incidente em que foi vítima do assédio de Giuseppe. Catherine passou o domingo com Frederick. Almoçaram, passearam, jantaram. Conversaram sobre suas vidas. No fim do dia, Catherine descobriu que Graziella foi embora, à tarde, e Giuseppe também, à noite.


Livre de Giuseppe, Catherine vai até o hall de entrada do hotel e chama o elevador. Frederick se aproxima. O elevador abre e Catherine entra. Enquanto a porta se fecha, o olhar dela e o de Frederick se encontram com tristeza.


Segunda-feira, 25 de junho: Como felizes amantes, Catherine e Frederick passaram o dia na cama. À noite, Frederick recebeu um telefonema da esposa.


Catherine chega ao seu andar. Passa pelo quarto onde estava hospedado Frederick. A porta estava aberta. Olha, pensativa. Vira-se e volta ao corredor. E vai chorando até o seu quarto.


Terça-feira, 27 de junho: Frederick arrumou as malas e despediu-se de Catherine. Agradeceu “por tudo”, e disse que não poderia viver sem sua mulher. O céu estava cinza e a praia vazia. Catherine foi caminhar na areia, catar conchas e tentar assimilar tudo que aconteceu. Olhando para o Mediterrâneo, percebeu que não lhe doía lembrar do comportamento de Giuseppe, da briga com Graziella ou de Frederick. Mas uma dor, que esteve com ela o tempo todo em Saint Tropez, persistia: uma dor chamada “Edgar”.


Catherine está no seu quarto, iniciando os preparativos para ir embora. Batem na porta. Antes de abrir, ela tenta adivinhar quem é. Será o desesperado Giuseppe? Será o indeciso Frederick? E se fosse Edgar? Ela imaginou a cena:

– Edgar? O que está fazendo aqui?
– Cathy! Cathy, minha amada! Eu não posso viver sem você!

E ri da sua idéia de desfecho piegas para sua aventura em Saint Tropez. Por um momento, sente vontade de ser apenas uma personagem de um livro cheio de clichês românticos.

"Esqueci-me de te dizer que além do medo havia o mundo..."

Eis que tal frase
Escrita no pára-choque
Da minha nave esquecida
Para choque dos meus mitos
Antigos e cansados
Retorna à minha vida
Com novos significados...

Eu não sabia
Que para seguir era preciso voltar
Que para existir era preciso morrer
Que para intuir era preciso aprender
Que para viver era preciso me amar...

Eu não sabia
Que para ter era preciso sentir falta
É a condição de astronauta...

Se a imagem que de mim fiz
Me deu um verso doce e amargo
E sem fim
A coragem que de mim quis
Me deu um universo sem vácuo
Entre mim e mim...

Catherine Pin Campden e o mundo em reforma

O ruído das britadeiras faz tremer o apartamento de Edgar. Oito da manhã em ponto. Catherine acorda em pânico. Enrolada num cobertor, ela se move cambaleante pelo quarto e corredor, espia a cozinha e o banheiro, chega até o escritório. Descobre que está sozinha. O barulho lembra um campo de batalha. Não bastasse o fato de ter discutido com Edgar durante a madrugada, e dormido muito pouco, tinha que suportar o sumiço matutino do namorado e a sinfonia intragável da reforma do calçamento da rua. Vai até à janela da frente e abre a cortina. Ofuscada pelo sol e pela irritação, Catherine vislumbra seus inimigos: um grupo de operários uniformizados, dois deles fortemente armados de britadeiras. Impiedosas britadeiras. Catherine volta para o quarto. Tenta recuperar o sono. Mas é impossível. Levanta, vai ao banheiro, à cozinha, ao computador, ao sofá da sala, fuma, toma café, lê o jornal, volta para cama. Catherine não tem chance contra o som ensurdecedor das britadeiras. É uma guerra perdida. A grande cidade é mais forte que sua grande solidão. As horas passam. Catherine fica instável. Chora, nervosa. Grita, inutilmente. Enfurece-se por não ter vontade de sair, dar uma volta. Nada é capaz de conter o abalo sísmico que tomou conta do apartamento de Edgar, no centro de Porto Alegre. A briga, durante a madrugada, foi terrível. A ponto de decidirem pelo rompimento. Mas já haviam decidido isso tantas vezes que tal idéia soava conservadora. O telefone toca, Catherine atende. Percebe que é Edgar que está falando. Mas o barulho no ambiente é tão alto que fica impossível dialogarem. Ela desliga, com violência. Só há um instante de alívio: quando os operários desligam suas britadeiras para dar cantadas nas mulheres que passam na rua. Mas a pausa é cruelmente breve. As máquinas voltam a funcionar, indiferentes à perturbação que causam. Catherine pensa nas suas relações com os homens. Desanima-se ao concluir que tem cometido os mesmos erros de sempre. Percebe que o apartamento de Edgar tem sido um esconderijo. Dentro dele, sua vida não muda. Lá fora, a reforma continua.

Vestígios de Catherine Pin Campden

O apartamento fica no andar térreo. Sala, escritório, cozinha, banheiro, quarto e um pátio, nos fundos. A sala tem largo sofá de três lugares, cor verde. Sobre ele, lençol branco e almofadas. Uma delas está caída sobre o tapete, cor laranja, junto à garrafa de vinho tinto, marca Miolo, vazia. Do lado do móvel da TV grande e velha, abaixo da janela que dá para a rua, há uma poltrona de tecido listrado em amarelo e lilás. Ela está ocupada por camadas de livros, jornais e revistas. Três das quatro paredes da sala são preenchidas por estantes. São de madeira escura e estão repletas de livros e de pequenos objetos decorativos. A mesa central ocupa a maior parte da sala. Sobre ela, muitos livros, papéis, pastas, roupas passadas e dobradas e, num pequeno espaço vazio, um telefone celular, alguns CDs de jazz, um pacote aberto de cigarros Marlboro e um livro: “Perto do coração selvagem”, de Clarice Lispector. Na única parede livre tem algumas réplicas de pinturas e um grande cartaz de peça teatral. Anuncia "Julieta fracassada", com a foto de um casal em postura dramática e destaque para os nomes do diretor, "Edgar Ruppert", e dos atores protagonistas, "Catherine Pin Campden" e "Eduardo Ricci Padova".

O escritório, pintado de azul celeste, tem uma das paredes inteiramente ocupada por uma seqüência de estantes metálicas, cheia de livros e objetos diversos. Entre eles, um pequeno troféu com a inscrição: “Para Edgar Ruppert – Prêmio Açorianos de melhor direção”. Na parede oposta, uma mesa comprida, com livros, cadernos, canetas, CDs, um computador ligado e um aparelho de som. Na frente dele, uma caixa de CD aberta, “Clássicos de Billie Holiday”, e um isqueiro cor-de-rosa. Abaixo da janela um sofá-cama de tecido amarelo com almofadas amassadas. Ao lado de uma delas, um brinco prateado, grande e pendular, ornado com um topázio azul. No chão, duas almofadas e outra garrafa de vinho Miolo, também vazia. Sobre o tapete cinza uma carteira de cigarros, quase cheia, e um par de “dados do amor”. Um deles tem, em seus seis lados, escritas as palavras “pés”, “mãos”, “pescoço”, “peito”, “boca”, e “vergonhas”. No outro, as palavras são “beijar”, “lamber”, “acariciar”, “morder”, “sugar” e “soprar”. As faces voltadas para cima formam a combinação “soprar o pé”.

A cozinha é grande. Os azulejos vermelhos. Fogão e geladeira, também. Encostada numa parede, uma grande mesa com tampo de fórmica marrom. Sobre ela, uma caixa de tele-entrega de pizzaria, vazia, copos com resto de refrigerante, uma garrafa de Coca-Cola dois litros pela metade e dois pratos com restos de pizza. Duas cadeiras, díspares, acompanham a mesa. Sobre uma das cadeiras, um maço de cigarros, vazio.

O banheiro é pequeno e verde. O chuveiro está pingando e as portas do box estão molhadas. Duas toalhas úmidas estão atiradas sobre um pequeno banquinho. No balcão, um batom vermelho, uma escova de dente cor azul e uma máquina de barbear.

A porta do quarto tem uma placa com um símbolo de proibição em cima do desenho de um cigarro. E uma ordem por escrito: “Não Fume”. O quarto tem paredes cor bege. Um grande armário em mogno, oito portas. A cama de casal tem cobertores pesados, coloridos e revirados, misturados a travesseiros, ocupando parte do piso e deixando desnuda uma considerável área da fronha azul celeste que envolve o colchão. Numa das mesas de cabeceira, ao lado do abajur pequeno, três garrafas vazias de vinho Miolo, dois invólucros de preservativos, vazios. Há outros dois no chão. Na mesa de cabeceira do lado oposto tem duas taças com resto de vinho e um grande cinzeiro de vidro cheio de cigarros, todos com marca de batom, e, perto do abajur, uma aliança folhada a ouro.

Na parede oposta do quarto está uma estante com TV e aparelho de DVD. Sobre o aparelho, duas caixas de filmes: “O jovem Frankenstein” e “Primavera para Hitler”. Ao lado da estante, um sofá de dois lugares. Acima dele, preso à parede, um mural com diversas fotografias. Em quase todas, um mesmo homem aparece. Numa delas, num cenário de solenidade, ele está erguendo um troféu. O mesmo troféu da estante do escritório. Em outra foto, ele está junto a um casal de noivos numa cerimônia de casamento. Os três sorrindo abertamente. Os noivos são as mesmas pessoas do cartaz de teatro na parede da sala.

Eu não sou. O universo é que é-me.

Não há pés nem pegadas no espaço. Tudo invisibiliza-se de passado ou perspectiva. Apenas as estrelas flutuam-se, como incêndios da minha solidão. Aqui onde estou, o vácuo torna-me inevitável de mim. Não há atrito entre eu e eu.

Catherine Pin Campden diante da vida

Um frio fim de tarde de céu azul numa esquina movimentada. As placas das ruas identificam a Avenida Borges de Medeiros e a Rua Riachuelo. Um táxi está parado com a porta aberta. Ao lado dele, duas mulheres estão paradas. Olham-se com carinho. Uma delas, grávida, jovem, cabelo escuro e longo, com um largo vestido bege, diz: – "Cathy. Falta apenas uma semana. Nos vemos no hospital, certo?" A outra concorda. Abraçam-se com força. Despedem-se. A grávida entra no táxi e vai embora. Cathy fica parada por alguns segundos. Vira-se e entra na rua Riachuelo. O ruído do trânsito é intenso. A calçada cheia de gente. Cathy caminha sem a pressa das pessoas ao seu redor. Olha para o piso irregular. Olha para a lanchonete de mesas vazias. Encostados no balcão, um homem e uma mulher se beijam. Cathy olha para eles. Passa pela porta de um edifício de onde está saindo uma mulher com um carrinho de bebê. Cathy olha para o bebê. Passa por uma vitrine colorida e alegre. Olha para um agitado grupo de meninas com uniforme de jardim de infância, conduzidas por uma adulta. Cathy sorri. Diminui a velocidade, mas não pára, enquanto dá atenção à vitrine de uma livraria. Retoma sua passada. Olha uma menina e uma senhora que estão discutindo. Cathy desvia-se delas. Olha para o chão. Vê seus tênis brancos, um pouco sujos, e sua calça jeans. Um carro está saindo de um estacionamento, ocupando toda a largura da calçada, a espera de uma vaga no trânsito. Cathy olha-se no vidro lateral do carro. Seus cabelos castanhos, presos. A blusa lilás de meia estação. A bolsa de couro. A expressão do rosto tem uma dignidade calma. O carro sai. Cathy passa por um grupo de adolescentes que estão parados na frente de uma escola de informática. Olha para um casal de namorados que está entre eles. Olha outra livraria, a loja de ferragens, a lojinha de artigos para gestantes, a escola de inglês. Observa demoradamente uma senhora elegante, de olhar triste e andar lento, que está do outro lado da rua. Passa por um prédio muito antigo cor salmão. O letreiro diz: Biblioteca Pública de Porto Alegre. Nesta parte da rua o movimento diminui. O barulho também. Cathy olha para o céu. Ainda há sol. Um casal de velhos caminha vagarosamente. Cathy os ultrapassa e alcança a esquina onde tem as placas da Rua Riachuelo e Rua General Câmara. Olha para trás, nenhum carro está se aproximando. Começa a atravessar a rua. Olha, poucos metros à sua frente, sobre a mesma faixa de segurança por onde caminha, um corpo se espatifar no chão. Cathy pára. Coloca a mão sobre o peito. Abre a boca. Empalidece. Um carro buzina para ela. Mas Cathy não se move. Forma-se, rapidamente, uma multidão ao redor do corpo. Um tumulto toma conta do local. Carros param. Pessoas gritam. Algumas choram. Outras simplesmente silenciam com uma expressão grave. Alguém comenta: – “Se atirou do último andar!” Um rapaz, desesperado, tenta parar um táxi, pedindo socorro. O táxi não pára. Cathy recomeça a caminhar. Afasta algumas pessoas da sua frente. Vai até o corpo que viu cair. É de uma moça. Quinze ou dezesseis anos. Loira. Muito branca. Com roupas de casa. Uma camiseta azul clara, calcinha amarela, meias brancas. Está de costas para o chão, braços abertos, pernas desalinhadas, olhos fechados, lábios sem cor. Surgem hematomas na sua pele. Um filete de sangue sai por uma das orelhas. Outro pelo canto da boca. Ninguém toca nela. Uma mulher surge na porta do prédio em frente. Aproxima-se correndo e empurrando todos. Um homem com uniforme de porteiro tenta segurá-la. Não consegue. Ela grita: – "Minha filha!" A mulher se atira sobre o corpo da moça caída na rua. Chora em desespero. Cathy vira-se de costas. Depois de alguns segundos se afasta. Volta para a rua Riachuelo. Continua seu caminho.

O casamento de Catherine Pin Campden

Enfim o casamento de Catherine. Uma festa tranqüila num clube sofisticado. Muita gente. Pessoas bonitas e simpáticas. A decoração é alegre. Flores em toda parte. A cerimônia é a céu aberto, sobre o belíssimo gramado. Os recém-casados recebem os cumprimentos dos convidados no buffet. Catherine está usando um suave vestido azul com detalhes em rosa. Pouca maquiagem, cabelo preso. Elegante como sempre. Sorri para todos, feliz e serena. Por acaso encontra Edgar entrando no ambiente. Continua sorrindo. Olha para sua mãe. Ela também está olhando para Edgar, mas com uma expressão preocupada.

Ninguém ali o conhece Edgar. À medida que caminha no salão atrai outros olhares. Usa uma bermuda colorida, velha e desbotada, chinelo de dedo e uma camiseta branca estampada com uma propaganda de refrigerante. A típica roupa de ele usa em casa ou que usa para ir, no máximo, na padaria da esquina. Além disso, tem o cabelo despenteado e o andar displicente. Seu olhar encontra os noivos e ele vai até eles. Catherine e a mãe trocam olhares cúmplices.

Edgar e Catherine mais uma vez frente a frente. Separaram-se há dois anos. Catherine não está mais sorrindo. Observam-se em silêncio. Catherine está assustada. Edgar tem a expressão melancólica. Ele se aproxima da noiva para cumprimentá-la. O silêncio persiste. Abraçam-se num movimento contido, tímido. Beijam-se nas faces e a boca de Edgar fica próxima do ouvido de Catherine. Ele sussurra:

– Cathy! Sei que pensa que eu traí você por ter ficado com a Angelina. Mas quando isso aconteceu, nós estávamos brigados.

Catherine responde no mesmo tom de sussurro, mas com irritação:

– Você não foi convidado. Não era pra ter vindo. Por que está fazendo isso? Olhe para você! Por que veio vestido desse jeito? Eu adoraria rir disso, mas não dá! Você sempre faz humor na hora errada!

Cathy olha mais uma vez para a mãe. À distância ele olha para os dois abraçados e com os rostos juntos. O secreto diálogo continua:

– Mas ainda que fosse traição, Cathy! Ainda que fosse! A sua reação é desproporcional. Resolveu casar! Nunca acreditou em casamento. E olha só que cara ridículo! Ele tem tudo que eu sempre achei ridículo num homem: é alto e usa tiara no cabelo. Você está casando com ele pra me agredir, Cathy!

Catherine deixa escapar um pequeno riso, mas prontamente o abafa.

– Edgar, pára com isso! É o meu casamento! Não é momento de nós discutirmos nossas escolhas. Você teve uma péssima idéia vindo aqui. A minha mãe está furiosa! Ela vai expulsar você da festa.

Ainda sem se olhar eles ainda tem bocas e ouvidos próximos. Catherine mais uma vez encontra o olhar atônito de sua mãe. Edgar continua.

– Cathy, eu vim aqui pra lhe falar sobre a nossa gatinha, a Mionah. Desde que você foi embora ela ficou muito infeliz. Como tudo na minha vida. Ela adoeceu e morreu, Cathy. E acho que o mesmo vai acontecer comigo se você continuar longe de mim.
Catherine recua o rosto com espanto. Os olhos dos dois voltam a se encontrar. Edgar aperta os lábios. Sua aparência é de abandono profundo. O olhar de Catherine se enche de ternura. Esquece de tudo que há ao redor. E exclama com voz dolorida:

– A nossa Mionah...

Catherine chora. Cobre os olhos com as mãos. Recompõe-se. Volta a olhar para Edgar. Envolve-o em seus braços. Edgar mantém sua posição inalterada. Braços abaixados, a cabeça apoiando-se no ombro de Catherine. Ela aperta o abraço. Fecha os olhos com força e, quando os abre, vê sua mãe se aproximando. Recua mais uma vez. Está com o rosto coberto de lágrimas. Olha mais uma vez para Edgar. Ele lhe dá adeus e recua um passo para ir embora. Mas Catherine o puxa pelo pulso, trazendo o corpo dele junto ao dela. E o beija na boca.
Um beijo longo e carinhoso.

Dramático reencontro com Catherine Pin Campden

Edgar senta na primeira fila no teatro. As luzes estão ainda acesas e o público está se acomodando. Tudo corria bem até Edgar descobrir, ao ver o cartaz, que Cathy, ou "Catherine Pin Campden", faz parte do elenco. Edgar está atônito. Mas tenta não demonstrar isso à sua companhia, Angelina, a atual e insatisfatória namorada, pivô da trágica separação entre ele e Cathy. Foi Angelina que insistiu que fossem assistir à peça. Edgar não gosta de ir ao teatro. Só aceitou porque o título, "Meu coração despedaçado e outras catástrofes", chamou sua atenção. Ele achou engraçado e se identificou com o sentimento dramático contido nele. Fazia lembrar de Catherine, de quem ele se separou há mais de um ano. A mulher da sua vida.

Pensou em inventar uma desculpa e ir embora. Mas desistiu da idéia, tal era a sua curiosidade. Angelina conversa animadamente com Edgar, mas ele não a ouve. Está perdido em seus pensamentos. As luzes apagam. Angelina pede para Edgar parar de roer as unhas. A cortina abre, as luzes do palco acendem, o espetáculo começa.

Torturado pela expectativa, Edgar assiste as primeiras cenas. Não consegue prestar atenção. De repente as luzes todas se apagam. E após longo e silencioso suspense um único holofote acende e banha de luz branca a personagem que surge. É Cathy. Edgar não consegue respirar. Ela está a dois metros dele, num largo vestido azul celeste com brilhos sobre sua superfície e longo até o chão. O cabelo preso e levemente ruivo faz aparecerem brincos pequenos e delicados. Os olhos escuros, a pele muito branca, o nariz pequeno, a boca grande e sensual, sob forte batom vermelho. Está "elegante e gordinha", como Edgar gostava de defini-la. Seu rosto é muito bonito. Sua postura em cena é ao mesmo tempo forte e frágil. Em meio a uma turbulência de sentimentos, Edgar olha para Cathy. É impossível um homem não se apaixonar por ela.

A personagem de Cathy move a cabeça, com suavidade, passando o olhar pela platéia, mantendo um silêncio severo. O olhar de Cathy enfim encontra Edgar. Ela pára. São segundos infinitos. Seus lábios tremem. Ela perde a segurança. Seus olhos ficam cheios d’água. A personagem torna a olhar para a platéia. Um pouco trêmula e já com lágrimas escorrendo ela inicia:

– Pois o que aprendi é que não existe no universo inteiro lugar mais solitário e incompreensível do que o ponto onde se localiza um coração partido, machucado e decepcionado. Não esperem jamais compreender as atitudes deste coração que perdeu o sonho e foi envenenado pela mágoa e pela desilusão. Tudo é dor quando não há colo para as palavras, quando não há alívio para os sentimentos, quando o destino mais querido se perde na floresta dos esquecidos. O amor desiste, triste. O olhar caído suplica por esquecimento. Não existe momento mais amargo. O afago almejado é um desejo impossível. E todos os medos imaginados se realizam. E agora o que me resta é seguir os passos em direção ao futuro que me resta. E dedicar ao passado a minha eterna solidão...

Ao terminar, o olhar de Cathy volta a encontrar Edgar. Ele decide encará-la com a mesma coragem. Estão hipnotizados. O silencio é total. Ninguém percebe o verdadeiro drama. Edgar deixa escapar um sussurro:

– Cathy... por favor, me perdoa...

Cathy se despoja da personagem e responde com violência:

– Edgar, por que fez isso? Por que veio aqui me ver? E pra quê trazer a Angie? Que droga! Você sempre faz tudo errado, Edgar! Que droga!

Cathy cobre os olhos com as mãos e começa a chorar. Mas interrompe-se para dar um anúncio à platéia com uma formalidade forçada:

– Senhoras e senhores, peço desculpas. Mas não posso continuar. Com licença.


Cathy sai do palco a passos firmes e irritados, afastando os atores que tentam acalmá-la. As luzes todas acendem. Edgar permanece em sua cadeira enquanto tudo desaba. O caos toma conta do teatro. A vaia do público inconformado, o desespero de Angelina lhe fazendo perguntas. Todos exigem uma resposta de Edgar. O espetáculo termina, mas o drama não tem fim. Ele decide levantar para ir embora e sente que uma nova agitação inicia. Todos olham para o palco. É Cathy, que voltou. Está refeita e decidida. Pede atenção ao público e fala:

– Eu quero pedir desculpa para todos vocês. E peço que permitam que a apresentação continue.

O público aplaude, acalma-se e retoma seu lugar. As luzes apagam. Um único holofote acende e sua luz encontra Cathy mais uma vez na pele de sua personagem. Ela percebe que estão vazias as cadeiras antes ocupadas por Edgar e Angelina. E percorrendo o olhar pelo ambiente descobre os dois se dirigindo à saída do teatro. Então começa a chorar. E fala com a voz embargada:

– Edgar... por favor, me perdoa...

Catherine Pin Campden em Inverness

Catherine Pin Campden volta para casa chorando. Não é longo o caminho entre a padaria e a casa de sua avó, com quem veio morar em Inverness, no norte da Escócia. Mas o frio é muito mais impiedoso do que ela esperava e em pleno meio da tarde já é noite. Há poucos dias estava no calor de outro hemisfério do planeta rompendo seu namoro. Agora se sente desamparada ao perguntar para si mesma se ter vindo para um lugar tão distante não foi apenas mais um de seus atos teatrais e impulsivos. A neve profunda retarda a velocidade da caminhada e irrita suas lembranças. Ao pensar no namorado seus passos tornam-se mais nervosos e impacientes. Tropeça na neve e cai deselegantemente. E chora. Chora e ninguém ouve. Ergue-se sozinha e retoma seu percurso.

A avó não está em casa. Prefere assim. Não quer conversar. Não quer fazer nada. Sobe até seu pequeno quarto, carente de calor e de ânimo. Ela deita na cama e sem demora escuta o telefone tocar na mesinha de cabeceira. Supõe ser apenas mais um telefonema de sua mãe, que liga a toda hora, e não se esforça para esconder a tristeza em sua voz:

– Alô…

– Cathy?

– Oh? Mas... Edgar? Edgar, como descobriu meu telefone? Como descobriu onde estou? Edgar... eu... eu não gostei disso! Não era pra você me ligar, poxa! Eu vou desligar!

– Cathy, pára! Você já tem mais de trinta anos, não precisa agir como criança. Essa ligação é caríssima. Então serei objetivo. Eu preciso muito de você agora!

– E que saco essa sua mania de lembrar que eu tenho mais de trinta!

– Cathy, me escuta. Tem uma janela aí perto de você?

– Ãhn? Tem né, Edgar? O que isso tem a ver com o contexto?

– Quero que vá até a janela e abra-a, prestando muita atenção no que faz.

– Como é que é? Pra que eu faria isso, Edgar? Eu vou desligar, tchau!

– Cathy, é sério, por favor! Vai ali, abre a janela e volta pro telefone.

– Que droga! Espera!.

Catherine solta o telefone com raiva a vai até a janela tropeçando em móveis e malas. Levanta o vidro com muita dificuldade e empurra violentamente as pesadas venezianas, num movimento que lança seus braços para frente sem encontrar apoio, o que lhe impõe um desequilíbrio meio ridículo. Ela se agarra no parapeito congelado já sentindo o frio invasor e olha para a rua com desolação. Só vê neve e noite. Então corre para o telefone e retoma sua conversa:

– Edgar! Tá quase 20 abaixo de zero, seu imbecil!

– Cathy, me escuta. Eu preciso que me diga, detalhadamente, como foi essa experiência.

– O quê? Edgar, eu não acredito! É a primeira vez que a gente se fala depois que eu fui embora! Você me localizou no pólo norte só para me pedir pra abrir uma janela?

– Cathy... é que... eu tenho que entregar um texto... um texto que descreve uma personagem feminina abrindo uma janela. E você é minha personagem, Cathy! Ninguém mais poderia ser. Só você pode me ajudar, Cathy! Só você pode me inspirar a dar vigor e veracidade a esse texto!

– Edgar, que brincadeira é essa? Eu não estou com humor para achar isso interessante, ok?

– Cathy, eu liguei porque estou desesperado! E... e eu te amo, Cathy.

– Ok, Edgar, põe aí na tua historinha que “fulana de tal abriu a janela se sentindo uma idiota por ainda dar ouvidos para o seu ex-namorado infantil e narcisista”. E com licença, virei picolé. Vou fechar a janela. Tchau, Edgar!

– Cathy, por favor!

– Tchau, Edgar!

Catherine fecha a janela. Agora se sente mais calma e permite a si mesma rir em voz alta ao recordar de sua conversa. Atira-se na cama e percebe que nunca havia sentido tanta ternura por Edgar como nesse momento.

O homem que dormiu por amor



Um dos contos da coletânea de ficção científica "SCI-FI Stories", do gato siamês Lucifer Sam.

Earth Planet, 2003.
No mundo de Roger, um escritor frustrado, apenas Angelinna, uma atriz emergente, existe. Ele a ama com ternura e compreensão. Tudo que pensa, sente e deseja dirige-se para sua amada. Angelinna não sabe o que sente... e casa-se com Bartolomeu.

Conformado, Roger passa os dias em casa com sua gata preta Mionah. Tudo que ela quer é um pouco de comida e proteção. E tem. Tudo que Roger quer seu coração cansado deseja esquecer. Mas não esquece. Numa madrugada fria decide telefonar para Angelinna:

- Alô ? Angie ?

- Ãhn ?

- Angie... sou eu...

- Roger ?

- Sim...

- Roger... eu... você enlouqueceu ? Sabe que horas são ?

- Angie... eu não sei viver sem você... eu sou um personagem simplório, linear, estereotipado, emotivo e trágico...

- Roger... eu... eu gosto de você mas... mas eu estou casada e meu marido está aqui do meu lado, dormindo... ah, ao menos ele é normal... ah, Roger... Roger, poxa... não superou isso ainda ? Você foi no meu casamento... e... e parecia estar legal... até foi vestido de Drácula, que gracinha. Meus pais não entenderam, mas no fim foi divertido embora o Bartolomeu não tenha gostado quando você quis avançar no meu pescoço.

- Angie... só você entende o meu humor... mas não entende o meu amor...

- Roger... eu... quer parar de dizer essas frases cafonas ? Parece esses sedutores de internete ! Eu sei que sempre fui meio confusa a respeito das minhas emoções mas... mas eu estou casada, Roger... com o Bartolomeu... entende ?

- Angie... eu amo você... o Bartolomeu é um baita juca... e... ele não faz você rir... e usa tiara no cabelo ! É insuportável !

- Roger... eu... eu estou com sono, Roger... eu... eu tenho que dormir... acho que é o melhor que temos a fazer agora... dormir...

- Mas... mas Angie... eu queria apenas que você me dissesse o que sente por mim... apenas isso... para que eu possa dormir em paz...

- Roger... eu... eu acho que não devo dizer a você o que eu sinto. Não quero magoá-lo. Sei lá cara, tente namorar, sair, se divertir, fazer algo útil, essas coisas indicadas a pessoas que...

- Que são fracassadas ?

- Eu vou desligar, eu estou com sono... eu tenho que dormir...

- Eu vou lhe dizer o que desejo, Angie... eu desejo dormir por mil anos...

- Roger... eu também gostaria de dormir por dez séculos. Mas amanhã eu tenho ensaio... então... tchau, Roger. Eu realmente quero que um dia a gente se encontre de novo. Quem sabe numa ocasião mais conveniente...

- Eu perdi as esperanças, Angie... eu... eu vou dormir e sonhar... quem sabe nos meus sonhos você me ame...

- Roger... eu... eu tenho que desligar.

- Alô ? Alô... Angie ?


Então Roger dorme.
Dorme.
Dorme.
Dorme durante mil anos...

Earth Planet, 3003...
Depois de séculos dormindo, Roger acorda para espanto do mundo.
O homem que dormiu por amor. O tempo para ele era o tempo dos sonhos: inexistente. Não envelheceu, não morreu, não viveu. Apenas sonhou o tempo todo com sua amada Angelinna. Inconsciente, o medíocre escritor conquistou a fama que jamais obteve quando estava acordado. Tornou-se um pop star da ciência e de programas populares. Foi até atração turística. Mas a ação corrosiva do tempo é implacável. O sucesso não dura para sempre, nem para quem dorme. O interesse no "dorminhoco" caiu dramaticamente. Críticos de arte apontavam a "performance repetitiva do sonolento Roger", como elemento denunciante de sua decadência. Após alguns fracassos de bilheteria em cidadezinhas do interior, foi destinado a ser observado num hospital insignificante.

Agora, em pleno ocaso de sua inusitada fama, Roger desperta. E está atônito:

- Ué ? Que lugar é esse ?

- Senhor Roger, calma, o senhor teve um longo sono, calma.

- E... e a Angelinna ? Cadê a Angie ?

- Senhor Roger, acalme-se por favor.

- Mas... mas... eu estava falando com ela agora mesmo... onde ela está ?

- O senhor está no ano 3003, senhor Roger...

- O quê ? Então eu realmente dormi por mil anos ? E você me fala assim, como se fosse a coisa mais normal do mundo ? Eu... oh ! Eu estou abalado ! Por que não me contaram aos pouquinhos, para eu ir me acostumando ?

- Senhor Roger, este tipo de psicologia está superada há... há mil anos. Além disso esse conto não pode se estender muito. Seus mil anos de sono mal duraram um parágrafo. Então sejamos objetivos e pulemos estas partes sentimentais, ok ?

- E a minha gata, a Miona ? Coitadinha... deve estar morrendo de fome !

- Senhor Roger, por favor centre-se na linha lógica desta história ! A Gata Miona não tem peso dramático ! Volte ao seu desejo por Angelinna, vamos ! A hibernação durante mil anos não foi suficiente ?

- Ok, ok ! Eu quero ver a Angelinna...

- As pessoas que conheceu em sua vida ainda existem, mas não mais com a mesma identidade. Elas morreram e renasceram várias vezes enquanto o senhor tirava um cochilo. Mas sua vida e suas relações são conhecidas por toda a comunidade científica e por todo o público que assiste o Fantástico. A senhorita Angelinna, uma atriz de teatro que o senhor conheceu no século XX teve cinco reencarnações posteriores.

- Cinco reencarnações ? Mas... e eu aqui nesta mesma carne ainda ?

- Pois é. No século XXII ela foi uma famosa cantora pop que no auge da fama morreu após engasgar-se com um gole de Coca Light. Teve muitos fãs, mas nunca se sentiu verdadeiramente amada. No século XXV ela teve uma vida normal e anônima, casando-se com um gerente de banco boa pinta e cheio de amantes. Teve conforto e segurança. Mas nunca se sentiu verdadeiramente amada. No século XXVI ela foi uma professora de inglês em Marte e casou seis vezes. Os homens se aproximavam e se afastavam dela com o mesmo furor. Então ela nunca...

- Se sentiu verdadeiramente amada... sei...

- Isso. No século XXVIII, nascendo numa família religiosa, ela escolheu ser freira. E muito jovem partiu para Orion Nebula em uma missão evangélica, vindo a ser a primeira terráquea a ter um filho com um extra-terrestre. O ET até que era um cara legal, mas dava muito mais atenção ao futebol e à cervejinha no bar com os amigos. Como consolo ela cultivava a certeza de que Deus a amava. Mas, dois anos depois, astrofísicos da Namíbia, então a maior potência do planeta, provaram que Deus não existe. Então Angelinna nunca se sentiu verdadeiramente amada.

- Coitadinha...

- É... quem sabe se o senhor tivesse vivido essas vidas não faltasse amor à Angelinna.

- Mas... e quando ela foi a Angelinna mesmo, e se casou com o Bartolomeu... o que aconteceu ?

- Bartolomeu morreu poucas horas depois do senhor ter telefonado para Angelinna. Ele saiu para o trabalho e estava caminhando numa calçada quando caiu um piano em cima dele, lá do último andar, que nem nos desenhos animados do século XX. Não sobrou nem a tiara... Angelinna procurou o senhor para tentar uma reaproximação. Mas...

- Oh... eu já estava dormindo...

- E esperou o senhor acordar com uma paciência inédita na vida dela. Mais de 15 minutos ! Depois saiu e foi cuidar da própria vida. Acabou ficando famosa graças à súbita popularidade do caso. E sobre este incidente fez o papel dela mesma no filme “He Slept For Me”, baseado em livro homônimo que é uma versão da própria Angelinna sobre esta história. Mas em seguida houve outro filme, dando conta de um suposto ponto de vista do senhor mesmo, com o título “Ungrateful Cow”, que premiou a vaca Lindah Milkway, que fez o papel de Angelinna, com o primeiro Oscar de melhor atriz dado a um animal.

- Eu... eu... eu não acredito... eu... eu devo estar sonhando ainda...

- Enfim, no século XXIX ela nasceu novamente e está viva até agora.

- Oh ! Onde ela está ? Eu quero falar com ela ! Eu quero ver a Angie !

- Senhor Roger... nesta encarnação ela é um esportista muito competente, campeão olímpico de arremesso de Spflupftimus.

- O quê ?

- Spflupftimus. É uma espécie de dardo com aerodinâmica de quinta dimensão.

- Não ! Não quero saber desse Sflitiputmerflafticos ! Eu quero saber da Angie ! Você disse que ela é... um esportista ? Um homem ?

- Sim. Angie reencarnou como Igor Romanov Shernenko, um ucraniano.

- Mas... mas... mas e minha Angie ?

- Sua Angie estará para sempre nos seus sonhos, senhor Roger...

Magoado coração de chumbo

Plúmbeo é meu céu agora
Ríspido é meu chão sem rumo
Fora do mundo eu durmo
Dentro do mundo eu surdo
Ouço a canção das horas
Mudo a razão calada
Mudo não ouço nada
Mudo, mudo o mundo
Surdo, ouço tudo
Tudo num segundo
Tudo absurdo...

Um tenor sem amor



Francesco Gasperin é um iniciante cantor de ópera da Sardenha. Emotivo, frágil, ingênuo e apaixonado pela música e pelas mulheres, ele se dedica com fervorosa volúpia nos testes para conseguir um papel nas grandes óperas.

Mas nenhuma das inúmeras mulheres com quem sai é capaz de lhe provocar o mesmo impacto emocional das árias de Verdi e de Rossini, ou das óperas de Mozart. E depois dos encontros ele sempre volta para casa frustrado.

Até que conhece Gloria Pulpnick Stewartson, uma contra-alto escocesa muito debochada, fria e independente:

"Olha, Roger... temos duas opções: ou a gente fica amiguinho e você mais uma vez vai ficar nessa lenga-lenga de que as mulheres não são tão boas como as músicas que você canta, ou a gente faz amor agora mesmo. Faltam menos de 30 minutos para começar o ensaio. Acho melhor a gente não perder tempo. Não me leve a mal, mas nós, mulheres da Grã-Bretanha, somos muito objetivas, saca ?"

"Tá ok, Gloria... mas... só uma pergunta..."

"Hum ?"

"Por que me chamou de Roger ?"

"Oh ? Oh ! Desculpa ! Foi apenas uma confusão. Certa vez conheci um rapaz, em Glasgow, com esse nome. Acho que você me fez lembrar dele. Era assim como você... baixinho, metido a esperto, mas muito ingênuo, saca ? Ahahahahah, tô brincando... não faz essa cara, poxa ! Vem... vamos brincar de Tristão e Isolda..."

Music, baby ?



Fénelon McBerry é um insignificante músico de Baltimore que ganha a vida compondo canções românticas que ele canta por telefone, a pedido de suas fãs, e que é atormentado por sua ciumenta namorada, a desocupada Marcia Mindgath:

- Olha, Roger... não dá mais pra agüentar, ok ? Essa musiquinha que você fez para essa sua fã aí. Qual o nome dela, mesmo ? Mildred ! quantos anos ela tem hein ? 70 ? Achei ridículo você cantando pra ela no telefone. E que letrinha ridícula, Roger ! "eu tive medo e foi tão solitário... cada momento que estive ao teu lado... teu corpo foi o meu esconderijo... por teu calor doei-me em sacrifício". Que nojo, Roger ! Quando começamos a namorar pensei que você fosse um artista !

- Marcia, é o meu trabalho, ok ? Aquelas violetas que lhe dei de presente no Valentine's Day, lembra ? Foi graças à canção que fiz para a senhora Greeensback, a dona da floricultura. No fundo, minhas músicas são todas pra você, meu bem.

- E sabe o que mais me irrita, Roger ? Você nunca fala pra mim essas palavras carinhosas. Sei, são terrivelmente cafonas. Mas deve ser legal ouvir isso de um homem. Você é o sonho das suas fãs, mas comigo você é quase sempre rígido e distante. Como você acha que me sinto ?

- Calma, meu bem, calma... eu... olha... tem uma música que fiz hoje mesmo... especialmente pra você... sério ! Não me olhe assim... escuta só:

"teus olhos são o espelho da minha alma...
a dor que sentes eu já adivinhava...
de amor carentes meus braços te abraçaram...
tão resistentes meus beijos te beijaram..."

- Roger ! Essa música você cantou ontem pra uma cliente sua ! Eu ouvi na extensão !

- Por que está me chamando de Roger, hein ?

- Não mude de assunto, seu canalha !

Chica Chica Bum Chic



Atuando em "Chica Chica Bum Chic".

Foi um dos papéis mais difíceis da minha vida, pois é um filme de difícil interpretação. Apesar de ser muito curto, exigiu de mim intensa concentração, o que me deixou absolutamente exausto no fim das filmagens.

O enquadramento fotográfico ousado, o movimento de câmera sofisticado e a trilha sonora aparentemente deslocada enganarão o público menos avisado sobre o alcance hermético deste curta-metragem.

Creio que Chica Chica Bum Chic é uma daquelas obras em que os críticos jamais chegarão a um consenso sobre seu significado. E poucos, muito poucos, perceberão a genialidade das mensagens submersas em seu conteúdo misterioso e oblíquo. É arte pura. Não é esses "filmizinho candidato a Oscar", saca ? ¬¬

Veja o filme neste link do Google Video:
Chica Chica Bum Chic

Lágrima Star



Viajando no vazio intergaláctico eu estava deitado na poltrona da cabine de comando da Interestellar Overdrive. De olhos fechados eu pensava nos momentos do meu passado afetivo em Earth. As pessoas que se foram. Os fatos mais sinceros. A trajetória da tragédia eu já conhecia, mas esqueci de esquecer que senti saudade. Saudade. Nunca pensei que viesse assim, tão fria. Adivinhei que eu não sabia.

Quando abri os olhos vi uma estrela flutuando lá em cima, piscando e se movendo no espaço com leveza e serenidade. Belíssima...

Num esforço de atenção percebi que era uma pequena e delicada gota flutuante, além da ação da gravidade, boiando na nave branca e refletindo as luzes do painel do computador de bordo Messias Machine.

Então pude notar: era minha lágrima...

Que rumo tomará este pingo de sentimentos submersos ? Que universos de mim ele leva em sua esfera corajosa e coesa ? Minha tristeza em prosa e verso destilada. Minha alegria contida numa gota d'água. Minha verdade líquida numa estrela cintilante.

Diabo desamparado



Um diabo tem a missão levar para o inferno a alma de Frances Mahoganny, uma bibliotecária inocente e pacata que comete gravíssimo pecado ao se apaixonar por um homem alto. E como se isso não bastasse, ele ainda usa tiara no cabelo !

No fim o próprio diabo é que se apaixona por Frances:

- Frances, por você ficarei para sempre no mundo. Irônico, não é ? Eu tinha o poder de deixá-la para sempre no inferno. Mas seu poder é muito maior. E agora eu me torno um diabo fracassado e um homem apaixonado.

- Olha, Roger...

- Roger não, Diabo.

- Ah é, desculpe. Bom, como eu ía dizendo, Diabo... hum... sabe ? Até que você é legalzinho. As pessoas falam muito mal de você, mas esses meses todos que convivemos me fizeram perceber que acima de tudo você é engraçado. Um pouco inseguro, indeciso e até pedante. Tem aquela arrogância inglesa, saca ? Mas você é muito afetivo e me fez rir bastante. Taí, gostei de você, cara. Mas... ah... eu sei que o Geronimus é um babaca. O cara daquele tamanho, com jeito de crianção. Tiara no cabelo e tal. Mas, poxa Roger...

- Porra, não é Roger, é Diabo, ok ?

- Ai ! Desculpe, Roger... ops, Diabo ! Sempre esqueço ! Pois então, o Geronimus é realmente um baita juca, como você mesmo disse desde o início. Mas... poxa...

- Eu quero você, Frances. Eu amo você. E abdico da minha eternidade para ser um simples mortal para poder viver ao seu lado. E Frances... eu sou melhor que ele... fica comigo...

- Mas Roger, você é um diabo, poxa ! E o Geronimus... ele é... hum... uau... ele é um deus... uhh ! Ahahahahah... ah... não me leve a mal, ok ? Mas o cara é o maior gato, cara...

- Frances, que droga isso ! Ele é totalmente sem graça. E não tem a mínima noção do potencial que você tem. Jamais fará você feliz. Ele não gosta dos filmes e músicas que você gosta. E ainda por cima usa Windows 95 ! Como você pode suportar ?

- Ahahahah... ah Roger...

- Diabo !

- Ah é, Diabo... não consigo me acostumar... quando apareceu na minha vida você parecia um anjinho. Será que todos homens são assim ? Ahahahahah... Ah, eu não sou mulher pra você. Eu gosto desses babacas bonitões, altos e com tiara no cabelo, saca ? Acho que pra você serve a minha amiga aquela, a Lorraine. Ela é coelhinha da Playboy, super safada, sacana com todo mundo e formada em filosofia em Berkeley. Tudo a ver com você !

- Mas... mas Frances... e nós ? E o meu coração ?

- O seu coração você devolve pro inferno, Diabo ! Ahahahahahah...


(Então o riso de Frances, ecoando ensurdecedoramente, enlouquece a mente do Diabo que, em total desespero, coloca inutilmente as mãos nos ouvidos, e emite um grito surdo de desamparo e dor)

Morrer por amor...



Reaparece o gato Kowalsky, a maior paixão da gata Morgana. Eles parecem Romeu e Julieta em seu amor felino, infinito e de possibilidades pessimistas. Ficam horas e horas, que jamais sentem passar, trocando olhares de tesão e esperança. Mas tão imensa e intensa quanto a proximidade de seus corações é a distância entre seus mundos.

KOWALSKY MONTECCHIO - "Oh, amada Morgs ! Venha comigo ! Vamos fugir ! Deixarei, para sempre, de ser o gato que pega todas as gatas da rua. Viverei só pra você, baby. Eu conheço um bueiro lindo onde poderemos ficar a sós para vivermos juntos todos os dias que temos para viver. Eu amo você, Morgs ! Eu amo ! Mesmo você sendo velha, castrada e banguela. Você é a luz que ilumina minhas madrugadas, o farol que guia meus sentimentos, o sonho que domina os meus desejos, a gata que dá sentido à minha vida ! Eu amo você, Morgs !"

MORGANA CAPULETTO - "Oh, Kovy ! Eu o amo, meu amor ! Mas Roger Capuletto não me deixa sair ! Ele me aprisiona ! Ele é egoísta e me usa pra não se sentir tão só ! Alem disso ele acha os Montecchio um bando de bagaceiros... e, cá entre nós, isso não deixa de ser verdade. Liberte-me, Kovy ! Não quero mais viver neste conforto mórbido, ração, caminha quentinha e caixinha de areia. Quero morrer por amor entre suas patas peludas e fortes... meu amado..."

Uma chavezinha de prata flutuando no espaço.



Abrirá a porta do meu coração imaturo ? Ou abrirá a porta do quarto vermelho e rosa da rainha de todos os meus sonhos, para que enfim eu possa olhar no espelho meus olhos tristonhos ?

Perdoa-me, Morgana !



Não tive culpa, juro !

Eu fui comprar a ração que a gata Morgana me pediu, a de sabor "Frutos do Mar". Mas, por mera distração lá no supermercado, peguei o pacote da ração sabor "Delícias da Granja", que ela não agüenta mais.

A Morgana ficou tão furiosa que não deixou eu entrar em casa. Fiquei trancado na rua, dá pra acreditar ? Daí mandei fazer esse cartazinho aí, pra comover o coração exigente dela...

Mas em seguida veio a vizinha falar comigo lá na calçada: "Olha, seu Roger... a sua gata ficou ainda mais furiosa com esse cartaz, até porque isso virou assunto do bairro, hoje... e ela pediu pra avisar o senhor que o negócio dela é gato peludo e não mico..."

Agora, diz pra mim... mas diz com total sinceridade:

Dá pra entender, poxa vida, o temperamento de algumas gatas siamesas ?

Rainha de todos os meus sonhos

Nós somos um pequeno universo infinito. Singelo e bonito. Inesperado, inseparável, descoberto e desperto. E tudo que quero é ter teu coração ensoladado sempre por perto. Porque você, rainha de todos os meus sonhos, não é só essencial:

Você é linda.

The Wallways



Flaming Whisbourne, um operário da construção civil, vive em Port Macquarie, no litoral da Austrália. Em determinado momento de sua vida, e sem uma razão clara, resolve construir um muro entre ele e o mundo, para descobrir quem realmente ele é.

No fim, após anos de isolamento e uma complexa trajetória de sofrimentos sem solução, ele constrói um portão no muro com o propósito íntegro e honesto de deixar entrar em seu mundo apenas quem ele sinceramente permitir.

E somente uma pessoa ele deixa entrar: Jennyfer O'Harry, uma moça sensível, inteligente, culta, debochada e independente, funcionária eficiente e competitiva de uma grande empresa do ramo imobiliário.

"Flaming, você é uma mala ! Eu adoro você... mas você é uma mala ! E com licença que agora eu vou voltar pro mundo lá fora, ok ? Qualquer hora eu apareço. Vem aqui, me dá um beijinho..."

"Ahahahah, eu adoro você Jenny... quando quiser, vem..."

Prisioneiro do Amor



"Tudo que posso lhe dizer, Melanie, é que do modo como trato a mim mesmo, serei cruelmente processado pelo meu tribunal interno. Acusação: incúria. Sinto muito, Melanie, mas eu não consigo mais esconder minha tristeza quando falo com você. Sinto muito. E o que eu sinto só eu sei. E você, com seu inevitável desprezo pelas circunstâncias todas, com seu drástico pessimismo diante da potencialidade dos fatos e com seu desinteresse amplo por tudo, apenas não me diz nada, há anos."

"Você está preso porque quer, Roger."

"Tudo que tenho é um universo, Melanie. Mas até universos morrem. E eu tenho sentido esta morte. E você não me diz nada. Veja a minha gata siamesa, a Clarissa Dempsey, por exemplo. Ela é capaz de me dizer muito mais dos sentimentos dela do que você."

"Eu tenho vindo visitar você aqui na prisão de Korndom já fazem três anos. Mas você apenas está se lamentando, Roger. Já poderia já ter saído daqui."

"Mas esta é uma prisão de segurança máxima ! Como espera que eu possa reunir energias para sair daqui, Melanie ? Nem amigos eu tenho em Korndom. Os prisioneiros todos me consideram um baita juca."

"Você sempre vê tudo pelo lado mais sombrio, Roger. É uma forma de se convencer a não fazer nada. Vo cê é um bom cara, mas muito preguiçoso. Quer que eu sinta pena de você ? Inútil. Tudo que eu queria é que você se livrasse deste ergástulo que lhe serve de mosteiro. Queria pudesse sentir a liberdade com um pouco mais de confiança, coragem e vida. Só assim eu me sentiria realmente amada. Mas o que quer de mim ? O que quer que eu diga ? Nossas conversas são divertidas e isso me basta. Nossas piadas são boas e somos bons de amenidades. Falar de nós mesmos pra quê ? E quer que eu seja franca ? Sua tristeza ma cansa. Você não está em posição de me fazer cobranças. Você é um prisioneiro, Roger."

"Eu não estou lhe cobrando nada, Melanie. Quer dizer.. ok, estou. Mas eu só quero uma posição sua. Você ainda me deseja, mesmo com essas grades entre nós ?"

"Eu não quero falar sobre isso... e... e adeus... é melhor nossa conversa encerrar... eu vou embora..."

"Eu tenho saudade do tempo em que você decidiu viver comigo nesta prisão. Eu sempre amarei você, Melanie."

"Eu sei... eu sei... eu queria mesmo..."

"Não... eu não quero que chore... eu... querida..."

"Adeus... adeus, Roger..."

"Mas... mas... mas Melanie..."

"Roger... eu... eu tenho alguém... estou vivendo com um homem... não quero enganar você... ele é um estúpido... mas está sempre presente..."

"Oh ? Quem ?"

"Você não conhece. Ele trabalha no ramo de leite."

"Sua vaca !"

"Não adianta me culpar, Roger. Você sabe que eu estou certa."

"Sim ! Eu sei que está certa nessa história... mas... sua vaca !"

Marketing



Faça como os grandes gênios da humanidade:
leia o Diário de Bordo do Astronauta Roger.

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Leia o Diário de Bordo do Astronauta Roger... e ame o próximo...

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Leia o Diário de Bordo do Astronauta Roger... e fique louca de tesão.

Tudo previsibiliza-se na minha epopéia astronáutica

Enfim, tenho ciência...
O universo é exato.
Meus sentimentos são matemáticos.
Meus desejos são químicos.
Minha existência é uma biologia sem alma.
Minha alma é física.

Fragmentos de Domingo



É um livrinho em que o gato Lucifer Sam faz pequenas narrações de circunstâncias dominicais envolvendo pessoas, lugares e sensações. Ou uma amostra simples de tédio felino.

Trechos:

London McAllister Sweetpecker. Autista. Petrificados olhos que contemplam as horas imperceptíveis, o plúmbeo rio morto e a cidade em sono. Penumbram seu dia as nuvens feias e gigantes que refletem temerosas a cor do rio, morto. E cinzas sem cor também são os prédios abandonados de domingo. Mr. Sweetpecker agasalha-se inerte em sua janela alta e sente que chove frio. E o dia igual é igual aos dias iguais de seus 60 anos sem memória. Londres nunca existiu, e sempre choveu em sua vida. Sempre foi domingo.

Oleg Olsen faliu em Oslo. Dá-se um tiro na cabeça. O sangue quente pinga da cama funeral. Noturna tarde de neve opressora. O domingo morto não sentirá sua falta.

Cão Bormann, pastor alemão. Passeia contente no parque. Mas chove e seu dono quer ir embora. Bormann, por instinto, obedece o dono, mas odeia o domingo.

Cíntia Alice. Doméstica. Passa o dia no quarto de empregada ouvindo rádio. Chove e congela-se qualquer atitude. A mãe, do interior, telefona, queixa-se da solidão. A patroa convida para tomar um chá e assistir tv. Cíntia agradece mas prefere voltar para seu quarto. Está cansada do domingo.

Roberto acorda cansado às onze da manhã do domingo invernal com o chamado insistente da campainha. Mal humorado abre a porta. É dona Leda, a sogra. Veio visitar o novo apartamento do casal. Roberto e sua esposa passaram o dia anterior envolvidos com a mudança. Após o almoço, a sogra, muito velha, que o despreza na mesma medida que ele não a suporta, tropeça nas caixas empilhadas no chão da sala, cai desajeitada e quebra o braço. Grita muito. Roberto queria descansar. A caminho do pronto socorro, sua esposa, sentada no banco de trás do carro, reclama veementemente do desleixo do marido, que não guardou as caixas em outro lugar. A velha, ao seu lado, olha pra ele com raiva.

Roger Barrett pensou que fazia sol. Mas não existe domingo ensolarado em Manchester. Roger Barrett, cego. O calor que sentia era tão ilusório quanto seu desejo de deixar de ser um mendigo na depressiva metrópole.

Cedenir. Goleiro. Joga na lama, debaixo da chuva fria. Levou dois frangos no início da partida e é o culpado dos fracassos do time. Pensou em abandonar o futebol. Mas faria o que aos domingos ?

Hélio. Recebe visitas familiares no sanatório. A mãe, as irmãs, o cunhado, o sobrinho, um amigo. Ninguém fala nada. Passam o domingo assistindo TV. Vão embora. O amigo lhe deixa um papelote de heroína. Hélio se droga em excesso, de propósito. Morre de overdose antes que inicie a segunda-feira.

Phillip cruza a França de trem num domingo. O trem é rápido, o domingo é lento e seu destino é um eterno domingo.

Andreas Tzortzopoulos recebe um fax da mulher, que fugiu para Hong Kong com um amante. Ela avisa que passou o melhor domingo dos últimos doze anos.

Salomé, gata, preta. Cai do octagésimo andar. Venta no domingo de sol e de ninguém na rua fria. Salomé plana, voa sob o vento, com as patas abertas e esticadas. Lembra um pequeno morcego dominical e anônimo. Somente horas depois chega lá embaixo, em solo firme, suavemente, e sai andando sozinha e assustada pela avenida deserta. Não sabe, perdida, que sobrevoou e sobreviveu um Domingo que para ela não existe.

Num domingo qualquer decido mudar de vida. No domingo seguinte decido que jamais decidirei mudar de vida. E no domingo próximo decido que jamais tomarei decisões.

Domingo no parque. Crianças e cães. Algodão doce e cachorro quente. Ilgmar, travesti, passeia com suas roupas berrantes da noite anterior. O cansaço, a solidão, a fome e a ressaca. O efeito anestésico da vida noturna de Ilgmar que passeia sem se importar com o olhar escandalizado das famílias morais presentes debaixo do sol, no parque, na manhã, na tarde, no Domingo no parque. À beira do laguinho dos pedalinhos alegres, Ilgmar cai. O corpo jogado ao solo, deselegante. A peruca à dois metros da cabeça. Nada combina na roupa debochada de Ilgmar. Nada de Ilgmar combina com o Domingo no parque. O corpo ficará ali, estático, até que morra o travesti, porque pais, mães, crianças e cães, aos milhares passam pelo corpo. Mas a visão desta gente toda está obstruída pelo algodão doce. Por mais que Ilgmar chame a atenção, ninguém vai perceber Ilgmar no Domingo.

Centro da cidade no domingo de manhã. As calçadas ficam limpas de gente e podem ser vistas. Os moradores ficam trancados em seus apartamentos sujos de poeira urbana. Há um silêncio triste, cortado pelo eco das conversas do bar da esquina dos bêbados. E escutam-se as tevês ligadas sem ninguém assistir. Dois adolescentes observam tudo do quinto andar. Eles não têm a mínima noção do que vêem ou sentem diante da paisagem. Mas sabem que é domingo e tudo está chato.

Décio. Porteiro do prédio comercial. Passa o domingo assistindo a programação esportiva no rádio. Não há mais ninguém, só Décio e o som do radinho retumbando pelos corredores e escadarias do edifício. Fumando seu cigarrinho, apoiando os pés no balcão de recepção e inclinando a cadeira, Décio se desequilibra e cai. Bate a cabeça e morre. O cigarro faz queimar seu cabelo e depois suas roupas, depois todo o corpo. O ambiente morto não reage e o narrador do futebol grita gol, impassível, diante da cena trágica que só será contemplada na segunda-feira.

Smart Selenith visitando a nave branca



O sábio interplanetário Smart Selenith visitou a nave branca. Trouxe sua guitarra e tocou umas músicas. Legal receber um grande amigo. Assim, neste isolamento supremo em que me encontro, eu tenho a rara chance de perceber alguém além de mim. Ele me disse que o "eu" é só uma forma didática de entender o universo. É a condição transitória earthplanetense. No futuro veremos o "eu" como o nosso jardim de infância existencial.

Às vezes concluo que nada existe. Apenas os conceitos é que existem. As coisas todas perdem-se. Tudo na verdade é a mesma coisa: o universo. Mas há divergências. Smart Selenith, por exemplo, acha que a realidade é composta de apenas dois elementos: o universo e um pacote de waffer sabor nozes (é, tem aquele livro de Stephen Hawking, onde ele supõe que o universo está dentro de uma casca de noz... mas em Shine Beat Galaxy há uma corrente astrofilosófica que discorda disso e afirma que o universo, na verdade, está dentro de um apartamento na Rua 24 de Maio, em Happy Harbour, Earth Planet).

Eu gosto de quase qualquer sabor de waffer. O importante é o significado simbólico daquele acúmulo concatenado de camadas geológicas de biscoito e creme, configurando uma edificação gustativa ao mesmo tempo simples e confusa, admirável. Aquela briga ideológica entre as papilas. Umas mais afoitas e revolucionárias achando tratar-se de um creme doce, outras mais conservadoras achando que é apenas uma bolacha seca. E tem as papilas do centro, que têm maioria no congresso. Essas admitem que é apenas mais um waffer em nossas vidas.

Segundo Smart Selenith a busca é o alcance de nossa percepção, o destino visível é apenas o destino transitório. O sábio acha que para podermos compreender a complexidade dinâmica da existência são necessários dois movimentos vinculados a um mesmo princípio: o do distanciamento. O primeiro movimento para se compreender melhor a existência é "afastar-se das coisas", de acordo com o ocidente de Earth. O segundo movimento é o distanciamento de "si mesmo", conforme compreende-se no oriente de Earth. Somente assim estas questões poderão angariar respostas.

Smart Selenith também me disse que nossa individualidade não está separada do cosmos, não sendo necessária portanto a integração do que não está separado. O que está ainda separado do cosmos é a nossa percepção. Mas a percepção se amplia, de acordo com o nosso impulso regido pela natureza das coisas. Nós ainda nos sentimos sós por não percebermos que somos o universo. Cada momento é um nunca incompleto. Cada lugar é um nada frustrado. Deu pra entender ?

Será que foi apenas minha imaginação ? Não sei, nunca sei. Mas foi muito bom receber meu amigo Smart Selenith na nave branca.

E super legal o Smart tocando na guitarra umas músicas do Yes...

Relações perdidas na distância



A Terra e a Lua estão em crise. Distanciam-se progressivamente. Segundo Lady Sometimes, a dama do tempo, "é assim mesmo... todas as relações sofrem desgaste... é natural um certo afastamento... pensa bem, Astronauta Roger, a Terra e a Lua estão neste casamento há mais de quatro bilhões de anos !" (eu sugeri que dormissem em quartos separados, pra não minar a paixão... a Terra podia ficar onde está... e a Lua podia dormir no sistema de Jupiter... mas sem más intenções, claro... na maior confiança emocional, saca ? mas a verdade é que a revista Space Caras flagrou a Lua ao lado de Marte enquanto a Terra, desatenta, achava que era uma noite de lua nova...)

Mas... e o atrito com o vácuo ? Esta insistente opressão do nada, do nunca e de ninguém. Nesses momentos o espaço me dá claustrofobia.

Minha alma sozinha penumbra-se como matéria inerte e disforme submissa à projeção da sombra inocente e longíqua da saudade. De que maneira posso livrar-me da proximidade drástica desta vastidão inúmera e anônima ? Como descrever o que vejo se sou escravo do meu desejo ?

É, nós astronautas temos uma vida sexual dinâmica, mas só em pensamento...

Tudo é real antes do pensamento



O gato siamês Lucifer Sam a bordo da Xícara Maluca atravessa com simplicidade a órbita de Earth Planet. Para ele só existe o imediato. O passado e o futuro são os medos humanos em forma de tempo. Assim, a singela xícara é livre para se deslocar na velocidade da emoção. Decora o espaço com delicadeza, silêncio e matemática, num flash de sentimentos que ofuscam a razão...

O cachorrinho antimatéria



sinto-me como Canius Blinkingalvus, o cachorrinho antimatéria...
então vivo o tempo de trás pra diante
o futuro é o meu presente
sinto sede depois de beber
sinto fome depois de comer
sinto sono depois de dormir
e sinto saudade depois de te ver...

Retorno eterno



Para o sábio Smart Selenith, "o futuro não é uma história contada... ele perambula no escuro de nossas perspectivas e nas entrelinhas de nossas expectativas". Meu retorno à mãe Terra é eterno. Acho que posso imaginar meus passos num solo firme, gentil e antigo. Caminhar em Happy Harbour e ver o céu como se não o conhecesse. No coração da cidade, na pequena esfera planetária, meu globo ocular adivinha estrelas além da fumaça da urbe viva. Posso sentir o encanto de descobrir uma estrela simples, distante e branca. Ela é meu futuro a ser observado. Ela é um passado a ser esquecido. Ela é o presente da minha vida. Disse-me o anjo intergaláctico White Intermediate: "Pessoas, Earth Planet. Paixões, frustrações. Há os que olham para cima para ver o passado de tudo. Há os que olham para baixo para ver o passado de si. E há os que olham para frente para ver o passado passado."

Camisa 10, Earth Planet



olhando meu último mar
tentando driblar o vento
da saudade, do espaço e do tempo...
nunca mais esta paisagem
tornei-me o craque sideral
na minha eterna viagem
sem volta e sem litoral...

Far from me and you



If you want love me
If you don't love me
Tell me why the love is
Far from me and you

The telephone is ringing
If your voice come to me
Tell me why the distance
Is far from me and you

Meu passado pop desequilibrado mental



pois é, eu cheguei a participar dos Beatles... mas fui expulso da banda por me recusar a continuar usando o corte de cabelo estilo penico de cabeça pra baixo... além disso, era consenso entre Paul, George e John que eu era um desequilibrado mental... só o Ringo me entendia...



também fiz parte desta banda... mas rapidamente fui expulso por ter um comportamento, segundo nota oficial da gravadora, "potencialmente danoso à moral britânica"... além disso, o Mick Jagger e o Keith Richards me consideravam um desequilibrado mental... só o meu primo, o Brian Jones, me compreendia...



também fiz parte do início da carreira deste pop group britânico, o Pink Floyd... mas em seguida fui expulso da banda... eles não gostavam das minhas composições musicais ingênuas e singelas, sobre experiências amorosas e psicodélicas... além disso achavam que eu era um desequilibrado mental...



daí eu tive a minha fase "glitter"... o britânico David Bowie foi profundamente influenciado por este meu período de estilo... e utilizou-o com audácia e gratidão, ainda que me considerasse um desequilibrado mental...



então começou minha fase punk e eu formei um grupo para tocar musiquinhas rápidas e rebeldes... mas... tipo... porra... muito palhaço os cara, saca ? em tudo que é foto que a gente tirava eles ficavam passando a mão na minha bunda... que saco, baita criancisse ! daí eu caí fora, meu... e eles até mudaram o nome da banda, depois... é foda, véi... e ficaram dizendo pra imprensa que me expulsaram por que eu era um desequilibrado mental... ah, vão se catá !



quando eu participei do Nirvana me acusaram de ser um desequilibrado mental só porque nos shows eu quebrava os instrumentos e me atirava na platéia... nada a ver, véi... era só "tipo", saca ?



o Kiss foi o grupo de rock mais normal da qual fiz parte... e seus integrantes me toleravam, apesar de me considerarem um desequilibrado mental... mas nunca me expulsaram da banda... sabe por que eu saí ? porque eu "kiss"... ¬¬



daí teve uma fase em que senti necessidade de reinvidicar a valorização do meu povo e escolhi o reggae como forma de manifestação... então fiz parte do grupo de Bob Marley, "The Wailers"... mas em seguida fui expulso da banda... diferença de estilo... não toleraram isso... eles fumavam maconha o tempo todo... e o único entorpecente que eu usava era Fanta Uva... além disso, o Bob achava que eu era um desequilibrado mental...



na minha fase dark participei, com cínica melancolia, do grupo "The Cure"... mas em seguida fui expulso da banda... Robert Smith, além de achar que eu era um desequilibrado mental, não suportava mais conviver comigo... é que o tempo todo eu sentia um profundo tédio por ter que fazer cara de tédio o tempo todo... saca ? melhor assim... muito boiola o visual da banda... aliás, muito difícil a gente não passar por boiola fazendo parte de banda de rock... e eu sou espada, saca ? queima o filme, e tal... e com essa carinha aí, de "deprimida", nem se fala...



numa fase sinceramente careta, ingressei no "ABBA", me unindo aos casais "Agnetha e Björn" e "Anni-Frid e Benny"... mas... mesmo o fato deles gostarem muito de mim não evitou que eu quisesse, desiludido, abandonar o famoso grupo pop sueco... é que, tipo, eu não tinha pra fazer na banda... então ficava o tempo todo segurando a vela, saca ?



minha passagem pelo Black Sabbath foi marcada por controvérsias, escândalos e boataria... e depois que foi divulgada no mundo inteiro a história de que eu teria mordido um morcego no palco, durante um show, fui expulso da banda sob a alegação de que eu era um desequilibrado mental... baita sacanagem ! eu nem mordi morcego nenhum ! era um corvo...



fiz, enfim, minha própria banda de róque... mas como ninguém mais quer saber de mim na vida, a banda é formada por mim, mim e mim... saca ?

Biografia do gato siamês Lucifer Sam

Nunca vi tanta difamação num livro ! Pura inveja, pura inveja ! Uma tremenda injustiça com o meu querido gato siamês, que, entre outras acusações infundadas, é definido como "um animal apático e imbecil, destituído de qualquer faculdade especial digna de menção, com uma personalidade solertemente surrupiada da música 'Lucifer Sam', da autoria de Syd Barrett, atuando como débil e caricata bengala criativa a serviço de um escritor frustrado, deprimido e de originalidade anêmica, incapaz de assumir o que escreve, atribuindo ao bichano toda sua produção literária de categoria desprezível... tal obra, construída sobre um terreno falso e inseguro, assemelha-se a um planeta ridículo, órfão de sol ou de órbita, perdido para sempre numa galáxia de mentiras medíocres..."

E para causar mais escândalo o livro teve a petulância de dizer que "Lucifer Sam não é um gato, mas uma gata (!!!) cujo nome é 'Morgana', que ao invés de uma vida cheia de aventuras bobocas, amores cafonas e descobertas manjadas pela galáxia, tem uma pacata, inútil e parasitária existência dentro de um apartamento insignificante no centro de Happy Harbour, Earth Planet..."

Biografia do Astronauta Roger

Mais uma infâmia publicada pela editora In Veja. O que eles querem é ganhar dinheiro seguindo o rastro invisível da minha nave branca ! Chegam a dizer que "o Astronauta Roger não é astronauta nem aqui nem na China... sua viagem mais ousada é ir na padaria da esquina comprar Coca-Cola, pãozinho Seven Boys e Amendocrem, e vive trancado num apartamento de Happy Harbour, Earth Planet, levando uma vida anônima e inútil... que ele não entende bulhufas de astronomia todo mundo já notou, mas convenhamos, aceitar como 'literatura' o Diário de Bordo da Interestellar Overdrive seria uma agressão demasiada à arte da escrita... sua pseudo criatividade, fruto de evidente inanição intelectual, apóia-se em frágil estrutura estética e constrangedora ausência de originalidade, configurando um triste quadro, afeito muito mais a uma análise psiquiátrica do que literária... e não convém analisar, nem superficialmente, sua paupérrima produção poética, mas é forçoso admitir que foi ela que inspirou o título deste livro... um demente ? não... apenas um escritor frustrado atirado no tapete da sala de estar de seu apartamento, conversando com sua gata Morgana, compondo uma cena onde seria difícil para o espectador distingüir quem é o mais idiota..."

Encontro com uma mulher intelectualmente inquieta e sexualmente vulnerável

Como é difícil para mim, um cara intelectualmente vulnerável e sexualmente inquieto, um encontro com uma mulher intelectualmente inquieta e sexualmente vulnerável. Sua inteligência me massacra e me destitui de qualquer esperança de "impressionar". Qualquer tentativa de "fazer um tipo", ao invés de me salvar, me destrói. Então torturo-me, imaginando o que ela pensa diante da minha pantomima desesperada:

"hum... agora ele está sendo divertido e simpático... que ridículo..."

"xiii... agora tá falando que nem intelectual... que tipinho manjado..."

"ahahah... agora tá falando comigo 'de igual pra igual', como se eu não percebesse que é puro cinismo..."

"olha! tá fazendo o tipo ingênuo pra tentar me comover... que ingenuidade!"


E assim, tipo após tipo, numa desfiguração contínua da minha personalidade, vou fracassando miseravelmente. Daí, numa última e tragicômica tentativa, tento ser "eu mesmo", pra ver se cola. Então o desespero fica ainda maior e mais visível quando percebo que eu simplesmente não sei quem eu sou.

Pergunto pra ela:

"quem sou eu?"

Ela ri... mas no fundo devia estar pensado: "credo... e ainda por cima é narcisista".

Vou pra casa me sentindo um conquistador fracassado. Uma vergonha para a raça masculina. No dia seguinte ela me liga:

"adorei você..."

"qual deles ?"

"aquele que ficava escondido atrás das máscaras, me observando com ternura..."

"ok... levarei ele no nosso próximo encontro... que tal ?"

"não... ele é que levará você..."

"tá..."

Não sei como explicar, mas...



nestas paralisias repentinas percebo que não só dos outros, mas também de mim, o astronauta desvencilha-se... e perde-se, autônomo, no espaço...

enquanto perco-me, autômato, em mim.

Meu Coração Despedaçado



Licurgo D'Alagnol de Oliveira Carvalhosa é um artista vagabundo e frustrado, filho do severo desembargador Carvalhosa, que o despreza e hostiliza. Vítima de sórdida negociata entre clãs da elite social, se casa com Catarina Boaventura de Alcântara Menezes, filha e herdeira de poderosa família de industriários, mas é apaixonado por Jurema, a empregada deles.

Licurgo consegue se separar de Catarina, mas Jurema não fica com ele. Prefere ficar com o bagaceiro Nestor Pólvora, um taquígrafo corrupto:

"Ah Roger... ops, quer dizer... ah Licurgo, você é legalzinho até... meio confuso e neurótico, eu diria... mas legalzinho até... só que o Nestor... hum... não que ele seja melhor que você, mas... ah... ele é mais decidido, corajoso, sexual, macho, inteligente, esperto... não que você não tenha essas qualidades... tem até... mas é super difícil percebê-las em você... saca ? agora eu tenho que ir ! tchau Roger... ops... Licurgo ! sempre confundo... hihihi..."

Responsabilidade Carcomida



John Mcbraian é um ator fracassado que, sem emprego, torna-se vendedor ambulante de termômetros de parede. Uma de suas clientes, Penelope Dolloway, o reconhece:

"oh ! você não é do elenco daquela sériee... como é mesmo o nome ? ah, não lembro... mas é você, sim ! puxa ! pessoalmente você parece ainda mais baixinho, ahahahah ! ah, não me leve a mal ok ? mas então... eu queria colocar um termômetro na parede da sala de jantar... você, que é artista, deverá ter sensibilidade suficiente para escolher o melhor modelo... meu marido está me pedindo isso há dois anos, acredita ? ahahahah... ai meus deus, meu marido é um saco... você já se casou, Roger ? ai, não é Roger, né ? é John ! ahahahahah..."

John e Penelope se apaixonam e têm um lindo caso de amor, repleto de sexo e diversão intelectual acerca de seus respectivos fracassos. Mas separam-se porque Penelope, entre um homem fracassado e um casamento fracassado, prefere o casamento. E John continua sua vida, indefeso diante de tão tristes perspectivas. Seu único consolo é ser útil à Magda Goebbels, sua gata siamesa e única companhia realmente fiel.

Farrapo Humano



Adamastor Stuart de Oliveira, um pobre homem de coração cansado, dolorido e triste, cuja alma foi destruída pelas relações amorosas, só encontra consolo na bebida. Resolve abandonar a vida dos bares e vai viver no campo. Lá ele conhece, se apaixona e se casa com Helga Moritz Castanheiras, uma vaca.

Cromos siderais para você colecionar



A persistência da memória



em algum lugar deve estar escondida...
a fábula do Astronauta que sentia falta de sentir falta do que nunca faltou...
um dia sua infância não acabou...
do terraço de um edifício de pastilhas azuis partiu para o espaço a bordo de uma nave mãe pequena, sensível, irreal e protetora...
levou consigo tão somente a atmosfera nítida, colorida e melódica dos seus últimos dias de criança...
esta longa trajetória sem direção resumia-se numa decisão inevitável de sua vontade:
tornar-se o universo ou retornar ao mundo...
o espaço o recebeu em lágrimas...

mas nada está próximo quando não sabemos onde estamos...
então quis retornar ao seu planeta:

"eu quero querer de volta minha vida perdida...
e redescobrir a existência da minha história..."


o mundo o recebeu de braços abertos, amaciando sua queda com calor, carinho e futuro...
então descobre satisfeito que o universo não é mais perfeito...
o destino não está contado...
a bolha etérea que envolvia o astro se desfez num átimo de coragem e contato...
o mundo é-o...
há tudo-lhe...
o que não há, não existe...
o que resiste, sobrevive...
e morre...
o que sente, vive...
e morre...
só a memória persiste...

carrega sobre seus ombros o peso da saudade do que nunca houve...
fora da nave sua voz é grave...
seu objetivo é oculto...
seu receio é adulto...
seus cabelos brancos são a contradição de sua inexistência...
e seus olhos sofrem, pedem, querem, chamam, se aprofundam...
e amam...

seu medo abençoa a felicidade do imediato...
agora há um homem onde a criança dormia para sempre...
a vida adormecida simula-se num cenário sem despedida...
seu passado tinha botas, luvas, macacão e capacete...
seu presente é um infinito carente...
seu futuro é para sempre...

ele está contente...
mas não sabe o que sente...

Mood Moon Movment




Existe um fenômeno que nós astronautas chamamos de "MMM", ou "Mood Moon Movment".

Segundo o sábio interplanetário Smart Selenith "a Lua é uma mulher". Ou seja, é incompreensível, temperamental, misteriosa e sexualmente atrativa. No período MMM, a Lua avança, para, avança, para, avança, para, avança, para, avança, para... e daí... avança !

São movimentos astronômicos imprevisíveis e desobedientes. Uma sutil ironia de uma física desconhecida e indecifrável. Não há, em Earth Planet, matemática explique tal complexidade comportamental.

Mas não devemos confundir este incidente com as mudanças bruscas de temperamento que ocorrem no satélite no final de cada ciclo ao redor de Earth Planet, a cada 28 dias, e que às vezes causa distúrbios no espaço. Nestas ocasiões a Lua fica irritadíssima com a luz de Sun Star ou com a bagunça que os cometas fazem no sistema solar. E chora sem parar ao olhar-se no espelho, achando que está gorda.

Alguns livros não publicados por Lucifer Sam



OLHOS SILENCIOSOS EM JERUSALÉM

James vai a Jerusalém em busca de Petrônia, sua namorada de internete há seis anos. Mas encontros "off line" são difíceis. E Petronia já estava comprometida com um marceneiro. Decidem então se despedir sem dar prosseguimento ao romance:

“Seis anos, Petronia ! Seis anos de amor e mágoa, de dor e mácula, de esperança e desejos... de beijos... e agora, de distância...”

“James ? O que é isso ? Poesia, agora ?”

“Estamos nos despedindo, pôxa. Pode me permitir ser um pouco transcendente ?”

“Ok, fique à vontade com sua transcendência. Preferia que fizesse algo pra impedir que nos despedíssemos. Mas tudo bem. Faça sua poesia transcendental aí. E agora com licença que eu quero dormir.”

“Você sabe muito bem, Petrônia, que livrá-la de Jerusalém seria um milagre. Nem o Cristo conseguiria. Eu achei que me amasse. Mas pelo visto você já namorou metade da cidade. Só não sei se foi a metade árabe ou a dos caras com trancinhas.”

“Não queria que você fosse um Cristo, James. Quero que fosse um pouco mais ousado que Ele. Se me amasse, me convenceria a sair daqui. O Joseph vai comigo visitar minha mãe em Genova. E você ? Você não faz nada. É muito carinhoso e escreve lindos emails. Ok, não é um ignorante como o Joseph. Mas você... você é um bolha, James... fica o dia inteiro trancado em casa.”

“Ah, entendi. Você quer que eu seja como o Joseph não é ? Dinâmico, competitivo, prático, decidido, confiante, apaixonado e totalmente burro. Ta certo, Petronia, mas não sou Joseph ! Tenho meus próprios defeitos, ta legal ? E quer saber ? Vocês latinos são... ah... esquece... vou voltar pro País de Gales e namorar uma geladeira.”

“Você é contemplativo James. Parece um astronauta desconectado do mundo. Vive sonhando feito um bobalhão. Tem uma criatividade e um humor ok, mas em termos de ação você é uma ameba morta. Você chegou aqui pra me ver e só foi me beijar quando a gente visitou o muro da lamentações. Pôxa, quer que eu me sinta amada assim ? Você não faz nada, James ! James, você é uma merda de personagem ! Eu quero um homem de aço ! Um homem que voe até mim e me leve para bem longe...”

“Você quer casar com Clark Kent e eu é que sou sonhador ? Tudo bem, pode me crucificar. Mas quando os judeus queriam apedrejá-la foi a mim que você recorreu.”

“Adeus James... Jerusalém que nos julgue...”

“Mas... mas Petronia...”
(FIM)


AS MÃOS DA SACERDOTISA

Mãe e filha, adoradoras de Satã, entram em crise de relacionamento quando a filha se recusa a fazer regime. No fim as duas matam-se num duelo de magia negra, cheio de interpretações freudianas e esotéricas.


CAN’T GET YOU OUTTA MY MIND

Cyntia Alice, uma mulher de verdade. Gostosa, sensual, temperamental. Não existem barreiras para sua liberdade. Ela ama ou odeia. Ela se apaixona ou mata.

Mas Cyntia é apenas um fantasma que perambula o quotidiano solitário de Roy Mcvillain, um cara pra lá de introspectivo, que sente o amor como ninguém, mas de ninguém se aproxima, e vive sua vida pacata ganhando alguns trocados tocando contrabaixo numa banda cover dos Carpenters...

“É como Cyntia realmente estivesse aqui, doutor... sinto seu cheiro no meu travesseiro... vejo seu corpo nu caminhando pelo meu apartamento vazio... converso com Cyntia em todos os momentos do dia, doutor... vejo os olhos dela brilharem... posso adivinhar o que ela pensa... posso perceber o desejo dela... eu sonho com o que ela sonha... e ela me ama, doutor... e eu a amo mais do que tudo em minha vida... incluindo o Grêmio...”

“Ok, Roy... agora fique parado só um minuto que o choque elétrico vai ser bem rapidinho, certo ? Dói um pouco mas vai lhe fazer bem, rapaz... você ficará novinho em folha e vai parar de pensar na moça aí, tá legal ?”

“Por favor, parem de me dar choques, parem ! Help ! Help ! Cyntia, me ajude !”


Neste instante, o fantasma de Cyntia Alice aparece miraculosamente, com uma jaqueta incrementada, calças jeans super apertadas, botas de couro cano longo e um cabelo vermelho espetacular. Acerta, com uma guitarra elétrica, a cabeça do médico, num golpe cheio de estilo e garra. Roy emociona-se tanto que, enfraquecido pelo longo tratamento a base de eletrocução e barbitúricos, tem um ataque cardíaco fulminante e morre. Mas seu espírito rapidamente ergue-se do solo deixando seu corpo morto para trás. Então recebe o merecido abraço de sua amada.

“Vamos embora deste mundo imundo Roy ! Vem comigo ! Eu conheço um bar da pesada, você vai adorar !”

“Yeah ! Legal, Cyntia ! Você é tri segunda metade dos anos 70 !”
(FIM)


MELODY

A vida da pequena e brilhante Melody, filha de Julia Dream. O mundo visto pela garota que vive no quarto vermelho e rosa. Sensual e inteligente, arrebata corações e mentes com seu humor cáustico, sua percepção precoce, sua doçura pecaminosa, sua lassidão virginal e seu olhar lúbrico.


SAINT TROPEZ

Angela Betega, milanesa, artista plástica, vive um delicado momento em sua vida. Recém perdeu o marido, que desapareceu sem deixar pistas, e não consegue recuperar sua auto-confiança afetiva e artística. Foi convidada por um casal de amigos, Graziela e Giuseppe, a passar algumas semanas do verão em Saint Tropez. Sem saber o que decidir, e com certo desânimo, ela aceita. Já no sul da França, separa-se do casal depois de ser assediada por Giuseppe num restaurante de frutos do mar. Mas decide permanecer em Saint Tropez e continuar suas férias silenciosas. Para repensar a vida...

John Weeping, americano de Frankfort, Kentucky, é gerente de supermercado, casado, pai de dois filhos, deprimido e cansado. Passou a vida preocupado com trabalho e dinheiro. É um homem infeliz. Sem paixão nem esperança, vive as agruras de um casamento sem emoção e sem sexo há anos. Vai a Saint Tropez por indicação de um amigo. Sozinho. Pra descansar. E repensar a vida...

Os dois encontram-se casualmente no restaurante "Nuit d'été". Foi John quem interrompeu a arrogante cena em que Giuseppe assediava Angela. Livrando-a do italiano ele a convidou pra acompanhá-lo no jantar. Ela aceitou, com certo desânimo. Passaram dias conversando e descobrindo afinidades jamais imaginadas em suas vidas. Apaixonam-se ardentemente, lançando-se ao romance maior de suas tristes vidas...

Diálogo final:

“Angela... eu... eu não posso levá-la pro Kentucky...”

“Sei... você é casado, John, já falamos sobre isso, embora eu sinta menos ciúmes de sua esposa do que da sua sensatez.”

“Minha situação é mais difícil que a sua. Você concorre com minha esposa, que eu não amo mais. Eu concorro com seu marido, que você ainda ama. E além disto ele é desaparecido, alto, forte e tem futuro.”

“Você também tem futuro, John. E eu odeio meu marido ! É ! Nunca falei isso, mas agora posso dizer: eu odeio o Domenico ! E mesmo que retornasse eu jamais aceitaria viver com ele novamente. Minha vida precisa de novos padrões estéticos. Me cansei do barroco. E me cansei do meu marido. Eu queria ir com você, John... eu queria...”

“Mas... Angela...”

“Esse sempre foi seu problema, John. Você não é capaz de arriscar, não é capaz de tingir com cores diferentes a sua realidade. Não existem pinceladas fortes, nem contrastes, nem matizes obscuros em sua vida. Seu quadro não tem movimento, nem luz, nem textura. Sua vida só tem uma bela moldura. Mas é uma tela em branco...”

“Você devia casar com um quadro de Van Gogh, Angela...”

“E você devia casar com uma caixa registradora ! Tem esperança pra vendar nas prateleiras do seu supermercado ? Ok, entendi. Você desiste. Eu sabia. É um adeus. Você desistiu de seu quarto de frente para o mar só pra ficar comigo, no meu quarto de classe média e isto me fez pensar que me amasse, John. Eu sempre me entrego ao amor e me desiludo. Você me disse que pela primeira vez na vida sentia amor por alguém...”

“Mas eu... eu a amo, Angela... mas... é que... sinto que Saint Tropez será apenas uma lembrança, Angela... tudo que teremos... uma lembrança...”

“Viva com essa lembrança ao menos, John... e seja feliz...”

“Você quer que me contente com uma lembrança ? E os teus beijos ? Teu corpo, teu abraço, teu calor... nos braços de outro homem ! E eu com uma lembrança agarrando-se em minha memória ! É terrível Angela ! Que devo fazer para convencê-la ? Agir como Giuseppe ?”

"Giuseppe é um idiota ! Mas ele me queria de verdade ! Quem sabe se você tivesse ao menos a iniciativa de Giuseppe, nosso destino fosse diferente. Você teve sua chance. Mas não aproveitou. Agora é tarde, John.”

“Eu quero você, Angela, porque não me acredita ? Estou desesperado. Quero uma vida, quero amor, quero ser feliz com você, quero ter filhos com você... ítalo-americanos ! Lembra que combinamos ? A Madonna e o Silvester. Quero nossa casa decorada com seus quadros. Quero que usemos a mesma escova de dentes. E você quer me punir, Angela. Que destino desgraçado ! A vida só me pune ! Eu não posso levá-la para o Kenyucky entes de me separar da Elizabeth !”

“Deixe de ser narcisista, John ! Não quero punir você. Eu te amo. Eu... eu vou dormir... amanhã tenho que acordar cedo e viajar pra Itália...”

“O quê ? Dormir ? Você, diante de um homem na minha situação, vai dormir ? Oh... Angela ! Não durma sobre o meu desespero !”

“Tenho que ir pra Itália ! Tenho que ir pra Itália ! Me deixe ir embora sozinha ! Você me faz sofrer, John ! Não quero perder esse vôo. Eu devia ter voltado na sexta-feira mas dormi demais porque você me segurou aqui, contando suas historias... e não acordei... eu detesto não acordar por sua causa.”

“Por favor... não vá pra Itália ! Fique aqui comigo ! Fique em Saint Tropez...”

“Saint Tropez não é real, John. Acorde. Seu lugar é no Kentucky. Meu lugar é na Itália. Bem-vindo ao mundo real. Quero uma vida nova. E não quero dividir minha escova de dentes com ninguém...”
(FIM)


ENTRE NÓS

A pura paixão entre o garoto de rua Nick Boy e a pequena e milionária princesinha Bridah. Uma pérola de ternura, esperança e amor. No fim, libertos de todas as amarras do destino, os dois unem-se definitivamente no castelo que Bridah herdou de seu tio do bem, Uncle Bem, no reino de Happy End, e vivem felizes para o resto de suas infâncias.


EVIDÊNCIA DE AGOSTO

A história de Pristine, atriz de cinema, vivendo em Londres, que após atuar em seu último filme sob forte crise depressiva, decide abandonar a carreira e isolar-se em seu apartamento... e Ron, um escritor frustrado, vivendo em Hamburgo, Alemanha, artista talentoso mas sem capacidade de iniciativa e que, enquanto publica livros de pouca repercussão, sofre as agruras de seu casamento em fase terminal.

Encontram-se nos agostos de suas vidas...

Pristine... sua vida repleta de paixões jamais teve um amor verdadeiro...
Ron... sua vida repleta de amor jamais teve uma paixão verdadeira...

O amor, a solidão, a paixão e a dor...
serão para eles, e para sempre, uma evidência de agosto...


O BOLO DE ANIVERSÁRIO

A singela história de Reginna Ricci Padova, professorinha de inglês de uma cidadezinha do interior da Calabria, no sul da Itália. Sua relação com os pais, com as amigas e amigos, com pessoal do trabalho, com os habitantes da cidade, seus amores, seus pequenos alunos. Todos estes formam o mosaico afetivo de sua vida simples mas densa, pacata mas grandiosa. No fim, todos eles se reúnem na festa de aniversário dela na escolinha e o pequeno Lucciano, de 9 aninhos, seu aluno preferido, lhe dá a primeira fatia do bolo. E com timidez, coragem e paixão, na frente de todos, pede Reggina em casamento.


PRISIONEIRO 21051965

“Do modo como trato a mim mesmo, serei cruelmente processado pelo meu tribunal interno. Acusação: incúria. Sinto muito, mas eu não consigo mais esconder minha tristeza quando falo com você. Sinto muito. E o que eu sinto só eu sei. E você, com seu inevitável desprezo pelas circunstâncias todas, com seu drástico pessimismo diante da potencialidade dos fatos, e com seu desinteresse amplo por tudo, apenas não me diz nada, há anos...”

“Você está preso porque quer...”

“Tudo que tenho é um universo. Mas até universos morrem. E eu tenho sentido esta morte. E você não me diz nada...”

“Eu tenho vindo visitar você, já fazem três anos. Mas você apenas está se lamentando. Já poderia já ter saído daqui, se realmente quisesse...”

"Mas esta é uma prisão de segurança máxima !”

“Você sempre vê tudo pelo lado mais sombrio. É uma forma de se convencer a não fazer nada. Quer que eu sinta pena de você ? Inútil. Tudo que eu queria é que você se livrasse deste ergástulo que lhe serve de mosteiro, para poder sentir a liberdade com um pouco mais de coragem...”

“Você vem aqui e não me diz nada.”

“O que quer de mim ? O que quer que eu diga ? Nossas conversas são divertidas e isso me basta. Nossas piadas são boas e somos bons de amenidades. Falar de nós mesmos pra quê ? E quer que eu seja franca ? Sua tristeza ma cansa. Você não está em posição de me fazer cobranças. Você é um prisioneiro.”

“Eu não estou lhe cobrando nada. Quer dizer, ok, estou. Só quero uma posição sua. Quero saber se ainda me deseja. Você me deseja mesmo com essas grades entre nós ?”

“Eu não quero falar sobre isso. E... e adeus. É melhor nossa conversa encerrar. Eu vou embora.”

“Mas... mas amanhã não é dia de visita. Eu não queria que nossa conversa ficasse tão ríspida. Houve um tempo em que você me cobrava, lembra ? Que você queria vir aqui viver comigo nesta prisão.”

“Eu sei, eu sei... eu queria mesmo...”

“Não... eu não quero que chore... eu... querida...”

"Adeus... adeus...”
(FIM)


O BEIJO CONGELADO

Ruppert e Grazziella passam o inverno em Turim, são amantes. O encontro é uma despedida. Grazziella decidiu continuar com seu casamento e Ruppert aceitou ser internado numa clínica psiquiátrica especializada em poetas traumatizados para iniciar longo tratamento.

“Meu coração está congelado, Grazy... congelado...”

“Poxa, Ruppert... eu disse pra você vir melhor agasalhado...”

“Mas... mas Grazy... sabe ? Eu ainda sinto no meu coração a sua presença. E meu desencanto é infinito por que cada vez mais eu sinto esta distância, esta impossibilidade imposta por mim e pelas coisas todas. Eu queria tanto poder te dar o meu amor e o meu carinho. Mas estou enlouquecendo, Grazy... enlouquecendo...”

“Você é um belo rapaz, Ruppert. Fará um ótimo tratamento e arranjará uma namorada que seja boa pra você. Eu tenho certeza.”

“Eu queria tanto que a gente se ajudasse, Grazy. Quantas perdas poderei ainda suportar por esta minha ausência ingênua ? Quem sabe juntos a gente transforme nossos fracassos em algo melhor. Ou numa comédia de sucesso surpreendente. Como tem sido difícil conversar com você. E estes momentos parecem ser os únicos com significado, vida e vontade, para mim. Os demais instantes se arrastam sem cores e sem sabor. Somente a tristeza toma conta de mim na sua ausência...”

“Você vai superar esse momento. Vai ter atividades, vai conhecer novas pessoas...”

“E essa tristeza não deixa de ser carinhosa, sabe ? Mas é triste. E pelo menos é alguém comigo. Quem sabe um dia eu me despeça da tristeza e agradeça a ela por nossos momentos juntos. E quem sabe seja um divórcio amigável. Direi a ela: quando quiser aparecer aparece, ok ? Daí eu apresentaria ela pra você: ó Grazy, essa é minha ex-companheira, a tristeza... Quem sabe você ficasse um pouco enciumada, mas em seguida ía perceber que você é muito mais importante pra mim do que ela.”

“Ruppert... Ruppert... Agora é momento de pensar em você. Não pense em mim. Eu preciso ir. Tenho que dormir. Amanhã de manhã tenho que estar em Roma. Não esqueça de se agasalhar, ok ?”
(e beija Ruppert com rapidez e tristeza )


OUTUBRO

“Você não me outubro mais ?”

“Eu acho que aquele outubro era um sonho, Roger...”

“Entre nós... esta distância ríspida... esta proximidade sísmica... eu acordei, mas ainda sonho... sonho com nossos agostos intermináveis... sonho com nossos setembros ansiosos... sonho com nossos outubros imaginários... sonho com nossos novembros inexistentes... solitário e desesperançado, ainda sonho com um domingo com você, doce princesa do meu coração imaturo...”



THE NUN SENSE

Roger Macdolands, um escritor inglês fracassado na carreira e no amor, decide mudar de sexo e torna-se freira. No convento conhece Giovinna Carpacci, uma ex-atriz italiana também frustrada em todos os aspectos de sua vida. Os dois se aproximam sentindo medo de seus próprios sentimentos e desejos, não conseguindo esconder uma tensa paixão recíproca e pecaminosa, tragados por uma atração física confusa e vulcânica. Após serem flagrados pela Madre Superiora Katherine Dolloway (que na verdade era apaixonada por Giovinna) são excomungados escandalosamente.

No fim casam-se. Mas cinco dias depois, Giovinna deixa Roger, alegando estar apaixonada pelo Padre Severo Mazzini, com quem foge para um paraíso fiscal. Roger, desconsolado, faz nova cirurgia e torna-se um canguru muçulmano.

Idades que não tenho

Meu desencontro de mim se encontra no adulto infantil e na criança adulta que habitam minha sensação de tempo. Ambos procurando idades que não têm, o brilho de uma sorte que os acolha, num amparo mútuo e solitário. À medida que se compreendem, me torno íntegro e inteiro. E nem a tristeza dessa vida pode superar o humor deste amor que os anos confundem. Quem sabe o tempo seja apenas um tic-tac dos nossos receios.

Diário de Forno do Padeiro Roger

Um colo para uma realidade onde tudo simplifica-se e realiza-se. Tons de frio e afeto. Uma esperança pura e amorosa. Uma vida bonitinha em Earth ! A minha padaria vai se chamar Fraulein Gnadigues, e funcionará em Kingsferry, Sutherland, Escócia. Venderei pãezinhos quentes, café e doces, para aquecer os dias próximos do solstício de inverno. No caixa ficará a Sra. Elfrida Phipps. Sam e Carrie no balcão. Lucy, Clodagh, Rory e Peter Kennedy na padaria. O Major Billicliff fará os reparos elétricos. Oscar Blundell fará as entregas. Rosamunde Pilcher fará os doces. Debaixo da neve setentrional, seremos todos fortes e persistentes, dependentes do calor de cada um para mantermo-nos vivos e felizes.

Meu coração despedaçado... e outras catástrofes...

Não existe no universo inteiro lugar mais solitário e incompreensível do que o ponto onde se localiza um coração partido, machucado, decepcionado. Não esperem jamais compreender as atitudes deste coração que perdeu o sonho e foi envenenado pela mágoa e pela desilusão. Tudo é dor quando não há colo para as palavras, quando não há alívio para os sentimentos, quando o destino mais querido se perde na floresta dos esquecidos. O amor desiste, triste. O olhar caído suplica por esquecimento. Não existe momento mais amargo. O afago almejado é um desejo impossível. E todos os medos imaginados se realizam. Resta-me seguir os passos em direção ao meu futuro iluminado. E dedicar ao passado o meu perdão e minha eterna solidão...

Chove em Happy Harbour



Chove em Happy Harbour, Earth Planet.
Céu plúmbeo. Coração de chumbo. Lágrimas de tudo.

O tempo passa, as pessoas morrem, nascem, vivem e esquecem. A cidade fria aquece e resiste. E assiste aos tristes e aos felizes de suas ruas antigas e firmes. Há um encanto em suas cores que sempre quis guardar desde a infância. A distância jamais me afastará do coração da metrópole. Nós, astronautas, sabemos que não é necessário viajar para conhecer o universo.

Messias Machine ?
Por favor me ensine:
O que significa Porto Alegre ?
É neste porto que devo atracar
E começar a vida que o destino me deve ?
Alegres os dias serão
Se eu puder caminhar do lado de baixo do céu
E comer um pastel na cidade baixa
Alegres os dias serão
Se eu tiver amigos, domingos, sol e redenção
Alegres os dias serão na cidade iluminada
Se meu coração for abençoado pela minha amada
Então serei o porto dos meus sonhos
Morando no nariz da cidade
Para ser feliz.
Mas feliz de verdade.

Borboleta Jasmine Stealth



Apareceu uma borboleta aqui na nave: a Jasmine Stealth.
Ela gosta de Picasso fase azul, de Genesis fase Peter Gabriel e de Grêmio fase Felipão. E agora está na mais esplendorosa fase de sua vida. Seu vôo é simples, talentoso, dinâmico e gracioso.
Jasmine me disse:

Astronauta Roger...
tome minhas asas e voe sobre os ventos
verá que só os desatentos me percebem
as crianças, os bichos, os mendigos
os que sentem minha dança e voam comigo...
outros me afastam com um tapa aborrecido
esquecidos da alegria, do amor e da esperança...
em minhas asas a dor descansa
como uma criança sem memória...
minha história dura poucas horas
pouco tempo para quem deve
mostrar que o mundo esqueceu
de se sentir mais leve
do que eu...

acho que você me entende...

Hibernáculo-me



um sonho difícil
um dia inexistente...
um pensamento fixo que esqueço sempre
penso nas palavras que magoado eu penso
sinto a saudade amarga que preenche o tempo
e perdido o senso eu procuro cego
um sentido certo a ser decifrado
um perigo vivo a ser descoberto
um destino perto de ser alcançado
vejo você ao meu lado falando comigo...
presente passado futuro acordado
dormindo...
mas é um sonho difícil
um dia inexistente...

Plata por un corazón eterno



Miguelita Hernandez Santa Cruz de la Santíssima Concepción é uma bem sucedida jornalista de Tegucigalpa, Honduras. E graças ao seu radiante talendo e simpatia diante das câmeras, torna-se apresentadora do mais famoso programa de auditório da América Central: Plata Por Un Corazón Eterno. Todas as semanas, ela oferece um milhão de Lempiras ao casal que demonstrar que o amor vale a pena.

Mas, curiosamente, nunca, durante anos, qualquer casal ganhou o prêmio.

Até que um candidato aparece no programa.
Ele está sozinho.
E diz, com olhar desafiador:

"quero provar, Miguelita... que vale a pena."

A apresentadora gosta dele:

"ok, ok ! vamos para mais um Plata Por Un Corazón Eterno ! uma salva de palmas para o candidato ! uhuuuuu ! mas... e quem é o seu par ?"

o canditado responde em tom macho e sedutor:

"você, Miguelita."

"ahahah, eu ? ah, que bonitinho... ei... tá falando sério ? gente ! ele tá falando sérioooooooo ! ai pára de me olhar assim ! nah... não pode... eu estou aqui para me darem esperança, apenas... e... ai, gente ! olha a ousadia do rapaz ! uhuuuuu !"

A platéia adora a idéia do destemido candidato, e grita pra Miguelita:

"aceita ! aceita ! aceita ! aceita ! aceita !"

Aos poucos o semblante de Miguelita transforma-se. Diante de todos, deixa de ser a apresentadora descontraída e segura, expondo, com desconcertante veracidade, a face feminil do seu desamparo, da sua solidão e do seu desejo por amor. O sorriso televisivo dá lugar à expressão da mais profunda tristeza. E, com os olhos úmidos, silencia diante dos gritos da platéia e dos telespectadores de todos os recantos de Honduras.

O candidato, olhando para as câmeras, propõe as regras:

"se eu provar à Miguelita que o amor vale a pena, abdico de receber um milhão de Lempiras... pois me sentirei o homem mais rico do mundo... mas se não conseguir provar... eu... eu cometerei suicídio... aqui nesse palco, diante de vocês... pois a minha vida não terá mais nenhum sentido... eu quero apenas uma noite, Miguelita... a noite de hoje."

A platéia volta a gritar:

"aceita ! aceita ! aceita ! aceita ! aceita !"

Após longos minutos de gritaria e suspense, Miguelita, atordoada e com o olhar perdido, pede auxílio à produção:

"por favor, tragam-me o pacote com um milhão de Lempiras."

Miguelita, séria e morrendo de medo, recebe o embrulho com as cédulas e oferece ao candidato. Mas ele recusa o prêmio:

"eu quero você, Miguelita."

"não... leve o dinheiro... você me provou... são as regras."

Desta vez a platéia grita para o candidato:

"não aceita ! não aceita ! não aceita !"

Miguelita ignora o desejo de seu público:
"tome o dinheiro... vale muito mais do que uma noite comigo."

"não, Miguelita... uma noite com você vale muito mais do que um milhão de Lempiras... uma noite com você vale uma vida... vale a minha vida..."

Mais gritaria no ambiente. Miguelita está tão apavorada que volta a se defender em sua personagem. E fala à platéia:

"ai, gente ! agora eu não sei ! agora eu não sei se esse homem é perfeito ou se é um pateta ! ahahahahah ! até quinta que vem para mais um... Plata Por Un Corazón Eterno ! uhuuuuu ! eeeeehhh !"

A apresentadora se despede do público e abandona o palco. Apesar de ainda faltar mais de uma hora para terminar o programa.

O autor da minha vida



Ainda que a dor assombre as lembranças do meu coração cansado e dolorido, não sei como definir a eternidade nas minhas circunstâncias. Estamos em tudo, creio. O anjo me disse que sou o autor da minha vida inteira: "E a alma do autor envolve as perspectivas todas do que ele cria. Muitas vezes o autor poderá descobrir que, muito mais do que ele mesmo, o que ele cria ele é. E ficará surpreso diante de sua própria alma. Nós somos uma pequena parte de nós, Astronauta Roger..."

Megalomania humilde



"ainda que durante a vida me seja impossível a glória e a fortuna, cultivo a firme convicção de que a história fará justiça à minha obra...
e as gerações futuras, repletas de orgulho e gratidão, esculpirão estátuas em minha homenagem..."

O sol de Morgana.



Estará a gata Morgana de frente para o sol e de costas para mim ?
Ou de frente para mim e de costas para o sol ?
Mas creio que, em ambos os casos, ela vê um sol se pondo.

Canção da Nave Branca em Callisto Moon, Jupiter System



Callisto Moon. Neste lugar descanso, em sutil e profundo estado de reflexão, jejum e ascese. Meu coração é meu rosto, meu vagar, o disposto desgosto de intenção no olhar. A dor mais profunda me consome atônito. A cor é oriunda do que some das vistas. O amor não dá pistas do que me deixou afônico: a voz e o sufoco da flor das conquistas. Não sei como explicar, mas Callisto Moon nos pacifica, nos descansa, nos acalma. Seu frio exterior nos deixa mais sábios e atentos. Seu calor interior enobrece nosso afeto, nossa confiança, e nosso sorriso. Jupiter Planet é um sol psíquico. Suas ondas magnéticas estranhas parecem remeter-nos à dimensões desconhecidas, onde habitam nossos sentidos ocultos. Símbolos sutis saem das cavernas geladas da lua distante para dançarem livres na memória de nosso destino imaturo.

Vem aqui pousar
Interestellar
Sente o solo estéril desta lua fecundar
Nua de mistério tua imagem
Em Callisto Moon

E volta volta volta

Vem sem te cansar
De vagar veloz
Leve tua voz leve teus passos neste lar
Júpiter no céu a iluminar
Em Callisto Moon

E volta volta volta...

Volta e faz a nave branca repousar
Volta a te esquecer do que puder lembrar
Volta enfim a imaginar...

Vem silenciar
Neste bem-estar
Órbita lunar a flutuar no teu pensar
Vem girar em torno desta paz
Em Callisto Moon

E volta volta volta...

Vem distanciar
Tua solidão
Tua imensidão tua paisagem teu lugar
Vem nesta viagem te encontrar
Em Callisto Moon

E volta volta volta volta volta volta volta...

Volta e faz a ave alva descansar
Volta a te sentir mais Interestellar
Volta enfim a imaginar...

Do anti